Onde o caos tira o sapato
“Talvez a maturidade não seja escolher entre amar ou odiar a rotina. Talvez seja aceitar que voltar pra casa é reencontrar a si mesma — e isso nunca é simples.”
Voltar pra casa é um esporte emocional de alto rendimento. No mesmo trajeto cabem dois sentimentos opostos: a ansiedade que aperta o peito e a paz que finalmente afrouxa os ombros. É curioso como o mesmo endereço consegue ser, ao mesmo tempo, abrigo e gatilho.
Existe a ansiedade de voltar pra rotina como quem volta pra fila. A mente já antecipa os e-mails não lidos, as demandas acumuladas, os boletos que não respeitam feriados nem estados de espírito. O corpo chega antes da alma. A mala ainda está no chão, mas o cérebro já está na quarta-feira. A casa, nesse estado, vira um lembrete silencioso de tudo o que precisa ser feito. Até o sofá parece julgador.
Mas existe também a outra versão do retorno. Aquela em que a chave gira na fechadura como um suspiro. O cheiro conhecido, o copo que está exatamente onde deveria estar, a roupa confortável que não exige performance. Voltar pra rotina, aqui, não é castigo — é chão. É saber onde o pé pisa. É dormir sem explicar nada pra ninguém. É o luxo de não precisar ser interessante.
A contradição é que as duas coisas acontecem ao mesmo tempo. A paz chega, mas traz a ansiedade no colo. Como uma visita que diz “fica tranquila” enquanto olha insistentemente o relógio. A gente quer o descanso, mas também quer adiar o peso de existir dentro das próprias responsabilidades. Quer silêncio, mas teme o que ele revela.
Talvez a maturidade não seja escolher entre amar ou odiar a rotina. Talvez seja aceitar que voltar pra casa é reencontrar a si mesma — e isso nunca é simples.
No fim, voltar pra casa é voltar pro lugar onde não dá mais pra fingir. E, ironicamente, é exatamente aí que mora a paz. Mesmo quando ela vem acompanhada de ansiedade, mas ela vem. Porque casa não é ausência de caos. É onde o caos pode tirar o sapato e relaxar.
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