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E se o povo perdesse as estribeiras?

…como o psicanalista classificaria a reação do povo, caso ele, republicanamente, também perdesse as estribeiras e saísse chutando o pau da barraca…?


Por José Ricardo Junqueira, Jornalista, ex-secretário de Cultura e Turismo de Cataguases

09/06/2021 às 07h00

O psicanalista Hélio Pellegrino (1924-1988) é autor de um livro de crônicas intitulado “A burrice do demônio”. Numa delas, “A sublime loucura do garçom”, faz a defesa da antipsiquiatria, “uma reação saudabilíssima contra a visão organicista – e repressiva – da psiquiatria clássica”; e o faz contando o caso do dito garçom.

Espanhol e republicano, ele atendia num bar em Copacabana e não tinha um momento de sossego: “os gringos o solicitavam de todos os lados, o patrão o solicitava, o calor o solicitava, as moscas o elegiam, as bandejas carregadas de pratos o crucificavam… e ele era o homem mais urgido e aperreado de todo o Rio de Janeiro”. Mesmo assim, “era um monstro de delicadeza”.

Quando se enrolava num pedido, choviam reclamações em cima do gerente, que repassava sem dó nem piedade para o garçom. Ele sorria e educadamente engolia a bronca, já que o emprego não podia perder. Escreve Hélio: “Na verdade, o garçom era massacrado, diária e legalmente, sem que nenhum cristão – ou ateu – percebesse a sua tortura. Os homens normais, os donos do restaurante e seus fregueses eram surdos ao garçom espanhol, enquanto pessoa. Ele era máquina de servir… esquartejado por deveres e exigências implacáveis, era um herói para nada, sangrando suor e cansaço – em holocausto ao nada. O garçom entrara numa engrenagem cujos dentes eram os cidadãos normais, vivendo numa sociedade normal, onde é legítimo e normal moer-se um trabalhador, espanhol ou não”.

Até que, “violentado na íntima substância do seu ser, o pobre homem teve lá um dia um repelão de anormalidade sublime”. Espumando de cólera, pôs-se a chutar mesas e cadeiras, bandejas, pessoas, tudo que encontrou pela frente. Houve pânico, corre-corre, a polícia foi chamada, e o garçom, esperneando, foi parar no hospício.

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Pura doideira? Parece que não. Segundo Hélio Pellegrino, “nesta medida, o comportamento do garçom se torna, não apenas inteligível, mas libertário e saudável, no mais alto grau”.

Contextualizando a reação do garçom com a mixórdia em que se transformou o Brasil, como o psicanalista classificaria a reação do povo, caso ele, republicanamente, também perdesse as estribeiras e saísse chutando o pau da barraca onde se abriga e se reproduz ad aeternum a choldra de corruptos, ladrões e exploradores desse país, chamando a si o poder, definitivamente revoltado com o “holocausto ao nada” a que vem sendo submetido desde sempre?

(Anti) psicanalista, escritor e poeta dos bons, que, junto com Paulo Mendes Campos, Otto Lara Resende e Fernando Sabino, formava o grupo conhecido como os “Quatro mineiros”, creio que Hélio Pellegrino diagnosticaria positivamente o rebu como “A sublime loucura do povo”, que assim estaria dando uma “robusta e desesperada prova de saúde, física, cívica e mental”.

Evoé! Viva o Hélio, a antipsiquiatria e a saúde do povo brasileiro!

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