Cerca de 70 policiais militares acompanharam a mobilização, que ocorreu pacificamente
A vinda do pastor e deputado federal Marco Feliciano (PSC) a Juiz de Fora, nesta sexta-feira (15), foi marcada pelo embate sobre a causa dos homossexuais. Se em frente à sede da Igreja Batista Estrela da Manhã (Ibrem), na Avenida Brasil, cerca de 50 manifestantes protestavam contra a vinda do político evangélico à cidade; lá dentro, quase dois mil fieis acompanhavam a pregação do pastor, que comparou os ativistas da causa gay a terroristas. Feliciano veio a Juiz de Fora como o principal convidado da "Conferência profética de unção e poder", evento organizado pela Ibrem e que termina neste sábado (16). Além de ativistas do movimento gay, o protesto contou com a presença de representantes dos movimentos negro, feminista e estudantil, sindicatos e partidos políticos.
O deputado chegou ao Aeroporto da Serrinha com uma hora de atraso e foi direto para a sede da igreja, por volta das 11h. Lá, ele era aguardado pelos manifestantes, que não tiveram contato direto com o pastor, graças a uma manobra da organização do evento, que simulou a chegada do convidado quando, na verdade, ele já estava na igreja. Dentro do templo, o político foi recebido pelos fieis com gritos de “Feliciano me representa”, em contraponto à frase “Feliciano não me representa”, que ganhou as ruas do país, principalmente durante os protestos do meio do ano.
Setenta policiais militares, dez agentes da Settra e da Guarda Municipal e mais 40 seguranças particulares contratados pela Ibrem acompanharam a movimentação dos manifestantes, liderados pelo Movimento Gay de Minas (MGM). Um grupo de quase dez mascarados vestidos de preto, inspirados na ideologia Black Block, se aliou ao grupo, mas não houve violência.
“Nossa cidade não merece a presença de um político homofóbico, machista, racista e que desrespeita os direitos humanos. É por isso que nós, cidadãos indignados da cidade, estamos na porta da conferência, mandando nossa mensagem e dizendo que ele não é bem-vindo a Juiz de Fora”, disse o presidente do MGM, Oswaldo Braga.
O discurso foi endossado pelo companheiro de Oswaldo, Marco Trajano. “Não é possível que hoje, comemorando o dia da Proclamação da República, a gente tenha um cidadão no Congresso Nacional que insiste em dizer que negros são amaldiçoados por Deus, que homossexuais são doentes e que mulheres devem ser submissas. Esse país é laico, e dogmas de fé devem ficar dentro das igrejas.”
“Marco Feliciano vem na condição de pastor e não de deputado. Nós entendemos que o assunto política é tratado no Congresso Nacional e não dentro da igreja”, defendeu o diácono Genésio da Silva, da Ibrem.
Discurso
Dentro do templo, no entanto, por cerca de duas horas, o deputado Marco Feliciano fez sua pregação religiosa recorrendo, a todo momento, ao discurso político. Ele ainda defendeu a união dos evangélicos, de forma a aumentar a representatividade desse público nos diversos segmentos sociais. O pastor abriu sua fala em tom conciliador: “Vivemos em um país democrático e livre, onde as pessoas têm – ou pelo menos deveriam ter – o seu direito de expressão e manifestação, desde que isso não atrapalhe a vida dos demais. Estamos em uma igreja. Nosso culto é protegido pela Constituição Federal.”
Aos poucos, o tom em relação aos manifestantes foi mais crítico: “A Constituição brasileira defende para nós a liberdade de consciência, antes da liberdade sexual. Eu vivo sem sexo, mas não vivo sem pensar. Se não me deixarem pensar, eu não vivo, eu vegeto. E é isso que querem fazer, através de métodos terroristas: vindo para frente de igreja, expondo a gente ao ridículo e se organizando através de internet.”
Dizendo-se vítima de perseguição da grande mídia e dos ativistas, Feliciano criticou a ideia de que se ensine nas escolas a naturalidade de uma família homoparental. Quando chegou a Juiz de Fora, o pastor foi informado do pioneirismo da cidade na defesa dos direitos dos homossexuais, devido à existência da chamada Lei Rosa e pelo fato de o município abrigar o Movimento Gay de Minas. No culto, Feliciano sugeriu aos fieis que não tenham orgulho disso. “Onde abundou o pecado, vai superabundar a graça”, disse, referindo-se a um trecho da Bíblia. Após a pregação, em conversa com a Tribuna e com a TV Alterosa, o pastor detalhou seu posicionamento: “Não luto contra direitos. Eu luto contra privilégios. Meu problema nunca foi com gay. Meu problema é com o ativismo gay.”
Sede pichada
A sede do PSC em Juiz de Fora, na esquina das avenidas Brasil e Rio Branco, amanheceu pichada com frases contra a visita do deputado federal à cidade. “Chega de ódio, Feliciano!” e “Feliciano, cure seu preconceito” foram algumas das frases pichadas. O presidente da legenda no município, vereador Noraldino Júnior, disse que vai solicitar investigação por parte da Polícia Civil para identificar os suspeitos do ato.
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