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Morrer e morte: medos antissociais?

Por Bruno Reis, Médico especialista em clínica médica, com atuação em Medicina Paliativa

14/08/2019 às 06h50- Atualizada 14/08/2019 às 07h10

Você já pensou a respeito da sua própria morte? E do seu morrer? Vamos entender o que cada termo significa: morte é um evento, assim como o nascimento; ele nasceu, ele morreu. Algo que se caracteriza por poucos minutos e até mesmo segundos para ocorrer. E o morrer? Morrer (assim como o trabalho de parto que antecede o nascimento/nascer) é um processo. Significa um período de tempo onde há um começo e um fim. No caso do nascimento, o fim é a vida. No caso do morrer, o fim é a morte. Simples assim! Em palavras, claro! Nada na nossa vida é simples, como de fato constatamos em nosso dia a dia.

Mas se morrer e morte, ao pé da letra, não são sinônimos, por que muitas vezes utilizamos tais palavras de tal forma? Morrer sempre será um processo… Morte sempre será um evento…

Se morrer é um processo, como anda o morrer das pessoas hoje em dia? Ou melhor escrevendo, como anda o processo de morrer das pessoas hoje em dia? Eis uma questão complexa, profunda, entorpecida de tabus e crenças, mas uma realidade que é vivida todos os dias por quem ainda está vivo.

Ninguém quer ouvir falar, ou ouvir alguém dizer, sobre morte, morrer, falecer, partir, ir para o beleléu… Ninguém quer, mas todos vão ouvir, em algum momento de suas vidas, porque é impossível fugir disso: o morrer e a morte.

A tanatologia é a ciência que estuda a morte, nas suas mais variadas representações culturais ao redor do nosso vasto mundo. O cuidado paliativo (ou no plural, cuidados paliativos) é a parte da Medicina que cuida de pessoas que possuem doenças crônicas, avançadas e em progressão, cujo desfecho final será a morte, sendo, portanto, a parte da Medicina que é responsável por “cuidar de quem está morrendo”. Talvez uma forma mais amena seria dizer que os profissionais que trabalham com cuidado paliativo (o médico, o enfermeiro, o psicólogo, o assistente social e todos os demais profissionais da saúde tecnicamente treinados para isso) são um amenizador do sofrimento humano.

O ser humano sofre, e sofre principalmente quando entende a finitude do seu viver. Alguém aí quer morrer agora? Boa parte das pessoas responderá que não! Mas, infelizmente, a ciência não pode manter a vida de forma eterna. Ainda! E ainda bem! Porque precisamos nos reciclar e, assim, permitir que melhores versões de nós mesmos possam viver…

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Cuidado paliativo cuida da vida enquanto ela existe, mesmo quando ela se encontra em processo de despedida… Um ser humano é um ser humano até que a chama de sua vela se apague! Enquanto sua vela estiver acesa, ele tem uma biografia, uma história, um passado e um presente que merece ser ouvido, compreendido e acatado…

Gilberto Gil, um ícone da música popular brasileira, traz em uma de suas canções os seguintes versos: “Não tenho medo da morte… Mas sim medo de morrer… A morte é depois de mim… Mas quem vai morrer sou eu… A morte já é depois… Já não haverá ninguém… Quem sabe eu sinta saudade… Como em qualquer despedida…”.

Gil nos diz que a morte é um evento, e sua preocupação maior é com o morrer, que é um processo… Quem estará cuidando de mim no meu morrer? Quem estará amenizando meu sofrimento no meu morrer?

Receber cuidado paliativo, que cuida da vida enquanto ela ainda existe e vai se apagando lentamente, é um direito humano, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS).

Que possamos ter um viver digno, um morrer mais digno ainda e uma morte em paz, sempre! Que possamos perder o medo de conversar sobre o morrer e, assim, partilhar com nossos entes queridos os nossos fiéis desejos nesse momento… Assim como a vida ressurge, o morrer fazendo parte da vida permite que este ciclo continue… Por um viver, um morrer e uma morte dignos, sempre!

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