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A era da informação e o desprezo pelo conhecimento

“Nunca tivemos tanto acesso à informação e, ao mesmo tempo, tanta dificuldade para transformá-la em conhecimento.”


Por Robson Ribeiro *

21/10/2026 às 06h36

A expansão das tecnologias digitais, especialmente no período pós-pandemia da Covid-19, acelerou a circulação de conteúdos e criou a falsa impressão de que estar informado significa compreender a realidade. Entretanto, nunca tivemos tanto acesso à informação e, ao mesmo tempo, tanta dificuldade para transformá-la em conhecimento.

A frase atribuída a José Saramago – “Chegará o dia em que a inteligência será desprezada e a estupidez será adorada” – parece traduzir uma inquietação atual. O problema não está na tecnologia, mas na maneira como nos relacionamos com ela. Compartilhamos sem verificar, opinamos sem estudar e defendemos convicções sem confrontá-las com os fatos.

Em uma sociedade marcada pela pressa, aparentar saber parece, muitas vezes, mais importante do que buscar conhecimento. A repetição transforma afirmações em aparentes verdades, enquanto discursos simplificadores oferecem respostas imediatas, identificam culpados e alimentam ressentimentos. Nesse cenário, a reflexão perde espaço para a frase de efeito, e a opinião pessoal passa a ser confundida com evidência.

É preciso distinguir informação, conhecimento e sabedoria. A informação nos oferece dados; o conhecimento exige investigação, contextualização e pensamento crítico; a sabedoria pressupõe discernimento e responsabilidade. A aceleração contemporânea e o excesso de estímulos comprometem nossa capacidade de contemplação. Consumimos informações continuamente, mas nem sempre encontramos tempo para compreendê-las.

O problema se agrava quando a ignorância deixa de ser reconhecida como uma condição superável e passa a ser motivo de orgulho. Não saber não é uma falha; recusar-se a aprender, desprezar evidências e considerar a própria opinião superior aos fatos constitui um obstáculo ao diálogo.

A tecnologia amplia nossas possibilidades, mas não pensa por nós. Por isso, precisamos recuperar o valor do estudo, da dúvida e da reflexão. Verificar antes de compartilhar, ouvir antes de responder e reconhecer os próprios erros são atitudes fundamentais para resistir à manipulação.

Talvez o problema não seja o dia em que a inteligência será desprezada, mas perceber que já toleramos práticas que enfraquecem o conhecimento. A informação nos alcança, mas o conhecimento precisa ser construído. Em tempos de respostas imediatas, aprender a pensar continua sendo uma das formas mais importantes de preservar a liberdade humana.

* Robson Ribeiro é mestre em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE), professor de Ensino Religioso do Colégio Santa Catarina em Juiz de Fora e de Filosofia, Sociologia e de Projeto de Vida no Centro Educacional de Raciocínio e Aprendizagem Socializada (RAS) de Juiz de Fora.

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