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Enquanto seres humanos

“Nos habituamos a sistematizar o amor, a exigir alguém que mereça ser amado por nós e que caiba nos planos que já temos, e não a ser amado como merecemos”

Por Mili Alves, graduada em Geografia, especializada em Jornalismo Digital e em Educação Ambiental

13/01/2021 às 06h55

A cultura enquanto um conjunto de hábitos, crenças e conhecimentos, é a principal característica distintiva de nossa espécie, e de várias maneiras, um reflexo das nossas características físicas. Desde a presença de artefatos culturais e evidências de práticas culturais no registro fóssil da primitiva vida humana, até os padrões de comportamento e raciocínio que nos determina seres pensantes.

Enquanto seres humanos, nós vivemos processos. Da infância à velhice, são incontáveis as fases pelas quais passamos. E em cada uma delas cabe a dor e a delícia das experiências que vivemos. Engana-se, no entanto, quem pensa que amadurecer é algo linear e agradável o tempo inteiro. E isso também é uma realidade para os nossos relacionamentos.

A natureza do amor nos relacionamentos humanos e a maneira de se relacionar também podem ser culturais, mas sem entrar no mérito dessa ou daquela forma de se relacionar, tendemos a buscar no outro as características ou crenças semelhantes às nossas antes de construir uma relação. E esse é um processo natural e instintivo.

Nos habituamos a sistematizar o amor, a exigir alguém que mereça ser amado por nós e que caiba nos planos que já temos, e não a ser amado como merecemos. Deixamos de lado a instrução de Drummond de que o amor “foge a dicionários e regulamentos vários”, e mergulhamos na parte rasa tentando fazer com que ele se encaixe na nossa vida, quando o real sentido do afeto partilhado é justamente o contrário: que a nossa vida se encaixe no que sentimos.

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Não é errado procurarmos pessoas que tenham nossos gostos. Queremos alguém da nossa tribo. Mas a linha que separa a experiência de amar e ser amado, da solidão – entendendo a solidão como consequência do caminho e não uma opção – é tênue e invisível. Acostumamos a soltar.

Numa cultura onde precisamos lembrar constantemente que o amor é importante, também é preciso entender que amar exige uma certa fragilidade. E nada exige mais coragem, do que mostrar-se frágil.

Para que relembremos Drummond: tudo isso é contestável. Ainda bem.

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