Política em foco / Marina: terceira ou segunda via?
A queda do avião que vitimou Eduardo Campos e sua equipe paradoxalmente trouxe nova vida a uma campanha presidencial que se arrastava lentamente. Até então, a atual presidente Dilma Rousseff dispunha de larga vantagem nas pesquisas, sem ser capaz de entusiasmar o eleitorado, contudo. Boa parte dele permanecia indiferente a todos os candidatos.
Escolhida para suceder Campos, sua então vice, Marina Silva, tornou-se instantaneamente a sensação da campanha, ultrapassando Aécio Neves e ameaçando o favoritismo de Dilma nas eleições. Diferentemente dos demais candidatos, Marina foi capaz de encarnar o “novo”, de se apresentar como uma verdadeira alternativa política para o país. Mas por que isso aconteceu?
Uma primeira maneira de considerar a questão é abordar o “velho”, ao qual o “novo” se opõe. O PT está à frente do Governo federal há 12 anos. Para os eleitores que votam pela primeira vez nestas eleições, o PT é Governo desde que se entendem por gente. Não é novo, portanto.
O PT enfrenta ainda outros obstáculos. O exercício do poder durante um período tão longo traz problemas suplementares para um partido que, como o PT, surgiu com a marca do “novo”. Para governar, o partido teve que montar amplas alianças e, com isto, perde necessariamente algo de sua “pureza” original.
Além disso, e de modo paradoxal, o PT paga um preço pelo sucesso de algumas de suas políticas. Na medida em que um número considerável de pessoas deixou a pobreza, elas não se tornaram necessariamente mais gratas: se tornaram mais exigentes. À medida que as condições materiais se tornam melhores, elas passam a cobrar mais, e não menos do Governo. Algumas destas pessoas acabam por engrossar o coro dos críticos do PT, menos porque se opõem às suas medidas, mas porque querem ir além.
De origem humilde, recém-chegada à campanha, política de um partido (a Rede da Solidariedade) abrigado dentro de outro (o PSB), mas ao mesmo tempo dona de uma marca política própria e nacionalmente conhecida, Marina pôde se favorecer como ninguém do vácuo político que se seguiu à morte de Eduardo Campos. Beneficiada pela simpatia que se seguiu à tragédia, e sem sofrer o inevitável desgaste da imagem provocado pela exposição pública, ela pôde se apresentar como a verdadeira novidade das eleições.
Para tal, Marina se beneficiou muito da polarização entre a candidata do PT e Aécio Neves, seu principal adversário. É apenas na medida em que um ataca o outro que ela pode se legitimar como terceira via, olimpicamente acima da disputa. Contudo, a rápida subida de Marina nas pesquisas traz alguns perigos para a sua campanha. Por um lado, a exposição da candidata ilumina um personagem concreto, real, necessariamente contraditório, que contrasta com a idealização inicial. Por outro lado, ao passo que ela deixa Aécio para trás, tornou-se segunda, e não terceira via, atraindo vários nomes da “velha política”, que afetam a sua imagem de pureza.









