MST diz que situação de penúria levou a retomada de terra

Cerca de 90 famílias do MST estão em fazenda de Goianá desde terça
Cerca de 90 famílias ligadas ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) permanecem, deste a última terça-feira (3), ocupando a Fazenda da Fortaleza de Sant’Anna, em Goianá. O local, com área de 4.638 hectares, o equivalente a 4.500 campos de futebol, é o maior latifúndio da Zona da Mata e foi declarado improdutivo pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra). O processo de desapropriação da fazenda, pertencente hoje a Lourdes de Tostes Mascarenhas e aos herdeiros do ex-deputado Lahyr Palleta de Rezende Tostes, ainda está na Justiça para acertos jurídicos. Por isso, segundo o Incra, a ocupação é ilegal.
A retomada traz mais um fato ao imbróglio que existe desde março de 2010, quando o MST entrou na fazenda pela primeira vez e manteve-se na terra por quase um ano, até a reintegração de posse para os proprietários, concedida pela Justiça em janeiro de 2011. Desde então, os trabalhadores rurais permaneceram acampados às margens da MG-353, próximos à fazenda, enquanto o processo transcorre na Justiça. Em janeiro de 2012, foi decretada a desapropriação da terra para fins de reforma agrária. Em 16 de agosto deste ano, a emissão de posse da terra para o Incra encorajou as famílias a retornarem à fazenda.
Segundo o diretor estadual do MST Alexandre Limão, a ocupação é considerada pelos trabalhadores o resgate de uma dívida histórica. "Esta fazenda foi mantida por mais de um século pelo trabalho escravo. Apenas com a reforma agrária e o assentamento de trabalhadores livres nesta terra, será feita Justiça." O diretor afirma que a decisão de entrar na fazenda, mesmo sem a conclusão do processo de desapropriação, aconteceu devido à situação de penúria vivida pelos trabalhadores que acampavam às margens da rodovia. "Muitas famílias que estão aqui vivem com renda abaixo da linha da pobreza, e as dificuldades aumentavam quando estávamos acampados em terras onde não podíamos produzir."
O Incra afirma que a ocupação é ilegal porque a negociação com os antigos proprietários ainda não foi finalizada, pois eles não aceitaram o primeiro preço de compra oferecido. Depois que os valores indenizatórios forem acertados, ainda haverá fase de estudos para viabilizar o assentamento das famílias. Para ter direito à terra, elas devem atender a uma série de requisitos estabelecidos pelo Governo, tais como as condições de moradia e saúde de que dispõem, a renda que possuem e o histórico no trabalho rural. Também deve ser negociada a permanência dos cerca de 40 posseiros, trabalhadores rurais que já viviam nas terras.
Projeto é criar cooperativa e estrutura para ecoturismo
Alexandre Limão conta que o movimento pretende estudar a aptidão das terras e adequá-las à vocação produtiva das famílias que serão assentadas. Desta forma, será possível o estabelecimento de uma produção diversificada. "Temos famílias que já trabalharam nesta terra e conhecem as aptidões do solo. Desta forma, poderemos estudar os produtos mais adequados ao assentamento." Os trabalhadores pretendem formar uma cooperativa, para que a riqueza produzida na fazenda dê o máximo de retorno para as famílias e os municípios próximos.
De acordo com o diretor, o planejamento do MST inclui a criação, em parceria com o Poder Público, de escola e unidade de saúde dentro da fazenda. Atualmente, os moradores em idade escolar têm de caminhar pela estrada de terra até a MG-353, onde aguardam o ônibus que os leva até as escolas dos municípios vizinhos. Também há o projeto de incentivar o ecoturismo no local, aproveitando a área de floresta e os sítios arqueológicos existentes na fazenda. Há aproximadamente dois mil hectares de Mata Atlântica intocada, além de uma gruta onde foram encontrados três corpos indígenas mumificados.









