‘O golpe é mineiro’
Pesquisador que busca entender o período histórico do regime militar, o professor Rodrigo Patto Sá Motta, que leciona no Departamento de História da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), esteve na última semana em Juiz de Fora para falar sobre este período da História do país. À Tribuna, Rodrigo, que é doutor em história econômica pela Universidade de São Paulo e professor visitante na Universidade de Santiago do Chile, comentou sobre as questões que ainda estão por solucionar sobre a ditadura, a investigação da morte do João Goulart, a importância de Juiz de Fora no golpe de 64 e os "presos políticos" do mensalão.
Tribuna – Como se resume o trabalho do historiador que estuda a ditadura militar?
Rodrigo Patto Sá Motta – É um trabalho, ainda, de tentar entender o que aconteceu. Buscar compreender os conflitos políticos existentes no período, para responder a diversas questões. Por que houve um governo autoritário? Por que houve perseguição política? Por que houve o bipartidarismo? Este trabalho envolve um compromisso social do historiador. Ele não pode se esconder diante das diversas dificuldades desse campo de investigação, porque a sociedade e a Justiça demandam verdade.
– Quais são essas dificuldades atrás das quais o historiador não pode se esconder?
– Há diversos problemas. Um deles é ético, pois o assunto envolve diversas pessoas que não podem, ou não querem, ter expostas histórias constrangedoras que viveram. Outra questão diz respeito aos entraves jurídicos, pois a lei protege a honra e a privacidade, não podendo o historiador exceder limites tênues da invasão ou não deste direito, quando trata-se de uma personagem histórica importante. Por fim, há a questão política, pois este passado ainda é recente, diversas pessoas envolvidas naquele momento histórico ainda possuem poder político e representam riscos para o historiador. É um trabalho muito fascinante, mas perigoso.
– Qual a importância para a investigação histórica da exumação do corpo de João Goulart?
– Há uma suspeita de que ele foi assassinado, portanto a exumação pode ser importante. Vale a pena fazer essa investigação. Apesar disso, é muito difícil constatar qualquer coisa, porque ele não teria sido envenenado, mas forçado a ter um ataque cardíaco. Os métodos de investigação permitem perceber vestígios de envenenamento, mas não de substâncias que pudessem ter provocado um infarto a João Goulart. Vale fazer uma ressalva, porém, para o possível uso político dessa exumação, que pode estar acontecendo para repercutir a atuação de certos setores políticos na investigação da ditadura. Essa seria, também, uma compensação simbólica para o fato de que diversas pessoas que teriam cometido crimes, durante o regime, não serem julgadas.
– Paira, inclusive, a suspeita sobre a morte de três lideranças políticas do período democrático anterior ao Regime Militar: Juscelino Kubistchek, João Goulart e Carlos Lacerda. Eles teriam sido assassinados. O que o senhor acha dessa história e que possibilidade o senhor considera de que seja investigada essa suspeita?
– Há, sim, uma suspeita. Foram mortes muito próximas, num período em que a ditadura ensejava uma abertura. Um momento em que, portanto, havia interesse de setores do Regime Militar em se livrar dessas lideranças. Mas é difícil provar se isto realmente aconteceu. O caso do João Goulart é de infarto. O do Juscelino é de um acidente de carro, em que praticamente não há testemunhas. Enfim… Vale a pena tentar, uma vez que não é impossível descobrir se houve intencionalidade na morte dos três. Mas é uma tarefa improvável.
– E qual é, na sua opinião, a importância de Juiz de Fora para o golpe de 64, uma vez que as tropas saíram daqui?
– O golpe é mineiro e partiu de Juiz de Fora pela proximidade natural com o Rio de Janeiro. Foi articulado por lideranças mineiras como o governador Magalhães Pinto, seu secretário de segurança, o comandante da Polícia Militar (PM), o empresariado e lideranças católicas mineiras. Esse apoio grande em uma importante unidade da federação fez com que o movimento ganhasse repercussão nacional. E havia, aqui em Juiz de Fora, um general voluntarioso, Olímpio Mourão Filho, que tomou a decisão de levar as tropas. Mas é isso. Antes de tudo, o golpe é mineiro e Juiz de Fora é próxima ao Rio. Esta é uma questão um tanto solucionada quanto à pesquisa histórica sobre a ditadura.
– E que questões ainda estão por solucionar.
– Ainda é preciso estudar melhor o funcionamento do Estado. A ligação com a sociedade civil, o impacto das políticas que implementaram e o grau de apoio da população. Vou publicar um livro no ano que vem sobre a reforma no sistema universitário, por exemplo, que foi implementada pelo Governo militar. Eram reformas de base do João Goulart, das quais o regime se apropriou e as implantou a seu próprio modo. Construíram novos campi universitários, aumentaram o número de vagas e pós-graduações. Estava ligado ao projeto de modernização econômica. Vai se chamar "As Universidades e o Regime Militar". Quanto ao apoio popular, a gente tem analisado pelos resultados eleitorais, pelos números nas urnas da Arena, o partido do Governo. Mas não é um resultado claro, porque não dá pra inferir o apoio popular simplesmente pelos números da Arena. Votar na Arena não é "votar na ditadura". Por isso, temos buscado pesquisas de opinião, que são um outro instrumento.
– Atores políticos que antes foram símbolo de resistência e luta contra a ditadura hoje estão condenados e presos pelo mensalão. Eles se dizem presos políticos. O que o senhor entende por "prisão política"?
– Preso político é quem é preso em razão de disputas políticas, por defender ideias divergentes, por estar alinhado a uma posição política não aceita pelo Estado. Também estão incluídos nesse grupo aqueles que realizaram luta armada contra o Estado, ações como atentados e sequestros, desde que motivados por disputas políticas. A discussão atual, que envolve os condenados pelo mensalão, está enviesada. Há um argumento um tanto forçado, de que a forma como foi conduzido o julgamento caracteriza condenação "política". Esse ‘enviesamento’ se justifica numa certa "cultura de esquerda" dos condenados, que tentam estabelecer uma conexão com o passado que eles viveram. De fato, Genoino foi preso político, porque participou de luta armada contra o regime ditatorial. Dirceu foi perseguido político. Mas há uma distância enorme entre o caso do passado e o atual, uma vez que eles foram presos por cometer delitos contra o dinheiro público, atentando contra um Estado democrático e de direito. Não quero entrar no mérito da justiça das condenações, mas considero forçada a alcunha de "prisão política".









