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Falta de lideranças

Em momentos de tensão, é necessária a presença de atores capazes de apaziguar os ânimos e de apontar alternativas para evitar confrontos além do tom


Por Tribuna

09/07/2021 às 07h00

Em meio a uma pandemia que já matou mais de 520 mil pessoas no país, a instância política se dá ao luxo de criar um cenário de inquietação por conta da CPI, que apura responsabilidades na pandemia, e também pelos discursos envolvendo críticas às instituições. Na quarta-feira, com respaldo do ministro da Defesa, comandantes militares emitiram uma dura nota criticando a postura do presidente da CPI, senador Omar Aziz, por ter inserido militares nas suas denúncias de supostos atos de corrupção. Ontem, o ministro da Defesa, general Braga Neto, em telefonema ao presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, disse que a crítica não era à instituição, e sim ao presidente da CPI enquanto tal, e não ao senador.

Os dois lados consideram o episódio superado, mas há preocupações no ar que exigem a presença de “bombeiros” para apaziguar os ânimos e garantir que não haja espaços para recuos institucionais, embora o presidente Jair Bolsonaro, falando aos seguidores, tenha dito que “ou se faz uma eleição limpa ou há a possibilidade de elas não ocorrerem”. Embora tenha dito para um público restrito, o teor é preocupante, pois cria a possibilidade de não haver a escolha pelo povo de seus dirigentes.

Mesmo durante o regime militar e depois dele, o país sempre teve lideranças capazes de apaziguar os impasses. O mineiro Tancredo Neves foi eleito presidente da República por um Colégio Eleitoral em que o Governo tinha maioria, mas foi capaz, por sua capacidade de articulação, de mudar o jogo e vencer o pleito indireto. Não tomou posse por um golpe à sua saúde, e não por reação das instituições. Seu sucessor, José Sarney, governou por cinco anos, e sob sua gestão o país criou uma nova Constituição.

Tancredo não era o único. Na véspera de sua posse, ao ser surpreendido por uma diverticulite que o levou para o Hospital de Base, o deputado Ulysses Guimarães foi outro “bombeiro”. Presidente da Câmara Federal, foi visto como o eventual sucessor, sobretudo por aqueles – inclusive militares – que não queriam José Sarney. Sem deixar a chance de poder subir-lhe à cabeça, reforçou a posse do vice, obtendo respaldo dos militares e do setor civil. O presidente Figueiredo não passou a faixa, saindo pela porta do lado do Planalto.

Figuras como Tancredo e Ulysses Guimarães estão em falta no país. Os impasses no Congresso não encontram uma liderança capaz de pacificar os ânimos, ora exacerbados pelas eleições gerais de 2022. Ao contrário. Com respaldo de suas bolhas nas redes sociais, vários atores colocam gasolina na fogueira, mesmo certos de que num impasse de grande monta todos perdem.