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Lugares de memória

“Em Juiz de Fora, a maior cidade escravista da Zona da Mata mineira no século XIX, o passado de uma sociedade contrabandista se faz presente em seus muitos logradouros”

Por Ana Paula Dutra Bôscaro, professora do Centro Cultural Brasil Angola (CCBA) e doutoranda do programa de Pós-Graduação em História na UFJF

12/07/2020 às 06h41

Na esteira da morte do segurança americano George Floyd, protestos contra o racismo eclodiram em vários pontos do mundo. O movimento, que cresceu após a derrubada da estátua do comerciante de escravos Edward Colston, em Bristol, Inglaterra, incitou debates sobre monumentos de personagens ligados à escravidão e ao racismo, querelas que já abarcam o nome dado a edifícios, ruas e praças. A memória é um sentimento vivo.

As discussões que ecoam pelo mundo reverberam no Brasil através de atos pela democracia e protestos que reivindicam o fim da violência racista. Ora, como o país do continente americano que recebeu o maior fluxo de africanos escravizados entre os séculos XVI e XIX, aqui, o nome de figuras ligadas à escravidão também batizam ruas, praças e edifícios. É inevitável, portanto, que, em algum momento, estas correspondências saltassem aos olhos.

Em Juiz de Fora, a maior cidade escravista da Zona da Mata mineira no século XIX, o passado de uma sociedade contrabandista se faz presente em seus muitos logradouros, que, até hoje, privilegiam a memória da elite dominante, dentre os quais destacam-se alguns traficantes de escravos. José Antônio da Silva Pinto, o Barão de Bertioga, foi o fundador da Santa Casa de Misericórdia de Juiz de Fora e um dos maiores benfeitores da cidade. Conhecido benemérito de causas sociais, estava também envolvido no trato de gente escravizada na primeira metade do XIX.

No Bairro Mariano Procópio, sentido Centro, a Rua “Barão Bertioga” foi assim nomeada em sua homenagem. Sujeito já bastante conhecido entre aqueles que estudam a história de Minas Gerais, Antônio Dias Tostes foi um dos mais importantes senhores de terras e escravos do distrito de Santo Antônio do Juiz de Fora. Dono das fazendas de “Juiz de Fora” e do “Marmelo”, é considerado um dos fundadores da cidade.

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No tráfico interno de escravizados, a família Dias Tostes esteve envolvida, pelo menos, desde 1815, negócio que foi reiterado pelas gerações futuras. No Bairro Granbery, um dos mais valorizados da cidade, a Rua Antônio Dias Tostes salvaguarda sua memória.

No Brasil de outrora, o tráfico não se dava apenas em escala atlântica. A cadeia do comércio interno de cativos formou uma sociedade traficante, e dela todos participavam. O tráfico de escravos era, pois, estrutural. Enquanto sociedade traficante que fomos, temos muitos desafios pela frente. O primeiro deles seja, talvez, ressignificar o nosso patrimônio histórico. Não se trata de esquecer o nome daqueles que ajudaram a construir a nossa história. Trata-se de olhar para o passado de forma crítica. Entendê-los historicamente em seu tempo e espaço.

É preciso mais Praças “Negro Theóphilo” e mais Largos “Rosa Cabinda” (Bairro Vitorino Braga). Para nós, vidas negras sempre importaram.

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