O cavalheiro da dama do parque

JOÃO LÉLIS passa cerca de três horas, diariamente, jogando damas na praça OLAVO PRAZERES
A rotina do homem considerado professor de um silencioso esporte que domina as tardes do Parque Halfeld A camisa branca com listras pretas está delicadamente passada, com todos os botões fechados. A calça é branca e sem nenhum amarrotado, com o vinco bem ao centro. Os sapatos, como as meias, também são brancos. No pescoço, um colar prata com algumas medalhas de santos. Em cada mão, um anel. No braço direito, uma fita de cetim branca. No rosto, óculos com aro prateado e lente que escurece diante da claridade. João Lélis Dias se apronta para praticar o esporte que lhe toma algumas décadas de sua vida. A idade responde à mesma vaidade que tem com a aparência: “Ah! Aí mexeu no meu ponto fraco. Não gosto de falar de idade não”, ri o senhor de cabelos brancos. Os dedos longos e finos, de uma pele tão lisa quanto clara, deslizam as peças de dama numa das muitas mesas do Parque Halfeld e contam sobre um dos personagens mais longevos da prática no local. Para os jogadores, João é apenas o Professor Lélis, tamanho seu conhecimento.
“Já disputei muitos campeonatos na cidade. Os homens que faziam as disputas já morreram quase todos. Quando ganhei a taça do Sesiminas, foi disputando com o Rubinho. O Roberto, irmão dele, ainda está vivo e mora em São Mateus. Troféu tenho só um, medalhas já tenho diversas. Antigamente tinha uma turma boa aqui, que disputava até Campeonato Mineiro”, recorda-se João, que sequer leva pedras para a praça.
“Essa é do Ronaldo. Não trago não”, conta. É que o primeiro time, dos experts, não levam mesmo as peças. “Aqui não tem ninguém profissional mais não”, desconversa ele, antes de ser questionado sobre o que o jogo representa em sua vida. “É uma distração. Queria fazer um campeonato de peso, para separar como no futebol: primeiro, segundo, terceiro times. O Adão (outro jogador) também teve essa ideia. Ele fez o Campeão dos Campeões, há muito tempo. Disputei e ganhei uma medalha, até”, lembra o professor.
Grande diagonal
Quando marca 15h no relógio, João chega ao Parque Halfeld, de onde se vai antes do anoitecer. Passa algumas horas distraindo-se no jogo, até que chega em casa, na Rua Dr. Constantino Paleta, no Centro, e diverte-se sozinho antes de assistir o Jornal Nacional. “Gosto muito de paciência”, diz. No computador? “Carta mesmo. Comigo mesmo”, ri. Solteiro e sem filhos, ele dribla a solidão exercitando o raciocínio lógico. Faz isso desde antes de aposentar-se, o que aconteceu há cerca de duas décadas. Morando perto do Parque Halfeld, ele constantemente via a movimentação no canto direito da praça, próximo aos sanitários. “Quando fizeram uns torneios, me provocou. No primeiro não ganhei nenhuma partida. Estava imaturo. Tem um tal de Valtencir, que morava no Mariano Procópio, que me cedeu as primeiras partidas para eu estudar. Assim vieram os livros, que ajudam a gente a desenvolver. Tenho vários. Queria até fazer um livro, mas estava dando muito trabalho e muito cansaço. Armar as partidas não é fácil. Por isso, acabei desistindo (do livro)”, conta o homem, demonstrando a complexidade de uma prática reconhecida pelo Ministério do Esporte como modalidade não olímpica e não pan-americana. “Quem estuda nos livros não pode jogar com qualquer um, porque não vai desenvolver nada e nem ensinar. Tem gente que se irrita com palpites e não deixa a gente dar as demonstrações que um livro ensina. Fica difícil para divertir assim. Quando você vê um lance bonito, quer dar um palpite e a turma se irrita”, pontua. E o senhor palpita? Quem responde é o colega de jogo Siriu: “Palpita e muito”. O professor se defende: “Gosto de mostrar as partidas. Um lance bonito, quando aparece, gosto de mostrar que está escondido, porque a dama tem disso. Uma pedra montada aqui você pode fazer dama lá. Invertendo o tabuleiro. Bonito mesmo.
64 casas
” Os tabuleiros de dama no Brasil, como em Portugal, costumam ter cem casas. No Parque Halfeld, porém, são apenas 64. Nada que altere substancialmente a prática. “Essas mesas são boas, mas antes eram quatro bancos e, agora, são dois”, comenta João, referindo-se à necessidade de lugar para os “sapos”, como são chamados os palpiteiros. “E não puseram lugar para segurar as bolas, tem que segurar na mão”, acrescenta, pontuando falhas que restaram na recente reforma do espaço, feita em 2016, que ofereceu novo mobiliário à praça. Mudança que se soma a muitas outras na memória de João, que viu o “coração da cidade” mudar por completo. “Tinha um chafariz, tinha peixes no lago”, enumera, para logo falar da segurança. “Antigamente, na época do (prefeito) Mello Reis, tinha gente que vinha do Rio e dava muita pancada aqui. Hoje o parque é mais tranquilo”, afirma ele, que, diferentemente do restante da turma, fica poucas horas sentado no banco de cimento. “Antigamente tinha o Dr. Derli, que chegava às 20h e ficava até meia-noite”, aponta o mestre que garante não apostar um centavo sequer. “É amistoso. Não vale nada, não.”
Sopro
Como no início de uma partida de damas, a infância de João foi cheia de peças. “Sou de Canaã, perto de Viçosa, para lá de São Miguel do Anta. Viemos para Juiz de Fora em 1950. Já pensou quantos anos?! Veio a família toda, éramos 11 irmãos”, recorda-se ele, que, ao lado do irmão José Bonifácio, foi exercer o ofício de alfaiate. “Chegamos e fomos trabalhar com o Pedro Nagib Nasser, que foi até vereador aqui na cidade. Ele era o dono de uma alfaiataria em Benfica.” Em seguida, os irmãos montaram o próprio negócio, nos fundos de casa. Quando Bonifácio se casou, porém, eles se separaram, e João foi trabalhar para o famoso Zanzoni, um italiano cuja alfaiataria funcionava na Rua São João e serviu de escola para diversos profissionais da cidade. “Fazia tudo de casa, mas tinha a carteira assinada”, lembra-se o homem que sabia costurar de tudo um pouco. Saíram as agulhas, alfinetes e linhas e restou outro botão, que desliza pelo tabuleiro denunciando a inteligência de um senhor que não tira os olhos das peças. “Se o jogador conversar deixa passar muito lance bom e acaba caindo nos ‘tico-ticos’, os lances armados”, explica. Mas conversam um pouco, não é mesmo? “A gente conversa sobre assuntos gerais. Sobre tudo. A turma aqui é muito boa. Nos conhecemos há muito tempo”, diz. Inimizades, logicamente, são naturais. “Tem pessoas que evito jogar, porque irrita, né?! Não gostam de palpites”, ri. “Tem outros que não jogam nada e cismam ser do primeiro time. Para convencer eles do contrário é difícil”, completa, contando que esses, os ruins dos ruins, são chamados de salames. João, o professor, leva a sério o jogo de dama. Nada de xadrez. “É um esporte completamente diferente. Comecei a desenvolver mas é mais cansativo e difícil. A dama, bobo, é uma arte bonita. Tem que ficar sempre atento para os lances escondidos”, comenta ele, sem disposição para se fazer de vencido.









