A cartilha da Copa

Por Isabela Monken Velloso, professora e pesquisadora do Instituto de Artes e Design da UFJF

12/07/2018 às 07h00

O esporte compreende sempre, de alguma forma, uma relação com o resultado. Ele também nos ensina algo sobre os números, os quantitativos. No último jogo, contra a Bélgica, o Brasil apresentou índices elevados: 57% da posse de bola, contra 43%; 26 chutes contra oito, nove a gol contra três; 14 faltas contra 16. O placar: Brasil 1, Bélgica 2 — sendo um gol contra. No final do segundo tempo, depois do nosso primeiro gol, o Brasil redescobriu que jogava muito bem e melhor do que seu adversário, e que nosso time era, inclusive, criativo e com jogadas ofensivas, mas a partida acabou. Era ainda muito urgente aquela alegria. Sobrou a pipoca na sala enfeitada.

Se o esporte nos ensina sobre números, mais ainda nos revela comportamentos. Reagimos, historicamente, muito mal às perdas. Enquanto o Brasil não demonstrou tratar-se de um time respeitável, após a última derrota em 2014, poucas eram as bandeiras, camisas e cornetas, salvo aquelas já previstas em ambientes programados para esse fim. Já na semifinal, muitos eram os adereços de torcida nas ruas, nos corpos e nas janelas das casas.

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O assunto nas rodas de conversa, nas filas e no ar cheirava a jogo. Na atmosfera, uma densidade otimista, com notas de circo? Algo extraordinário, porque não cotidiano, unia as diferenças, e nos sentíamos de alguma forma tendo, finalmente, um desejo coletivo. E como é bom tê-lo! Ele tem gosto e cheiro de churrasco suculento, de um dia de serviço que termina mais cedo, pois precisamos parar tudo para observarmos muito atentos a algo solenemente nacional: uma bola e um gol.

Não há mesmo nada melhor para responder à nossa certeza de finitude do que este brinde ao prosaísmo da vida, desenhado em uma esfera branca, duas redes e muitos pés. O futebol é, certamente, um elogio à existência em seu aceite ao mistério: temos a mais absoluta certeza de que nossas contas não serão pagas com o placar, assim como nossos problemas também não serão resolvidos no jogo, mas o coração bate muito forte diante do gol.

Essa palavra redonda — quando é nosso! — essa desrazão aprazível que suspende a lógica e ergue o mito, a nossa melhor redenção. Para os entristecidos com a Copa, que eles possam também se lembrar das Olimpíadas que se aproximam. Esperamos, apenas, não precisarmos de uma grande vitória para que as bandeiras se levantem, porque o melhor do esporte é justamente esta miscelânea de vida na qual os números se confundem com pequenas imprevisões, um ombro onde não se espera, uma pontinha do pé que raspa a bola e todos esses detalhes tão banais decisivos sobre o quão forte nossos corações irão pulsar. Pulsemos juntos: isso é, sem dúvida alguma, a melhor parte do que a cartilha da Copa nos deixou.

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