Quem são os ativistas das ruas

Rubem Barboza, Paulo Roberto Figueira e Diogo Tourino
O cenário de reivindicações heterogêneas de manifestantes que tomaram as ruas em junho é objeto de análise de cientistas políticos, na tentativa de entender as diversas vozes, que, entre outras coisas, repudiaram partidos e entidades de esquerda. As contradições dos protestos fundamentam-se, segundo diferentes análises, em dois motivos. O primeiro deles seria a chegada à cena da luta política de uma geração de jovens, nascidos nas décadas de 1980 e 1990. O outro seria a forte presença da classe média nos protestos, seguimento cujas demandas, até então, não vinham sendo ouvidas nos atos públicos liderados por centrais sindicais, partidos ou movimentos sociais (ver quadro abaixo).
Observando os que foram às ruas com o olhar voltado para o perfil geracional, o cientista político da UFJF Rubem Barboza pensa que falar em protestos da "classe média" é desfocar o público que moveu as manifestações. "O que dá para pensar é num público jovem, que traz consigo outro imaginário sobre a vida, sobre política, sobre o direito ao usufruto dos serviços básicos, como transporte, saúde e educação." Segundo o professor, os jovens, atualmente, estão acostumados a um espectro de informações que transcende estruturas rígidas, como as das tradicionais organizações e partidos, o que teria implicado a repúdia a partidos políticos percebida nas manifestações.
O apartidarismo é admitido pelo estudante Guilherme Imbroisi, 20, articulador voluntário do "Junta Brasil". Ele, coerente à ideologia horizontal e suprapartidária do protesto, refuta a alcunha de "liderança". "As manifestações tinham apenas uma bandeira: interferir nos mais diversos problemas que incomodam a sociedade. Isso deu força ao movimento, pois, sem uma causa central, ele pôde representar o maior número de pessoas."
A estudante Vanessa Queiroz, 21, também participante dos atos públicos, é ainda mais enfática ao explicitar sua opinião sobre os grupos que, tradicionalmente, encabeçam os protestos. "Acredito que as organizações e, mais especificamente, os partidos, vêm perdendo credibilidade. Suas identidades estão sendo questionadas. Quem afirma defender o povo realmente o defende? Ser de esquerda ou de direita perde um pouco a importância quando tudo está errado."
Os dois jovens participaram do movimento desde o seu nascedouro, que, em Juiz de Fora, ocorreu em 17 de junho. Neste dia, cinco mil pessoas ocuparam a Avenida Rio Branco, mesclando as reivindicações locais, como redução da tarifa do ônibus e repúdio ao novo texto da Lei de Uso e Ocupação do Solo, às demandas nacionais por melhorias nos serviços públicos e contra os gastos excessivos com a Copa do Mundo.

Pautas que contemplam a classe média
Especialistas que partem da classe social dos manifestantes para compreender a diversidade de bandeiras vistas nos protestos, entre eles os cientistas políticos Paulo Roberto Figueira Leal, também da UFJF, e Diogo Tourino, da UFV, encontram, nas mídias sociais, a explicação para a alta representatividade da classe média entre os manifestantes. Isto porque o uso desta ferramenta é predominante entre pessoas que possuem computador e acesso à internet.
"Se o uso de uma tecnologia que é mais presente entre jovens de classe média foi a principal ferramenta de articulação dos protestos, é natural que ela direcione o perfil daqueles que foram às ruas. Mais do que isso, a própria pauta das manifestações é condicionada pelos perfis geracional e social dos manifestantes", afirma Paulo Roberto.
Segundo os dois especialistas, a classe média teria pautado as manifestações com suas demandas, tendo permitido que a afirmação "o gigante acordou" fosse transformada no símbolo de sua apropriação da luta política. O despertar do suposto "gigante", ressalta Diogo Tourino, negligencia a histórica militância de trabalhadores, feministas, homossexuais e negros. "Quem é este gigante? É a classe média, que estava na inércia em relação à luta política, e chegou às ruas com pautas que a contemplavam, especificamente. Não havia reivindicações clamando por melhor distribuição de renda, nem pelo acesso de pessoas pobres à saúde e à educação. É como se este ‘gigante’ pedisse essas melhorias para ele, mas negligenciasse uma grande parcela da população que é tratada como minoria."
Neste mês, inclusive, movimentos historicamente vinculados à luta por direitos das minorias e da classe trabalhadora, como partidos e centrais sindicais, articularam reação ao repúdio sofrido em junho. Organizaram suas próprias passeatas e promoveram, no dia 11, o Dia Nacional de Luta, em que vários sindicatos fizeram paralisações das classes que representam. A data ficou conhecida como "Dia de Greve Geral" e representou o marco da entrada da classe trabalhadora na onda de protestos. O movimento de julho, no entanto, testemunhou novo esvaziamento das ruas. Em Juiz de Fora, atos públicos reuniram poucas centenas de manifestantes.
Fator estrutural
Independentemente da análise sobre as conjunturas que delinearam o perfil dos manifestantes, a impressão de que as redes sociais estruturaram os protestos é quase unanimidade. Tanto para manifestantes quanto para especialistas, a forma como tais mídias permitem que pessoas manifestem suas opiniões tornou-se o principal canal para que o movimento "Junta Brasil" surgisse forte. O estudante Guilherme Imbroisi define as redes sociais como "a fundação que manteve o movimento". Para o articulador do "Junta Brasil", elas permitiram que as pessoas manifestassem suas opiniões políticas, percebendo não estar sozinhas. "Cada pessoa compartilhava o que pensava no Facebook, postava no Twitter, e, desta forma, encontrava outras que pensavam da mesma maneira e curtiam, comentavam, desdobravam esse posicionamento."
Inicialmentre um espaço de discussões contestado, tachado de superficial, as redes ganharam reconhecimento nos últimos anos, desde que eventos, como a Primavera Árabe, e o movimento "Ocupe Wall Street", em 2011, repercutiram mundialmente a liderança de jovens em movimentos políticos. "As manifestações deste ano serviram para mostrar, uma vez mais, que o espaço virtual pode e deve ser utilizado para reflexões sociais e políticas", afirma a estudante Vanessa Queiroz.
O destaque para a forma como estes espaços são capazes de congregar pessoas com ideias, gostos e posicionamentos parecidos, entretanto, não é suficiente, segundo Tourino, para explicar o papel central que as redes assumiram nos protestos. À impressão mais nítida, que define as redes sociais como centro de compartilhamento de ideias, o cientista acrescenta o poder das novas tecnologias em democratizar informações. Isto porque, sobretudo nos primeiros dias, vídeos amadores registrados por jovens atestando agressões de policiais contra manifestantes, foram publicados na internet e ganharam divulgação nacional. "As mídias sociais passam a concorrer com informações oficiais, o que dá força aos movimentos na luta contra a repressão, além de envolverem mais pontos de vista. Quem ganha é a democracia."









