Órgão nacional recomenda interdição de atrativo do Parque de Ibitipoca por risco a turistas; IEF mantém área aberta sob monitoramento

Especialistas identificaram blocos rochosos com sinal de movimentação na Unidade de Conservação e alertam para risco de queda, como no episódio de Capitólio em 2022 


Por Nayara Zanetti

15/04/2026 às 06h00

Ibitipoca
Paredão de Santo Antônio visto do Lago das Miragens (Foto: Leonardo Costa)

Um dos destinos turísticos naturais mais procurados em Minas Gerais, o Parque Estadual do Ibitipoca recebeu cerca de 80 mil visitantes em 2023, ocupando o segundo lugar entre os parques mais visitados do estado, atrás apenas do Parque Estadual Serra do Rola Moça, localizado em Belo Horizonte. Com cerca de 1,5 mil hectares de área preservada, a Unidade de Conservação (UC) concentra mais de 20 atrativos, como cachoeiras, mirantes e grutas. Em meio a belas paisagens que atraem turistas, condições geológicas em uma área do parque têm gerado preocupação entre especialistas. De acordo com relatório do Serviço Geológico do Brasil (SGB-CPRM), o Paredão de Santo Antônio, que abrange parte do Circuito das Águas, apresenta condições críticas de perigo geológico, com risco classificado como “muito alto” para a queda de blocos rochosos nas proximidades do Lago das Miragens. Diante desse cenário, o órgão recomendou a interdição do local. 

O instituto vinculado ao Ministério de Minas e Energia realizou uma avaliação geotécnica, a pedido do Instituto Estadual de Florestas (IEF), que administra a unidade, com o objetivo de identificar perigos geológicos em 29 atrativos do Parque, localizado no Distrito de Conceição do Ibitipoca, em Lima Duarte, Zona da Mata mineira. O documento foi publicado em setembro do ano passado. 

Segundo o estudo, algumas formações rochosas do Paredão de Santo Antônio apresentam fraturas e processos de desgaste que favorecem o desprendimento de blocos  — alguns já instáveis —, com risco de quedas repentinas capazes de causar ferimentos graves ou fatais, inclusive em áreas frequentadas por turistas. O relatório aponta que a queda de blocos rochosos no local pode ocorrer de forma súbita e imprevisível, sem relação direta com as condições climáticas, e já foi registrada em diferentes pontos do parque, como mostram as imagens abaixo. 

divulgacao SGB
Imagens feitas pela equipe do Serviço Geológico do Brasil mostram pontos de rochas que já caíram na região do Paredão de Santo Antônio. (Foto: Reprodução/Relatório SGB)

Relatório recomenda interdição do Lago das Miragens 

Localizado a cerca de 50 metros da Gruta dos Gnomos, o Lago das Miragens pode ser acessado por visitantes por meio de uma trilha na margem direita do Rio do Salto. O poço de águas escuras fica abaixo do Paredão de Santo Antônio e é um dos atrativos mais aproveitados por ser próximo ao restaurante do parque, a uma distância aproximada de 450 metros. Conforme avaliação do SGB, o local está situado ao pé de uma escarpa rochosa com cerca de 15 metros de altura, marcada por fraturas que favorecem o desprendimento de blocos. 

A instabilidade é agravada por fatores como infiltração de água, variações de temperatura e a própria erosão provocada pelo rio, o que pode levar à queda súbita de rochas. Segundo o relatório, esses eventos podem atingir visitantes tanto na base do paredão quanto dentro do poço, além da possibilidade de ocorrência de enxurradas na região. 

trecho entre a prainha e o liquidificador leonardo costa
Durante os trajetos das trilhas, é possível ver exemplos de desprendimento de rochas, como nesta imagem do trecho entre Prainha e Liquidificador, citado no relatório (Foto: Leonardo Costa)

Na parte superior do paredão, um mirante com vista para o lago já está interditado devido à presença de uma fratura na rocha, considerada um indicativo de instabilidade. De acordo com o relatório, a restrição foi adotada por precaução, já que eventuais desprendimentos no local poderiam alcançar a área abaixo, onde os visitantes nadam. 

Por isso, o órgão recomenda a interdição do Lago das Miragens até a adoção de um sistema de monitoramento e alerta para movimentações no maciço rochoso ou a implementação de medidas de estabilização da área. 

Em resposta à Tribuna, o Instituto Estadual de Florestas (IEF) informou que o relatório técnico da SGB está sendo analisado e foi tema da reunião do Conselho Consultivo do Parque Estadual do Ibitipoca realizada recentemente. Apesar de dizer que as medidas propostas seguem em avaliação pelas equipes técnicas do Parque Estadual do Ibitipoca, o IEF afirma que a interdição no atrativo não é vista como necessária no momento. 

“O estudo do SGB apresenta, de forma preventiva, a recomendação de interdição do Lago das Miragens até a implantação de um sistema de monitoramento e alerta para movimentações do maciço rochoso ou a adoção de soluções de estabilização da escarpa. No entanto, durante as discussões, foi considerado que, neste momento, a interdição não se mostra necessária, uma vez que já existe monitoramento em operação no local, realizado pelo IEF”, destaca a nota. 

A Tribuna também entrou em contato com a Parquetur, empresa responsável pela administração do parque até 2053, que informou que a demanda caberia exclusivamente ao IEF.

Pesquisador defende limitar circulação em trechos do parque 

O alerta sobre a instabilidade da região não é recente. Desde o início dos anos 2000, o professor de geografia da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), Geraldo César Rocha, já apontava, em estudos sobre o parque, fragilidades nas rochas do Paredão de Santo Antônio. 

Segundo o pesquisador, a própria formação geológica da área favorece o risco de desprendimentos. “As rochas são muito fraturadas, falhadas e dobradas, o que cria descontinuidades e facilita o desprendimento e movimentação de blocos de rochas”, explica. O especialista também destaca que o fluxo de visitantes pode agravar o cenário. “O pisoteio excessivo tende a aumentar a carga sobre essas rochas suscetíveis, o que intensifica o problema.”

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Lago das Miragens é um dos destinos mais procurados pelos turistas por ficar próximo ao restaurante do Parque (Foto: Leonardo Costa)

César Rocha ressalta ainda que o processo é natural. “A dinâmica terrestre leva à fragmentação das rochas. Na área, os sistemas de falhamento isolam blocos que ficam à mercê da gravidade, o que torna o movimento inevitável”, afirma. De acordo com o professor, a própria configuração das trilhas no parque contribui para o aumento do risco. “Grande parte dos caminhos passa por pontos escolhidos pela vista, mas que também são áreas de perigo. O ideal seria um traçado mais sustentável, evitando essas regiões”, avalia. Ele destaca que eventuais interdições devem ser baseadas em estudos detalhados. “É necessário mapear os blocos mais instáveis e restringir o acesso às áreas de maior risco”, afirma.

Ele também defende a limitação da circulação de visitantes em trechos sensíveis. “Em muitos casos, intervenções exigiriam obras de engenharia que acabariam artificializando a paisagem, o que não é adequado para o local. Por isso, o mais indicado é restringir o acesso e, se necessário, rever o traçado das trilhas”, explica. 

O especialista ainda alerta que períodos de chuva podem intensificar o problema. “A água infiltra nas fraturas, reduz o atrito entre os blocos e favorece a movimentação das rochas”, diz. 

Especialista diz que área tem risco comparável ao de Capitólio 

O engenheiro civil e professor da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), Cezar Barra, que desenvolve pesquisas no parque desde 2005, também afirma que o risco geológico no Paredão de Santo Antônio exige medidas mais rigorosas de controle. O especialista aponta que a ampliação do número de visitantes pode agravar a situação. Segundo ele, o parque já opera próximo do limite recomendado de capacidade de carga. 

Hoje, o parque permite a entrada de até mil visitantes por dia — limite definido com base em estudos de capacidade de carga desenvolvidos pelo próprio Cezar Barra. “Mais pessoas significam mais pressão sobre as trilhas e maior probabilidade de acidentes, especialmente em áreas geologicamente frágeis”, afirma. 

Cezar Barra chama atenção para a semelhança geológica da região com áreas onde já ocorreram acidentes graves, como em Capitólio (MG). Segundo ele, o tipo de rocha e as condições de fraturamento são comparáveis, o que reforça a necessidade de medidas preventivas. “Se houver desprendimento, além de atingir quem está na parte superior, o material pode alcançar quem estiver na água, igual o acidente em Capitólio”, alerta. 

Sinalização atual não é suficiente, diz pesquisador  

Trecho da face do Paredao de Santo
Trecho do Paredão de Santo Antônio, poucos metros do Lago das Miragens (Foto: Reprodução/Relatório SGB)

Para o pesquisador, o principal caminho para reduzir riscos não é necessariamente a interdição total, mas o controle da visitação. “É possível manejar o acesso, com barreiras físicas a uma distância segura da borda e orientação para que os visitantes não permaneçam em áreas sob o paredão”, explica.

Ele também defende que o acesso à água seja limitado em trechos mais seguros. “O visitante pode entrar no rio, mas não deve permanecer abaixo do paredão, onde há risco de queda de fragmentos”, afirma. 

Segundo Cezar Barra, a sinalização existente no parque não tem sido suficiente para evitar situações de risco. Durante trabalhos de campo recentes, o pesquisador observou turistas desrespeitando limites de segurança. “É comum ver pessoas sentadas na beira do paredão, mesmo com placas de alerta. Muitas acreditam que nada vai acontecer, mas o risco existe”, diz. 

IEF reforça que riscos são naturais e descarta instabilidade iminente 

Na nota encaminhada à reportagem, o IEF também ressaltou que os riscos apontados no relatório, como enxurradas e eventual queda de blocos rochosos, são processos naturais característicos do ambiente do Parque Estadual do Ibitipoca e podem ocorrer em diferentes níveis em áreas de escarpa e outros atrativos. Segundo o órgão, o monitoramento dessas condições é contínuo e, até o momento, não há registros de movimentações que indiquem instabilidade iminente. 

O instituto afirmou ainda que a gestão de riscos no parque inclui monitoramento técnico, sinalização e orientação aos visitantes, no âmbito do Sistema de Gestão de Segurança (SGS), em implantação. O IEF reforçou que a visitação em ambientes naturais envolve riscos inerentes e destacou a importância de que os visitantes estejam devidamente informados e adotem comportamento responsável. 

“O IEF reafirma seu compromisso com a segurança dos visitantes e com a avaliação contínua das recomendações técnicas, buscando o equilíbrio entre a proteção ambiental e o acesso responsável ao patrimônio natural”, finaliza a nota.