‘Temos que continuar com a Lava Jato’


Por EDUARDO MAIA E RENATO SALLES

30/04/2016 às 07h00

Eu vejo que o processo tem que ir adiante e as questões graves que existem tem que ser apuradas

Eu vejo que o processo tem que ir adiante e as questões graves que existem tem que ser apuradas

Após 58 anos de vida pública, incluindo três mandatos consecutivos no Senado Federal, o ex-senador Pedro Simon (PMDB-RS) acompanha o desenrolar do processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff. Em visita a Juiz de Fora para uma palestra no Museu de Arte Murilo Mendes (Mamm) ontem, ele conversou com a Tribuna na sede do Instituto Itamar Franco, no Museu de Crédito Real. Além de elogiar a Operação Lava Jato, afirmou que o vice-presidente Michel Temer é capaz de unificar o país a partir do diálogo entre todas as forças políticas. No entanto, considera que o “toma lá dá cá” entre partidos não pode guiar as negociações em um novo governo.

– Tribuna – Como o senhor vê hoje o cenário político no país?

– Pedro Simon – Eu acho a situação muito delicada. Tenho insistido que há uma diferença de hoje para todas as crises que vivemos no passado. Ao longo da história, deputado, senador, gente importante não ia para a cadeia. Cadeia era lugar para povão, para ladrão de galinha. De uns anos para cá, temos verdadeiramente uma limpa, nos mínimos detalhes. Vários empresários estão na cadeia, políticos, o líder do Governo no Senado estava na cadeia. O Supremo está aceitando [as denúncias]. Pela primeira vez, está acontecendo o que nunca aconteceu na História do Brasil.

– O senhor acredita que, se aprovado o impeachment e num eventual governo Temer, haverá a continuidade da operação?

– Tudo está sendo investigado e provado. O importante, nesse debate todo, é continuar a operação. Sinto que tem muita gente de um lado e do outro que está querendo parar. A operação não envolve só o PT. Envolve PMDB, PSDB, um monte de gente. O primeiro compromisso de honra que temos que assumir é continuar a Lava Jato até que se chegue a um ponto final.

– Pela sua experiência, o senhor acredita na aprovação do impeachment?

– Todas as informações que a gente tem hoje indicam que sim. O impeachment vai além das pedaladas. A pedaladas são graves, de maior significado, mas o importante é o que aconteceu no terreno da corrupção, na Petrobras, os empréstimos que foram feitos na Venezuela e Cuba e são secretos. Essa questão é o fato mais importante que o PT quer desviar, ficar só nas pedaladas. Até o povo não termina entendendo direito o que é. Eu vejo que o processo tem que ir adiante e as questões graves que existem tem que ser apuradas.

– Se confirmada a possibilidade de o PMDB chegar ao comando, o senhor vê Michel Temer como capaz de unificar o país?

– Fui amigo de todas as horas do Itamar [Franco, ex-presidente]. Digo o seguinte: quando ele assumiu, as pessoas não achavam que ele seria capaz. Era um homem teimoso, radical, tinha suas ideias, era duro. Não era de imaginar que o Itamar era o homem de dirigir o país, mas ele fez pela maneira séria de administrar, teve essa rigidez.

– Mas o senhor vê isso no Michel Temer?

– Isso eu vejo. O Michel é um homem competente. Tem condições de fazer. O problema são os compromissos dele. Ele é presidente do PMDB e fez um entendimento com o PSDB. Tem o PSB, o PTB, eu não sei como ele vai agir, se ele vai conseguir. O Itamar faria: um monte de gente que ficou do lado dele na hora do impeachment tratou como amigos e mais nada. Não teve troca. Essa maneira de ser, de agir, é que vai ser discutida. Por outro lado, o Itamar não teve pela frente alguém do antigo Collor, que queria fazer oposição, tentando não deixar que o Governo fosse adiante. Mas o PT fala de uma maneira, na minha opinião exagerada, convocando as pessoas para irem às ruas.

– A governabilidade estaria garantida em um novo governo?

– Somos o maior partido, temos o maior número de governadores, de prefeitos. Para presidente da República, elegemos o Tancredo. E ficou o Sarney. Criou-se esse problema. Esse termo político de governabilidade, de que um partido tenha que fazer uma aliança para governar. É um troca-troca, é dando que se recebe. E se nosso amigo for para esse lado, vai ser muito complicado. Primeiro lugar, porque quer diminuir os ministérios de 35 para 20, 22. Ele não vai encontrar espaço para tantos ministros. Ele vai ter que tentar um projeto, uma ação para adquirir a confiabilidade. Os estados estão entrando com ação no Supremo, para decidir sobre as dívidas estaduais. Ele vai ter os governadores em guerra e do outro lado o Ministro da Fazenda que diz que não pode. Todos esses problemas são difíceis.

– Como ele poderá encontrar uma saída?

– Logo que assumiu, o Itamar reuniu todos os partidos. Reuniu todos nós no palácio, colocou todos os ministros, a gente discutiu: “Quero dizer aos senhores que quero fazer um governo de entendimento. E, para isso, fazer um compromisso, vamos tomar essa decisão conjunta”. Eu espero essa postura. Mas fico preocupado, esses nomes que já saíram no jornal, esses cargos. Embora ele tenha que fazer isso, deveria ser feito com mais sigilo, mais internamente.

– O vice-presidente estaria antecipando?

– Eu entendo o motivo dele. O processo está no Senado e pode ser que daqui a três ou quatro dias ele tenha que assumir.

– Como avalia a postura do presidente da Câmara até agora e num eventual governo Temer?

– Com toda a sinceridade, eu acho que é uma figura que foi importante para a organização da Câmara. Enquanto o processo dele está na Comissão de Ética e não sai, ele tem uma rapidez, uma agilidade impressionante. Mas eu acho que a melhor coisa que ele poderia fazer é renunciar à presidência. O grande problema é ele virar vice-presidente.

– O STF poderá pedir o afastamento do presidente da Câmara?

– Eu não sei se há profundeza jurídica. Acho que o Supremo está com os casos dele e, passado o problema do impeachment, logo tem a obrigação de julgar.