Reflexões sobre a atuação dos tradutores intérpretes de Libras / Língua Portuguesa
“A atuação dos intérpretes de Libras na sociedade e, principalmente, nos contextos educacionais tem se consolidado como um marco importante no processo inclusivo”
Como disse em meu último texto, “E se?” , publicado nesta seção em dezembro de 2024, não tenho intenção em “apontar o dedo” para alguém ou para alguma instituição e, sim, compartilhar com você, leitor, um pouco sobre o “outro” lado, os bastidores da interpretação de/para Libras. Mas, se a carapuça servir …
A atuação dos intérpretes de Libras na sociedade e, principalmente, nos contextos educacionais tem se consolidado como um marco importante no processo inclusivo. No entanto, é imprescindível problematizar e destacar algumas práticas recorrentes que, embora apresentem um compromisso com a inclusão dos surdos, na realidade revelam fragilidades estruturais que comprometem o trabalho dos Tradutores Intérpretes de Libras / Língua Portuguesa (TILSP) e, de certa forma, o acesso da comunidade surda nos espaços educacionais.
Um dos principais desafios enfrentados pelos TILSP é o desconhecimento, por parte de instâncias superiores, acerca das especificidades de sua atuação. Inúmeras vezes, esses profissionais são alocados em atividades, por seus superiores, sem a mínima compreensão de seus limites éticos e técnicos, sendo tratados como figuras meramente decorativas ou com disponibilidade irrestrita. Essa falta de entendimento pode ser “lida” como um desrespeito às normas que regulam a atuação dos intérpretes, culminando em sobrecarga de trabalho e, consequentemente, no desgaste físico e emocional.
Não menos preocupante é o contexto em que alguns docentes, em salas de aula, e/ou organizadores de diferentes eventos exercem de uma forma velada – ou mesmo explícita – um abuso de poder sobre os intérpretes. São frequentes os relatos de decisões unilaterais, exigências incompatíveis com as condições de trabalho e falas deslegitimadoras que ignoram a formação, a experiência e o percurso profissional dos tradutores intérpretes. Essa relação assimétrica compromete o ambiente de trabalho educacional, gerando insatisfação para os intérpretes que, muitas vezes, se veem sem espaço para dialogar ou reivindicar melhores condições.
Ademais, percebe-se uma prática crescente de inserção de TILSP em eventos, sejam eles institucionais ou não, nos quais não há a presença de surdos sinalizantes. Em alguns casos, a presença do profissional é justificada apenas para atender a uma formalidade ou “comprovar” o cumprimento de diretrizes inclusivas. Apesar de a presença dos intérpretes em diferentes eventos presenciais e/ou transmitidos on-line ser um ponto positivo no que se refere à acessibilidade linguística, se faz mister avaliar criticamente, se há realmente a necessidade de interpretação, e se, em caso positivo, o espaço deveria ser organizado e pensado para atender às necessidades linguísticas da comunidade surda.
Desta forma, é válido mencionar a preocupação, ou não, com a qualidade dessas transmissões em plataformas como o YouTube. Isso porque a presença do intérprete é inserida em espaços ou janelas com pouca ou sem visibilidade. Com esse propósito, é importante que ao organizar tal evento se tenha em mente uma preocupação com a iluminação, enquadramento ou posicionamento do profissional da tradução. Além desta questão, muitos intérpretes relatam que não são consultados sobre o planejamento de eventos, em que sua presença está confirmada, o que reforça uma frustração e invisibilização profissional.
Essas questões contribuem para um cenário de adoecimento entre os TILSP. A sobrecarga de trabalho, o desrespeito às normas que regulam sua profissão e a constante sensação de desvalorização impactam negativamente a saúde mental e física desses profissionais. Se não houver uma revisão urgente das práticas institucionais e uma escuta atenta ao intérpretes (que são os que entendem de sua profissão), corre-se o risco de perpetuar um modelo de inclusão apenas aparente, que reproduz exclusões sutis, mas profundas.
Nesse sentido, é importante que gestores educacionais, professores e toda a comunidade acadêmica busquem compreender e respeitar a atuação dos Tradutores Intérpretes de Libras / Língua Portuguesa. Se faz mister o estabelecimento de diálogos com estes profissionais e a valorização de sua atuação. Os TILSP são agentes FUNDAMENTAIS na construção de uma escola (universidade) inclusiva. Para que a acessibilidade possa ser garantida este profissional não pode ser tratado como um “adereço inclusivo”.
*Gabriel Pigozzo Tanus Cherp Martins é tradutor intérprete de Libras / Língua Portuguesa
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