Brasil e Estados Unidos têm tempo para acertarem os ponteiros sobre as tarifas

Os primeiros sinais já foram dados, mas falta algo mais concreto para os dirigentes resolverem o impasse das tarifas de 50%


Por Paulo Cesar Magella

13/07/2025 às 06h00

Muita calma nessa hora

 

Brasil e Estados Unidos têm tempo suficiente para acertarem os ponteiros, após a decisão unilateral do presidente Donald Trump de estabelecer tarifas de 50% para a entrada de produtos brasileiros em seu país. Na última quinta-feira, em entrevista ao Jornal Nacional, o presidente Lula disse que não se toma decisão com uma febre de 39 graus, sinalizando que vai esperar a poeira baixar para ver o que deve ser feito. Antecipou, ainda, que os canais diplomáticos estão abertos para negociações.

Depois do impacto inicial, é o melhor caminho a seguir, uma vez que não adianta esticar a corda na mesma proporção, pois há o risco de a situação se agravar. O Brasil tem mais a perder, mas não pode abrir mão, de forma alguma, de sua soberania.

O que deve ser colocado à mesa é mostrar ao presidente americano que não há qualquer chance de uma ação externa mudar decisões do Judiciário. Trump cobra do Governo brasileiro medidas que revertam o julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro e seus seguidores no Supremo Tribunal Federal. É certo que ele conhece a autonomia dos poderes, mas precisa ser convencido de que não é penalizando um país inteiro que vai resolver essa demanda. Nem de outra forma, aliás, pois trata-se de um processo em que as partes atuam dentro do que prevê a legislação.

Na carta enviada ao Brasil, Donald Trump cita o superávit brasileiro nas relações comerciais com os EUA. Sua assessoria, que distribui cartas para outros países, não se deu ao cuidado de fazer contas e o induziu a um erro, que pode perfeitamente ser corrigido se, de fato, for essa a motivação da sanção.

Tendo sido ou não um erro deliberado, o que deve ser colocado à mesa é a necessidade de discussões profundas sobre o que está acontecendo. Na sexta-feira, o Canadá, outro parceiro americano, também recebeu uma carta anunciando uma sobretaxa de 35%. No primeiro semestre, quando Trump fez aviso semelhante e ainda defendeu a anexação do Canadá à lista de estados dos EUA, a empreitada saiu pela culatra. O candidato que lhe era simpático e liderava todas as pesquisas de intenção de votos foi derrotado nas urnas.

As eleições brasileiras vão ocorrer somente em outubro de 2026, mas o palanque já está aberto desde a derrubada do IOF pelo Congresso Nacional. As tarifas americanas têm forte influência nos debates que já estão em curso, fazendo com que uma decisão que afeta diretamente a economia e os brasileiros se torne mote de campanha.

Num cenário que se mantém polarizado, os dois lados já estão em campo. A oposição apontando o dedo para o presidente Lula, a quem acusa de ideologizar a relação com os EUA, e os seguidores do presidente dizendo que a culpa é da família Bolsonaro, que tem um de seus membros nos Estados Unidos articulando sanções ao Brasil sob o argumento de o ex-presidente estar sendo perseguido pelo Supremo Tribunal Federal.

As primeiras pesquisas devem revelar o que passa pela cabeça dos brasileiros, que, ao fim e ao cabo, acabam pagando uma conta de algo que não compraram.