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Tem uma pedra no caminho

Carlos Drummond de Andrade foi um dos maiores poetas brasileiros. Como expoente do modernismo, sofreu muitas críticas inerentes a esse movimento. Em 1924, escreveu o seu talvez mais conhecido poema: “No meio do caminho”. “No meio do caminho tinha uma pedra, tinha uma pedra no meio do caminho…” Publicado em 1928, na Revista de Antropofagia, […]

Por MARIO LUIS MONACHESI GAIO, LINGUISTA E PESQUISADOR

24/03/2016 às 07h00- Atualizada 24/03/2016 às 12h36

Carlos Drummond de Andrade foi um dos maiores poetas brasileiros. Como expoente do modernismo, sofreu muitas críticas inerentes a esse movimento. Em 1924, escreveu o seu talvez mais conhecido poema: “No meio do caminho”. “No meio do caminho tinha uma pedra, tinha uma pedra no meio do caminho…” Publicado em 1928, na Revista de Antropofagia, provocou muito rebuliço na época. A poesia modernista era contestada pelos adeptos do beletrismo e do rigor da linguagem poética parnasiana.

A simplicidade e a repetição nos versos drummondianos causaram espanto, e o uso tipicamente brasileiro do verbo “ter” no sentido de “existir” foi fortemente contestado. Do outro lado, os amantes do modernismo adoraram. Mário de Andrade foi categórico: o poema “é símbolo!”. O próprio Drummond disse que o poema servira para “dividir o Brasil em duas categorias mentais”.

Mudanças sociais e linguísticas – são intrinsecamente ligadas – demoram a ser completamente absorvidas, mas acabam sendo. A reação inicial é de desdém; depois, vem a violência, a fase em que os cães ladram; em seguida, o menosprezo, quando ouvimos frases do tipo “antigamente é que era bom…”; e, por fim, a sua completa incorporação.

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Aceitamos que a língua muda com o tempo, mas só conseguimos entender as mudanças já ocorridas. As que estão em curso frequentemente são consideradas erros. Aprendemos e aceitamos que o pronome “você” vem de “vossa mercê”, passando por “vosmecê”. Só que esse processo não aconteceu de um dia para o outro. Demorou longos anos, e não tem data de nascimento. Só o percebemos depois de ocorrido.

Ninguém sabe dizer quando os brasileiros começaram a usar o verbo “ter” no sentido de “existir”, mas sabemos que é regularmente empregado por aqui. E não tem nada de errado nisso. Quando Drummond escreveu o poema, esse uso já era amplamente difundido, mas as forças de reação se indignaram, era uma afronta a uma suposta “ordem”. O tempo passou, e o seu uso se expandiu ainda mais. A caravana passou.

Alguns “barões doutos” ainda reclamam, via de regra alegando ser de uso exclusivamente informal. Se enganam (sim, com próclise bem brasileira). Não passa de resquício da fase do menosprezo. Quando construções semelhantes são usadas em contextos não relacionados ao estudo de língua ou gramática, passam completamente despercebidas. Vejam o slogan #NãoVaiTerGolpe, usado pelos brasileiros contrários ao impeachment de Dilma. Como o foco está na desejada manutenção do Estado de Direito e não no uso da língua, não vemos nenhuma crítica pelo emprego do verbo “ter” no sentido de “existir”. Pensando pragmaticamente, que força teria um parnasiano #GolpeNãoHáDeHaver? As mudanças na língua ocorrem ininterruptamente, acompanham novas necessidades comunicativas. É preciso estudo e desprendimento de preconceitos para entendê-las.

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