Combinações de achados e perdidos Bodas de prata

MOSTRA REÚNE objetos recolhidos no acervo pessoal da artista e em feiras de usados e antiquários

FOTOS: VALÉRIA FARIA/DIVULGAÇÃO
Quando a avó Braulina morreu, Valéria Faria herdou um cofre. Lacrado e cujo segredo havia partido com a dona. Era preciso abrir o “monstro” que ocupava a casa de uma outra família, que se mudara para o local. Valéria, então, contratou uma empresa para retirar a peça da parede e revelar o que havia dentro. “Encontrei somente um pacotinho de veludo cotelê com um monte de balas de revólver. Não é pra rir e chorar? Essa é a herança que carrego com muito gosto. Adoro as histórias dos meus antepassados e me reconheço neles”, conta a artista visual que reúne seus mortos disfarçados nos objetos fotografados para “Vanitas”, exposição inédita que comemora seus 25 anos de carreira e se abre nesta sexta, às 20h, no Espaço Manufato.
Os projéteis que por algum motivo desconhecido Braulina guardava com tamanho cuidado surgem no trabalho de Valéria posicionados delicadamente sobre um ninho de pássaro. Ali, onde vivem os alimentos das armas, está a avó, o colo da matriarca, a metáfora do acolhimento. Bem como em todos os outros registros, nos quais, em procedimento emocional, a artista conjuga fantasmas sobre um fundo branco. “Não é que o fundo tenha sido retirado. Na verdade, inexiste um cenário na imagem porque o fundo sou eu mesma, e a figura são as coisas. E o decurso de vida e morte que há nelas”, explica.
Das flores costuradas aos vidros quebrados, Valéria fala de si para os íntimos. Aos espectadores desconhecidos, entrega um espelho. “São relíquias do tempo e cada coisa tem a sua história. Quem a viveu se reconhece nela. São metáforas, lembranças, vivências e saudades. Certamente são leituras muito pessoais, por outro lado, abrem-se a outras possibilidades de leituras. Por isso o nome ‘Vanitas’. Busquei resgatar um tema tradicional na Europa do século XVII do gênero natureza-morta, que aborda a leviandade da vaidade em um mundo em que tudo é passageiro e precário, sobretudo a vida.”
Reunindo restos seus, que se espalham por sua casa, e vestígios do outro, que encontra em feiras de objetos usados e antiquários, a artista refaz a própria-natureza morta, retomando uma prática muito frequente na arte funerária medieval, nas quais pinturas retratavam crânios e alimentos podres para lembrar da finitude da vida. Tudo vivido torna-se, imediatamente, passado. “Quem não tem apego com um objeto qualquer que pertenceu a alguém querido?”, indaga Valéria, obsessivamente preocupada em resgatar os achados e os perdidos. Em “Guardados possessivos”, antiga série de trabalhos, a artista também reunia memórias “inúteis” e chegou, até, a receber telefonemas com espectadores oferecendo-lhes coleções de canetas, xícaras e outras peças de cotidianos prosaicos.
“Vanitas” é coleção de família, ajuntamento de ruínas e, principalmente, coletânea de caminhada. “Vanitas” é o troféu, num colorido kitsch, de uma carreira que sempre se equilibrou entre as salas de aula e as gestões culturais, sem, no entanto, afastar-se do cubo branco. “Comecei a produzir essa série há pouco mais de um ano, mas, de certa forma, reflete um percurso bem maior pela questão da seriação, das artes acumulativas, da poética do tempo e da memória, das coisas e dos objetos guardados que estiveram presentes ao longo da minha produção artística”, pontua Valéria Faria, pró-reitora de Cultura da UFJF
“Iniciei minha carreira pelo desenho artístico, depois fui ao campo da pintura, até que surgiu a imagem numérica. Depois de optar pelo mestrado e pelo doutorado nesta área, comecei a trabalhar mais enfaticamente com fotografia e manipulação de imagem. Neste sentido, ‘Vanitas’ traz um pouco de todo este processo, pois compreende tanto os desdobramentos da imagem fotográfica quanto outras questões ligadas ao campo do objeto e do inventário de coisas.”
O par de rosas amarradas por um colar de strass com a inscrição “amor”, as bonecas despedaçadas, as porcelanas quebradas, as flores de plástico, tudo diz da mulher, da artista, da pesquisadora e também da gestora. Tudo perpassa sua fixação por Pedro Nava, o escritor das memórias. Tudo perpassa os batons de cores vibrantes que usa no dia a dia. Tudo diz de uma coerência em não querer falar do outro sem falar de si, sem enxergar em si uma parte do todo. Ao olhar para sua trajetória, o que lhe vem à mente, Valéria? “Vem a imagem de um oceano, ora calmo, ora em turbulências, assim como a vida é. Mas tendo a arte como presença constante. Nunca deixei de produzir e sempre fui muito enérgica em minhas proposições. Vou para o meu ateliê porque o trabalho me chama. Sempre foi assim.”
VANITAS
Abertura hoje, às 20h, no Espaço Manufato (Rua Morais e Castro 307 – Alto dos Passos)









