‘A dor humana dói mais quando é ignorada’

Logo no terceiro ano de profissão, em 1998, Daniela Arbex foi finalista do concorrido Prêmio Ayrton Senna de Jornalismo. No ano seguinte, de novo. Passou-se mais um ano, e a profissional se tornou “Jornalista Amiga da Criança”, título dado pela organização Andi. No mesmo 2000, venceu o Prêmio Esso de Jornalismo, um dos mais importantes do país. Passados dois anos, ganhou menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog e no belga Lorenzo Natali. Em 2004, saiu vencedora do Prêmio Inclusão Social Saúde Mental. Cinco anos mais tarde, foi reconhecida pelo Prêmio IPYS de Melhor Investigação Jornalística de um Caso de Corrupção na América Latina e Caribe, que lhe rendeu uma menção honrosa também em 2012, ano em que venceu mais uma edição do Esso. Em 2010, no entanto, trouxe para a casa o norte-americano Knight International Journalism Award. Em pouco, mais de duas décadas de ofício, a repórter especial da Tribuna de Minas fez-se conhecida na cidade, no estado, no país e no mundo. Pedra por pedra, sedimentou uma estrada que a levaria à literatura, com “Holocausto brasileiro” (Geração Editorial), premiado com o segundo lugar do Jabuti de 2014 e melhor livro-reportagem pelo APCA de 2013 e cujas vendagens já ultrapassaram os 250 mil exemplares.
Na próxima quinta-feira, 24, a jornalista que a literatura escolheu escritora sobe ao palco do Auditório Ibirapuera, em São Paulo, para receber o troféu de melhor livro-reportagem publicado em 2015, segundo o Prêmio Jabuti, o mais prestigiado do Brasil. “Cova 312” (Geração Editorial) concorre, ainda, ao título de “melhor livro do ano de não ficção”. Desde 2011, o prêmio máximo é dado ao vencedor da categoria reportagem, sendo que os laureados em 2015 e 2013 também retratavam o passado tempestuoso da ditadura militar. A trajetória ascendente da mineira de 43 anos, que descobriu o mundo sem com isso abandonar o quintal de casa, ganha ainda mais visibilidade a partir deste domingo, quando o canal Max, da gigante rede HBO, exibe pela primeira vez o documentário “Holocausto brasileiro”, às 21h. O filme, que lotou duas salas do Cinemais Alameda na última quinta, quando teve exibição para convidados, entra na grade da HBO latino-americana em mais de 40 países. Em entrevista ao jornal no qual construiu sua carreira, a profissional, que fez das palavras sua bandeira por uma vida mais digna para os seres humanos, fala do tempo, do que passou e do muito que há por vir.
Formação
“Cheguei à universidade com um aguçado olhar humano. Como espírita desde a adolescência, cresci acompanhando de perto o trabalho de solidariedade de dona Isabel Salomão de Campos na Casa do Caminho e no Lar do Caminho junto a crianças em situação de vulnerabilidade social. O exemplo de coragem dela despertou em mim o desejo de colocar o meu trabalho a serviço do próximo. Formei-me, em 1995, na UFJF, e minhas primeiras matérias no jornal de laboratório da faculdade já denunciavam questões sociais e violações de direitos humanos.”
Opção por JF
“Ao longo da minha carreira, recebi muitos convites para trabalhar nos maiores jornais do país, mas sempre fui muito feliz na Tribuna. Durante todos esses anos, ouvi que estava enterrando minha carreira no interior. Isso nunca me perturbou. Fiz a opção de ficar e jamais me arrependi. Construí minha família aqui, meus pais e melhores amigos são daqui, e a Casa do Caminho, meu porto seguro. Não tenho motivos para ir embora.”
A casa Tribuna
“Passei mais tempo dentro do jornal do que na minha própria casa. Foram muitas madrugadas emocionantes preparando histórias que ninguém tinha contado antes. No caso do ‘Dossiê Santa Casa’, minha primeira grande reportagem investigativa, publicada em 2000, eu tinha vontade de acordar o mundo e dizer que tínhamos algo exclusivo no jornal que chegaria nas bancas no dia seguinte. Aliás, sempre frequento as bancas, quando publico algo especial. Gosto de ‘assuntar’ a reação das pessoas.”
Investigação
“O jornalismo pulsa em mim. Investigar é parte do ofício. Um dia, diante de uma matéria muito arriscada, minha mãe me disse: ‘Por que você está fazendo isso?’ Eu estava com oito meses de gravidez, e minha reportagem tinha levado para a cadeia cinco advogados que participavam de um esquema fraudulento de indenizações do seguro Dpvat. Respondi para ela: ‘Porque a sociedade precisa saber a verdade’. Naquele instante, precisei deixar minha casa.”
Marco
“Foram tantos, mas ainda me lembro dos primeiros e do que senti quando encontrei pessoas morando dentro dos vãos de sustentação de uma ponte. Aquela cena surreal jamais saiu de minha cabeça. Lembro do rosto da personagem que dividia espaço com ratos. Ela, lá dentro, e o mundo seguindo indiferente por cima do asfalto. A invisibilidade do outro dói em mim.”
Holocausto
“Sempre me perguntam quanto tempo gastei para escrever ‘Holocausto brasileiro’. Digo que levei 17 anos. As pessoas se assustam, e eu explico que, para chegar até o momento dessa reportagem, precisei de todos os anos de experiência na redação da Tribuna. Esses anos foram fundamentais e me prepararam para os novos desafios que surgiriam a partir desse trabalho. Veio o livro dois anos depois e a oportunidade de dirigir um longa-metragem ao lado do mineiro Armando Mendz. Agradeço muito a Deus, porque tudo na minha vida acontece paulatinamente. E quando a oportunidade aparece, estou pronta.”
A escritora e o Jabuti
“Ainda não consigo me ver como uma escritora. Me sinto a jornalista que procura escrever da forma que sabe a história das pessoas. O Jabuti é uma ficha que ainda não caiu e veio, novamente, para um livro muito especial, ‘Cova 312’. Os personagens do livro estão muito orgulhosos por terem sua trajetória contemplada nesta obra, mas quem se sente honrada sou eu. A morte de Milton Soares de Castro, guerrilheiro do Caparaó que ficou desaparecido por 35 anos, me levou à presença dos amores dele quase 50 anos depois. Quando cheguei a Porto Alegre, em 2014, onde a família dele reside, a irmã de Milton abriu os braços e me disse: ‘Você trouxe o Milton com você’. Nos abraçamos e choramos. Foi um dia inesquecível.”
Próximo desafio
“Estou apaixonada pelo próximo livro. Fechei contrato em janeiro deste ano com uma nova editora, a Intrínseca, e há quase um ano venho trabalhando duro para mostrar a falta de justiça em um país que faz questão de não produzir memória. O novo livro vai apresentar os brasileiros ao Brasil de verdade. Será surpreendente, porque fala sobre a dor humana que dói ainda mais quando é ignorada.”









