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Não serei interrompida

Por que tanta comoção?, perguntam alguns. Outros, com a gentileza da compaixão, se perguntam: por que precisou morrer? Não acredito na necessidade desse morrer. Só enxergo o sistema se movendo em moenda. Ele mata, ele matou e continua matando. O corpo negro, em nosso país, vive de ir morrendo aos poucos. Quando alguém grita basta, […]

Por Lucimara Reis, licenciada em História, mestranda em Serviço Social e integrante do 8M/JF - Fórum de coletivos e mulheres feministas de Juiz de Fora

14/03/2019 às 06h20

Por que tanta comoção?, perguntam alguns. Outros, com a gentileza da compaixão, se perguntam: por que precisou morrer? Não acredito na necessidade desse morrer. Só enxergo o sistema se movendo em moenda. Ele mata, ele matou e continua matando. O corpo negro, em nosso país, vive de ir morrendo aos poucos. Quando alguém grita basta, com a potência da voz vindo de um local de poder, essa voz é multiplicação de vidas; “eu sou porque nós somos”. Para os gentis e para os indiferentes, creio, então, estarem respondidas, em parte, as perguntas que iniciam esse texto.

Porém outra pergunta ecoa no Brasil faz um ano. Quem matou Marielle e Anderson? Quem mandou matar Marielle? Para essas, a obrigação da resposta vem do Estado e de seus aparelhos. São muitas as mortes sem os desfechos que evitariam que outras tantas mortes seguissem a sina do podar o broto. A representatividade da solução desse assassinato mora na negação da impunidade, no entendimento das forças que movem essa engrenagem e nos freios que precisamos dar.

Marielle era um ser que se nota. Sua estética afirmada e sua postura eram divergentes. Seu discurso tinha alvo e ressonância. Defensora dos direitos humanos, sim, pois nisso se compunha sua fala de combate ao sistema capitalista, defender as vidas dos despossuídos. Personificava nossa história na perspectiva dos silenciados, e sua voz em rompimento a esse silêncio incomodava e potencializava outras tantas. A preta favelada, socióloga, bissexual, mestre em administração pública, militante socialista, mãe e vereadora de mais de 45 mil votos. Executada sem ameaças como se executam os corpos negros no nosso país. Era esse o recado? A gente não pode? Deu errado, a gente pode. Mas não esperem perdão para essa execução.
Aos trancos e barrancos, a Comissão da Verdade segue no Brasil, isso é sintomático. A falta de desfecho é sequência da máquina de moer liberdades. Mas tem uma avenida juntando os pontos da nossa história. Um enforcamento por vontade não explica mais, nem a negação das mortes em quartéis, ladeiras, fuscas e matas. Contadores da história, uni-vos.

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A liberdade que sequer chegou na periferia e nas favelas está sendo atacada do alto posto sem qualquer consideração às liberdades mínimas. E de cá, de baixo, a gente cruza a fronteira porque cansa só arrumar a mesa. No dia 8 de março, o mundo viu as mulheres se levantarem contra a opressão e a exploração dos nossos corpos. Basta sair do WhatsApp e olhar com olhos que enxergam quem defende as trabalhadoras e os trabalhadores da exploração incessante.

Hoje, Marielle, sentimos sua falta, sentimos sua presença num misto de dor e levante por continuar. Na Casa das Pretas, no dia 14 de março de 2018, você citou Audre Lorde: “Eu não serei livre enquanto houver mulheres que não são, mesmo que suas algemas sejam muito diferentes das minhas”.
É tanta mulher preta se levantando que afirmo: deu muito errado, casa grande. Vocês não vão ficar impunes. Não duvidem das chamas queimando as senzalas do nosso século, porque a gente combinou de não morrer, já disse Conceição Evaristo.

Quebrar memória não é ação da mão. Não se arranca ou se quebra com mãos de ferro ou de carniça aquilo que se instala no afeto da luta diária. O coração da memória tem batida de tambor que ecoa longe, replica.
Marielle presente. Até que todas sejamos livres.

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