Para acordar de sonhos intranquilos

“Clínica do sono” utiliza-se do sono como metáfora a que oprimidos e opressores estão sujeitos

Não dorme o oprimido, pelas humilhações, pelo desrespeito, pela servidão de todo dia. Não dorme o opressor, pelo medo da queda, pela responsabilidade do alto, pela autoridade de todo dia. Horizontal, a cama não considera hierarquias. O sono é para todos que não acordaram como o personagem de Franz Kafka logo na primeira frase de “A metamorfose”: “Certa manhã, Gregor Samsa acordou de sonhos intranquilos”. Observando os que não se transformaram em baratas como o clássico personagem e encarando a vida como um inquietante bueiro, “Clínica do sono” utiliza-se do sono como metáfora das passividades a que estamos todos sujeitos, oprimidos e opressores.
Criação do Coletivo T.A.Z, de Belo Horizonte, o espetáculo aporta em Juiz de Fora neste sábado, em duas sessões (às 18h e às 20h), no Espaço Diversão e Arte, contando a história de pessoas que transitam por uma estranha organização (nome da peça) cuja única oferta é o tratamento dos distúrbios do sono. Aos insones, noites bem dormidas. Aos sonolentos, dias de disposição, anuncia uma das personagens ao apresentar o local por onde circulam exemplares situações e discursos de exploração, além da crítica ao esvaziamento da autenticidade de atividades filantrópicas.
Lado a lado, o solitário Sidnei acompanha por um monitor o sono de determinados pacientes, e Suesse, uma imigrante de poloneses, escolhe se fica ou não no lugar para curar seus sucessivos bocejos. Quem os recebe é Seidl, ex-empresária que se voluntaria para ajudar, escondendo, no entanto, sua gana por retornar a um posto de autoridade. Samara, uma operadora de telemarketing, anuncia as notícias do lado de fora, expondo um mundo de crueldades sucessivas, como às que foram sujeitos os moradores de rua na Cidade do Cabo, na África do Sul de 2010, da Copa do Mundo. Encaminhados a contêineres, eles esconderam, de maneira perversa, a pobreza do país.
“Esse sono entendo como uma espécie de passividade. É o sono que se estende a todos nós, oprimidos e opressores. E é bom lembrar que ocupamos os dois lugares em nossa vida. O sono contamina os dois lados porque em ambos não há conforto”, comenta o dramaturgo e diretor Daniel Toledo, um dos fundadores da companhia, responsável por outras duas montagens – “Fábrica de nuvens” e “Controle de estoque” – que, ao lado da atual peça, compõem a “Trilogia do trabalho”. “Em ‘Clínica do sono’ as hierarquias de trabalho acabam se traduzindo em hierarquias sociais. O jogo se faz ao trazer essas organizações que existem entre as pessoas e até mesmo entre nações. Falamos muito de colonialismo, de ser um país reprimido por vários impérios.”
Recusa ao teatro burguês
O que está em cena extrapola a narrativa de quatro personagens. Atinge uma tentativa de escrita do hoje sem as preocupações com a tradição e suas ostentações. “Ainda vivemos um regime de muitos privilégios”, adverte Daniel Toledo. “Em nossas outras peças, trabalhamos apenas com personagens interpretando funcionários. A hierarquia, portanto, fica menos clara. Ter, desta vez, uma personagem opressora clareia o conflito e o traz para uma dimensão muito humana. A perspectiva que me interessa é a de alguém que está submetido às regras que não escolheu. E esse ponto de vista ajuda a romper com uma tradição de teatro burguês. O interessante é levar o teatro para o pátio, o que não é novo, mas não é tão feito”, completa o artista, certo de que, para ser contemporâneo, é preciso, antes de tudo, ser honesto com o relógio e com o calendário.
Assim, o discurso, segundo Daniel, é o mais importante. A linguagem, ainda que em segundo plano, não pode ser abandonada. Afinal, trata-se de uma produção da capital mineira, berço de uma cena relevante nacionalmente e incontestavelmente vanguardista. “O audiovisual é nossa escolha estética. Sempre usamos imagens documentais nas peças. Tudo para trazer uma evidência, algo que é real, do mundo. Na ‘Clínica do sono’, essas imagens funcionam como uma expansão daquele tempo e espaço que é muito restrito. Trabalhamos com três imagens de vídeo: a construção civil na China, a Segunda Guerra Mundial e os contêineres na África do Sul. São imagens que propõem o diálogo entre a ficção e o nosso presente, com os conflitos de nossas cidades”, aponta o diretor.
Riso tenso
Parte da cena, o espectador ocupa o lugar de candidato na tal clínica. Está ali, com seus problemas, com suas noites bem ou mal dormidas. “Não se trata de uma ideia de interação, mas de presença, de ser tratado de uma forma a qual não está acostumado. É a ideia do convívio, de não assistir apenas uma peça, mas experimentar uma situação. Isso provoca um engajamento diferente do espectador, que experimenta uma vida possível”, explica Daniel Toledo, que chama a iniciativa de uma “comunidade temporária”. “Teatro não é só se sentar ao lado de alguém”, defende. Da cena, a atriz Regina Ganz, que interpreta o papel da mulher opressora, ouve risos em direção a sua personagem. “As pessoas riem por rejeitarem e também por se identificarem”, conta. São risos tensos, portanto.
Por elevar o tom da realidade a um patamar quase inexplicável, a montagem acaba por tangenciar o absurdo. “Pensando no texto, há um diálogo muito forte com o teatro do absurdo, que é uma referência importante para mim. Todos os personagens são humanos, mas estão em certa radicalidade. Em alguns momentos beiram o irracional”, diz o diretor. “Acho muito importante atingir nem que seja um espectador. Não é só apresentar por apresentar, quero passar alguma mensagem”, indica Regina, que para isso usa, com sua trupe, as ferramentas do hoje.
Fruto de uma segunda geração criada no entorno do Espanca!, um dos principais grupos teatrais mineiros desde a virada do novo século, o jovem Coletivo T.A.Z, de apenas três anos, foca-se na produção autoral e num tema específico (o trabalho), praticando um exercício de busca por nova linguagem. “Nosso trabalho pretende perseguir uma realidade possível, uma utopia da realidade. Não tem relação com a TV ou com o cinema. Temos pouco cenário, tudo é muito simples. E muito por nossa condição política de fazer um teatro independente, o que nos dá liberdade e motivação para criticar o sistema, que é muito excludente”, pontua Daniel. “Fazemos parte de uma cena com peças que trazem outra história brasileira, de fora dos apartamentos, do íntimo dialogando com o coletivo”, completa ele, que prefere falar dos bueiros a falar das metamorfoseadas baratas.
CLÍNICA DO SONO
Coletivo T.A.Z
Neste sábado, 8, às 18h e às 20h
Espaço Diversão e Arte
(Rua Halfeld, 1.322 – Centro)
OFICINA DE DRAMATURGIA
com Daniel Toledo
Neste domingo, 9, das 9h às 16h
Espaço Oandardebaixo
(Rua Floriano Peixoto 37 – 2º andar – Centro)
Inscrições até sábado pelo e-mail [email protected]









