Tragédia ampliada

Terror de grandes proporções: imagem aérea do complexo do Hospital Colônia integra o filme

Daniela Arbex e Luiz Alfredo, duas gerações que denunciaram o horror, se encontram na estreia
“Não se morre de loucura. Pelo menos em Barbacena.” A frase, que inaugurou a série de reportagens denominada “Holocausto brasileiro”, no dia 20 de novembro de 2011, na Tribuna ganha nova dimensão com a exibição do documentário homônimo, produzido pela produtora local Vagalume Filmes em parceria com a gigante rede TV HBO. O filme baseado no livro de mesmo nome, escrito pela repórter especial do jornal Daniela Arbex, expande uma tragédia que choca não apenas por sua magnitude – somam-se mais de 60 mil mortos -, mas, principalmente, por seu silenciamento durante mais de oito décadas. Em filmagens aéreas é possível identificar o gigantismo do Hospital Colônia, onde aconteceram os horrores. Em entrevistas desconcertantes, internos são tratados como “detentos” e torturas são admitidas, bem como os registros primordiais, feitos pelo fotógrafo Luiz Alfredo para a Revista O Cruzeiro ajudam a compreender o que hoje é vestígio arquitetônico e memória doída para os que sobreviveram à maldade humana.
“Quando contei essa história, a primeira coisa que quis, além de dar voz aos que sobreviveram, era que ela se tornasse conhecida pelo maior número de pessoas. Isso está acontecendo agora, muitas pessoas terão acesso, para que a gente não repita nunca mais uma tragédia como essa”, emocionou-se Daniela (diretora do longa ao lado de Armando Mendz), na abertura da primeira sessão pública da obra, realizada na última quinta-feira, no Cinema Roxy, em Copacabana, no Rio de Janeiro. Presente na estreia, a Tribuna assistiu e se viu representada. Ponto de partida das investigações e das publicações, o jornal é personagem, ao demonstrar o vigor do trabalho da jornalista, e também cenário para as entrevistas da autora. O interior que gritou a história de gritos ensurdecedores também no interior.
Na telona, a pequena Barbacena se torna grande ao servir a um capítulo da história recente de crueldade impensável. “Tudo aconteceu por conta das imagens dele, que são incríveis e me tocaram profundamente, me fazendo ir atrás dos sobreviventes 50 anos depois. Essa história só é possível de ser contada porque essas fotografias existem. Se elas não existissem, ninguém acreditaria que uma coisa como essa aconteceu na história recente do Brasil”, aponta Daniela, referindo-se à Luiz Alfredo, cujos olhos marejavam ao se ver retratado no cinema. “Na época que fui ao Colônia, na década de 1960, a coisa era brava, impactante. Fui o primeiro profissional de imprensa a adentrar naquele inferno”, recorda-se, hoje com 74 anos.
“Fui como ia em qualquer pauta. Já conhecia outros hospícios e achava que fosse encontrar o mesmo. A irmã de caridade estava muito bem arrumada, mas, quando entrei, só me perguntava: Onde estou? O que é isso? Comecei a trabalhar como um robô, fotografando e fotografando. Nada foi posado, tudo foi espontâneo. Só depois é que caiu a ficha e percebi o que tinha vivido. Foi o trabalho mais importante que fiz”, diz ele, que no filme reencontra outras duas gerações de jornalistas, a de Hiram Firmino (Estado de Minas) e Helvécio Ratton, que adentraram o hospital nos anos 1970, e Daniela, que deu ao episódio a proporção midiática que merecia.
Para Ana Maria Amorim, esposa de Luiz Alfredo, trata-se de uma das mais belas homenagens que o fotógrafo poderia ter recebido. Para Leila, filha do profissional, um reconhecimento ao trabalho de seu pai e um acerto de contas com o passado. “Fiquei muito emocionada por ver como a história de tantas pessoas foi afetada tão radicalmente. O filme me deu o movimento da história que tinha visto primeiro pelas fotos, depois no livro da Daniela. Ainda era estático, e o vídeo me fez perceber melhor a tragédia”, afirma.
“Nós jornalistas, regidos pela CLT, aposentados pelo INSS, levamos da vida momentos como esses, que valeram a pena ser vividos. O retorno mesmo é esse. Sou um aposentado, injustiçado como todos os outros. Quando a revista fechou, fiquei sem espaço. A ‘Manchete’ era muito água com açúcar, a ‘Veja’ estava sendo lançada e me restava muito pouco. Dizem que não há imortalidade, mas a nossa profissão nos permite isso. Minhas fotos ficam e vão ficar. A imagem vale por mil palavras e mil anos”, pontua Luiz Alfredo.
Um documento. Um tratado por outros tempos. Um cântico aos que se foram. “Holocausto brasileiro”, o documentário, que rendeu lágrimas e mais lágrimas em sua primeira exibição, toca justamente por enfrentar o extermínio tendo como arma o discurso de pessoas como dona Geralda, afastada do filho João Bosco por mais de quatro décadas. Lúcida, a sobrevivente conta, com olhos rasos d’água, ter sido levada ao hospital por um ex-patrão, que a violentou e a engravidou. Para não restarem marcas de seu descompasso, o homem a excluiu do convívio social. No lugar, as freiras a excluíram do convívio do filho. E, diante das câmeras, Geralda não perdoa.
Para a premiada jornalista Angelina Nunes, a crueza das revelações no filme aproxima-nos do nazismo. “Achei muito corajoso o depoimento da enfermeira (Walkíria), porque ela fala o que fizeram a prefeitura, os médicos e outras pessoas. Tudo acontecia debaixo dos olhos de todo o mundo e ninguém fazia nada, ninguém se rebelava. Isso quando não se beneficiavam com aquela mão de obra. Ano passado estive em Auschwitz e, agora, no filme as cenas me voltaram à memória. Essa mesma angústia, as pessoas amontoadas, a linha do trem”, diz ela, conselheira da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo, Abraji.
“É diferente do livro. Ver o relato das pessoas, a emoção delas falando, dá um desespero. É bem forte. Mas é importante. O vídeo ganha uma dimensão maior e é urgente que se fale disso. Do que aconteceu e ainda acontece”, destaca a figurinista Tereza Abreu. “Não há tempo de respirar. É uma pancada atrás da outra, um soco no estômago. Quando vemos as pessoas falando, é uma porrada muito grande. É impactante e é necessário. E é, também, uma aula de jornalismo, porque toda a história pode ser resgatada, pode ser recontada. E Daniela faz isso, ela faz uma pesquisa gigantesca e usa uma técnica de entrevista que consiste na paciência de escutar o outro, fazer a pergunta correta, aguardar a resposta e confrontar sem ser agressivo. E também mostra como transformar um material em diferentes plataformas”, reforça Angelina, professora de comunicação na ESPM-Rio.
Recebido de maneira positiva pela crítica especializada, o filme já soma elogios da imprensa nacional, como o publicado por Luiz Carlos Merten, prestigiado crítico do jornal ‘O Estado de S.Paulo’, nesta sexta: “Em cena, Daniela Arbex diz que Barbacena foi cenário desse verdadeiro holocausto brasileiro – 60 mil pessoas sofreram torturas inomináveis ali dentro. A ideia nunca foi recuperar e socializar os pacientes. O hospital tinha até um cemitério acoplado. Era uma espécie de estação final, onde os ‘detentos’ – assim chegam a ser chamados – chegavam de trem, como em Auschwitz. O horror, o horror.”
O peso da posteridade
‘Minha mãe estava lá!’
Com a sessão lotada, no Centro Cultural Banco do Brasil, a segunda exibição do longa-metragem, na tarde de ontem, foi bastante ovacionada e igualmente emocionante. Surpreendente, também. Como o José Carlos entrevistado no filme, que descobre dados sobre a mãe diante das câmeras, outro José Carlos, levantou-se durante o debate que sucedeu a sessão, para dizer: “Minha mãe estava lá”. O homem, até então desconhecido para Daniela Arbex, revelou-lhe que a mãe fora enviada ao Colônia quando ele tinha apenas 5 anos. Viveram separados por 30 anos. “Foi uma catarse. Chorei por ver as pessoas chorando. Foi um grande termômetro para o filme”, conta a jornalista, entusiasmada com a repercussão positiva da produção que já recebeu um convite para exibição numa grande sala paulista e estreia no canal Max no dia 20 de novembro.
“É muito próximo da gente. Tenho uma amiga que o pai internou a mãe num hospital. Ela queria se separar dele e ele fez isso. Demorou um tempo para a família descobrir e tirar ela dali. Muitas pessoas foram internadas dessa forma e pouca gente sabe”, acrescenta a figurinista Tereza Abreu, num exercício comum aos espectadores, prontos a encontrar um paralelo com o presente enquanto os créditos finais rolam na tela. “A gente não fugiu muito desse modelo que existia. O que acontece hoje em dia com o dependente químico, passa um pouco por esse lugar. Internações compulsórias ainda são realidade”, discute a funcionária pública Nicole Leão, também presente na sessão.
“Li o livro num dia só. Me causou muito impacto, surgiram muitas imagens na cabeça. Mas ver é bem pior. Morei próximo da Colônia Juliano Moreira (em Jacarepaguá, no Rio de Janeiro), onde aconteceram situações semelhantes, também punks”, faz coro o fotógrafo George Sami, reafirmando o que diz o presidente da Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais (Fhemig), Jorge Raimundo Nahas, em entrevista para o filme, reivindicando a escrita de um outro futuro.
Personagem do trabalho literário e cinematográfico, Irmã Mercês e seus meninos de Oliveira – internos que foram enviados ao Colônia ainda crianças, com problemas físico ou mental – são o sopro de esperança da obra. Em cena, a freira mostra o presente humanizado e aponta para um lugar onde o Colônia tornou-se sinônimo de resistência.









