Acessibilidade no ensino superior: presença de estudantes com deficiência aumenta e expõe desafios para inclusão

Estudantes e graduados com deficiência relatam experiências, oportunidades, dificuldades e expectativas


Por Julia Valgas*

07/06/2026 às 06h00

A acessibilidade no ensino superior é uma demanda nas universidades da Zona da Mata mineira. Se por um lado as pessoas com deficiência (PCD) acessam cada vez mais os cursos de graduação, por outro, elas ainda são responsáveis por lançar luz sobre questões que envolvem igualdade de condições, autonomia e participação. Apesar de as instituições reconhecerem a importância das políticas de inclusão e equidade, na prática, as ações se revelam pouco estruturadas.

Thaís Altomar é jornalista e palestrante. Aos 62 anos, ela relembra que a sua trajetória na universidade foi marcada tanto pela necessidade de adaptação de algumas atividades, quanto pela exemplar acessibilidade atitudinal dos colegas e professores na década de 1980. O conceito de acessibilidade atitudinal é referente às práticas e aos comportamentos que promovem a participação plena de pessoas com deficiência na sociedade. Thaís não nega os enormes avanços em direção à construção de um ensino superior mais inclusivo, mas também reconhece que a luta continua.

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Atendimento do Núcleo de Apoio e Atendimento Psicológico da Estácio, com a psicopedagoga Vanice Begnami (Foto: Divulgação/Estácio)

Estudante de jornalismo na Universidade Federal de São João Del Rei (UFSJ), Rafael Alonso tem paralisia cerebral. Por conta da condição, ele tem dificuldades com a fala, e a mãe dele, a artesã Janaína do Amaral, relatou à Tribuna como é o dia a dia do estudante na faculdade. Para frequentar as aulas, Rafael também conta com o auxílio dela. Apesar das dificuldades de acessibilidade, principalmente no que se refere às tecnologias assistivas, ela afirma que a experiência é muito positiva. Conforme a Lei Brasileira de Inclusão, 13.146 de julho de 2015, tecnologia assistiva define produtos, metodologias e serviços que possibilitam a autonomia, independência, qualidade de vida e inclusão social de pessoas com deficiência.

João Victor Xavier cursa jornalismo na Estácio, em Juiz de Fora, mas também já se formou em pedagogia e história pela mesma instituição. Ele relata uma experiência positiva no ensino superior, apesar de ter sentido impactos do autismo nessa vivência. Já Jandira Lopes, de 71 anos, ficou cega há 15, após um Acidente Vascular Cerebral (AVC). Ela se formou no curso de Letras – Espanhol da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) neste semestre e afirma que a experiência na instituição “foi positivíssima”, destacando o acolhimento que recebe dos professores, sempre dispostos a adaptar as atividades às suas necessidades, e o apoio do Núcleo de Inclusão e Acessibilidade (NAI) da instituição.

A presença de alunos com deficiência no ensino superior representa avanço, mas também traz a tona a necessidade de melhorias. Na avaliação da professora da UniAcademia, audiodescritora e pesquisadora sobre inclusão de pessoas com deficiência, Kelly Scoralik, nenhuma universidade está completamente adaptada para receber os estudantes, justamente porque cada um deles apresenta necessidades específicas. 

“A gente caminhou muito. Mas muito do que a gente caminhou, também foi pela presença desses estudantes nas faculdades. E eles precisaram, em muitos momentos, até brigar pelo direito deles. E aí, a partir do momento que esse estudante está presente, a universidade se atenta um pouco mais para essas questões.” Kelly destaca que a instituição não deve esperar o aluno reivindicar seus direitos: ela deve se adaptar para atender as necessidades de todos.

Mudanças com o tempo

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Thaís Altomar teve poliomielite aos quatro meses e hoje é jornalista e palestrante (Foto: Arquivo Pessoal).

Thaís teve poliomielite aos quatro meses e cresceu como uma pessoa cadeirante. “Não lembro de ver pessoas com deficiência. Tudo era muito assim, com meu esforço mesmo, vontade e ter que estudar. Porque lá em casa nunca teve a opção de escolha, né? Se todos os meus irmãos estudaram, eu também tinha que estudar. Eu nunca parei pra pensar o que eu vou fazer que uma pessoa cadeirante pode exercer. Não me lembro, nunca pensei assim.”

Mas ela era uma entre as poucas pessoas com deficiência na universidade. “As [deficiências] sensoriais… visão, audição… a gente nem falava sobre isso. Era muito menos provável que essas pessoas acessassem a faculdade”, pontua. Naquela época, ainda não havia leis de inclusão e a Constituição de 1988 acabava de ser publicada.

Ela relembra que o acesso à sede da instituição era feito por uma escada com 51 degraus. “Normalmente, alguém me levava, e chegando lá, qualquer um dos colegas vinha me ajudar. Eu passava para a cadeira e eles me subiam os 51 degraus, incluindo as amigas mulheres.  Tinha, inclusive, um rapaz que vendia picolé na porta que quando via eu chegar, já vinha me ajudar. “

Esses não foram os únicos desafios que Thaís encontrou: as mesas e cadeiras não eram adaptadas, as câmeras do curso ainda faziam poucos movimentos e ela precisava sentar sob almofadas e livros para dar altura, os banheiros não eram adaptados e a cantina possuía degraus. Mas ela olha para o presente e para o futuro com esperança e conta que, por todas as universidades em que passou para ministrar palestras e fez observações sobre a acessibilidade, quando retornou, as melhorias já tinham sido realizadas.

 

Mãe e filho aprendem juntos

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Janaína acompanha o filho Rafael Alonso nas aulas da graduação em jornalismo pela UFSJ (Foto: Arquivo Pessoal)

Janaína conta que a vontade de Rafael de cursar o ensino superior teve início com o incentivo dos professores da escola em que ele estudava para fazer o Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM). Na universidade, mãe e filho também encontraram docentes  receptivos e dispostos a auxiliá-lo no que fosse necessário.

“Aqui em São João [Del Rei] tem um departamento, o Sinac [Setor de Inclusão e Acessibilidade], que faz a mediação entre os alunos com deficiência e os coordenadores dos cursos, responsável por ver as necessidades que os meninos e as meninas têm.” Janaína afirma que muitas melhorias já foram feitas. Quando ingressaram na universidade, a porta do laboratório de rádio, por exemplo, já estava sendo substituída por uma que permitisse a passagem da cadeira de rodas.

“Senti falta de um computador mais adaptado. Eles emprestaram um notebook, porque o Rafael não tem. Mas eu sinto mais necessidade nessa parte. Chama tecnologia assistiva, né?”, reflete Janaína. Entre os pontos positivos de o filho acessar o ensino superior, ela destaca a oportunidade de aprender e conhecer pessoas novas.

E se engana quem acredita que os benefícios são apenas para Rafael. Janaína conta que, apesar de se equilibrar entre o ambiente universitário, o trabalho com artesanato e as tarefas de casa, também gosta de frequentar a universidade: “A gente aprende tanta coisa! Gostei muito de filosofia! E o Rafael é filho único, se eu não fizer por ele, quem vai fazer, né? No geral, eu gosto, mas tem dia que acho cansativo… mas é gratificante, a gente sai da zona de conforto.”

Um sonho antigo que se realizou

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Jandira Lopes é cega e se formou em Letras pela UFJF (Foto: Arquivo TM)

Quando questionada sobre o momento em que decidiu ingressar no ensino superior, Jandira não titubeia: “A primeira vez que eu pensei em ser professora, eu tinha 10 anos. Fiquei muito entusiasmada, que eu já sabia ler corrente, e a professora me deu um livro da Cecília Meirelles pra ler o poema ‘Isto ou aquilo?’ Divertidíssimo esse poema! E perguntei pra ela o que que ela fez para poder me ensinar. Ela falou, ‘estudei muito, minha filha. Você tem que estudar muito para ser professora’. E eu decidi que era o que eu queria ser. Só que eu tive que esperar 60 anos pra isso acontecer”.

Recém-formada, ela destaca que se sentiu muito apoiada pela universidade. Diariamente, recebia o suporte de um monitor pedagógico do NAI, que lia para ela os textos que eram recomendados pelos professores e não estavam disponíveis em PDF. Quando estavam no formato, ela usava um aplicativo de leitura no celular e no computador. Além disso, suas provas eram realizadas de forma oral, para garantir a acessibilidade.

Mas Jandira não nega que podem haver melhorias: ela defende que falta verba para a inclusão de pessoas com deficiência e, por isso, o NAI fica sobrecarregado. “Tem muito mais pessoas precisando porque a inclusão abriu a porta para todas que queiram fazer faculdade. Então, tem vários tipos de deficiência”, pontua.

O papel da universidade no diagnóstico

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João Xavier se formou em história e pedagogia e está concluindo a formação em jornalismo pela Estácio (Foto: Arquivo Pessoal)

Para João Victor, a universidade teve um papel fundamental no processo de diagnóstico do autismo. ”Foi graças à disciplina educação especial, que fala sobre todos os tipos de deficiência, mas tem uma ênfase principal no autismo” explica. “Teve uma palestra com uma autista nível 2 de suporte, que relatou como é viver com o autismo, os sintomas, as características, como procurar o diagnóstico. E eu me identifiquei, fui atrás de uma neuropsicóloga, e veio o diagnóstico”, relembra.

Ele destaca a importância da neuropedagoga no seu processo de aprendizagem, já que ela é a responsável por mediar questões relacionadas ao ensino, à didática, à maneira de falar com os professores e à coordenação e critérios avaliativos. João não nega as dificuldades que encontrou no ensino superior, sobretudo relacionadas às questões sensoriais, às novas vivências e às rotinas mais complicadas, mas reconhece que com o apoio da universidade conseguiu ser “ainda mais protagonista da própria história”. Ele acredita que a instituição pode se preparar ainda mais por meio de workshops e treinamentos com as equipes de gestão, docência e neuropsicopedagogia para o atendimento aos alunos com deficiência. 

Luta é coletiva

Para assegurar uma acessibilidade efetiva no ensino superior, os entrevistados ouvidos pela Tribuna concordam que é preciso um olhar individualizado para as necessidades de cada estudante.

“Estar no ensino superior é de uma grandeza imensa para as pessoas com deficiência que, muitas vezes, lá atrás, nem entravam nas escolas. Chegando lá, você não deveria mais encontrar nenhum obstáculo. Principalmente o atitudinal, saber lidar com as pessoas. Isso não deveria existir mais”, defende Thaís.

A jornalista destaca três passos importantes em direção à construção de um ensino superior mais inclusivo: mais rigor no cumprimento e na fiscalização das leis que promovem a inclusão e a formação continuada de alunos e docentes na temática da inclusão.

“A pessoa com deficiência desiste muitas vezes porque ‘tá’ um pouco cansada da luta. E isso não é legal. A gente não pode ficar cansado dessa luta, porque essa luta é pra gente e para as gerações que estão por vir”, defende Thaís. “Às vezes dói, às vezes a gente chora, mas a gente precisa cuidar das universidades pra gente e cuidar das universidades para a nova geração que vai chegando”, completa.

Para Janaína, o que ela gostaria que todas as pessoas soubessem sobre a experiência do filho é que “a pessoa com paralisia cerebral tem dificuldade motora, às vezes, sensorial, mas tem os mesmos desejos e sonhos que todo mundo. E às vezes pensam que porque é uma pessoa com deficiência, ele não pode querer ser um profissional, que está ali só por causa da inclusão”, desabafa.

“Eu acredito que eles ficam mais ressabiados, sem jeito de lidar com o Rafael, pela questão da paralisia, também porque ele é muito dependente de mim. Eu acredito que se ele fosse mais independente, ele teria mais amizades”, diz Janaína. A artesã conta que sente que algumas pessoas são capacitistas com o filho. O termo capacitismo refere-se à discriminação de pessoas com deficiência na forma de tratamentos, práticas e barreiras físicas que impedem o pleno exercício da cidadania, segundo o Governo Federal.

João destaca a urgência da conscientização e da responsabilidade acerca de como falar sobre as deficiências: “Tem que se politizar, se conscientizar e se reeducar sobre essas questões, tanto sobre o autismo, quanto outras deficiências”. Para Kelly, a regra básica é a empatia. “Enquanto a forma como a gente trata esse outro com deficiência não mudar, enquanto eu não entender que esse aluno tem os mesmos direitos de todos os estudantes que estão ali, e eu, enquanto professora, não pensar que eu preciso mudar a minha forma de atuar, não adianta ter material adaptado, ter laboratório adaptado.”

A professora ainda destaca: “eu não preciso ser uma pessoa com deficiência para estar lutando por isso. É a gente pensar que o mundo é para todo mundo. A gente não pode esperar doer na gente.”

Políticas de inclusão nas universidades

A Tribuna demandou as universidades onde os entrevistados estudam ou se formaram a respeito das políticas para inclusão de pessoas com deficiências. A UFJF afirmou que não conseguiria responder em decorrência da greve dos Técnicos Administrativos em Educação (TAEs). 

A UFSJ afirmou que “desde a sua criação, recebe estudantes com deficiência, mas o aumento exponencial veio a partir de 2017, com a aplicação da legislação que garante a reserva de vagas.” Em nota, destacou que o Sinac presta acompanhamento para 118 estudantes. Esse número, entretanto, não representa todos os alunos com deficiência, já que nem todos solicitam acompanhamento especial.

A Estácio Juiz de Fora explicou que tem uma Política Institucional de Acessibilidade para Inclusão de Alunos com Deficiências e Necessidades Educacionais Específicas, que atualmente atende 37 alunos. Na Estácio Brasil,  já atendeu 1.493 estudantes, que têm uma taxa de conclusão de curso acima de 75%. “O núcleo atende alunos com deficiência física, visual, auditiva e intelectual, além de estudantes com transtornos do neurodesenvolvimento, como o Transtorno do Espectro Autista (TEA), e dificuldades de aprendizagem, como TDAH e dislexia”. A instituição também destacou algumas das medidas de acessibilidade na infraestrutura do campus, como tapete tátil, sinalização em braile, rampas e elevadores, banheiros adaptados, cadeiras para cadeirantes, balcões rebaixados e estacionamento acessível.

A reportagem também demandou a Faculdade Suprema , que atua em Juiz de Fora e tem foco no ensino superior na área de saúde. A instituição afirmou que “foi pensada para ser um espaço acessível, com estrutura preparada para receber diferentes perfis de estudantes, considerando suas necessidades e promovendo um ambiente inclusivo”. A Suprema possui um Núcleo de Acessibilidade (NA), que oferece Atendimento Educacional Especializado (AEE) para os estudantes que o solicitam.

Já a Universidade Salgado de Oliveira (Universo) e a UniAcademia, que também oferecem cursos de ensino superior em Juiz de Fora, apesar de contatados pela Tribuna, não responderam até o fechamento desta edição.

*Estagiária sob supervisão da editora Gracielle Nocelli