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Nada no balaio


Por RICARDO MIRANDA

29/09/2012 às 07h00

‘Pão e circo’

Tinha aquela história do pão e circo. Era incompreensível ver as pessoas, com barrigas e bolsos cheios, optando sempre pelo espetáculo em detrimento da realidade. Ninguém conseguia explicar milhares de torcedores, sob sol e sob chuva, espremidos em um estádio de futebol. Eram todos alienados. Um absurdo. Era preciso mudar tudo aquilo.

Começaram, então, a desespetacularizar as coisas. O carnaval virou desfile de gringos endinheirados e atrizes formosas. Tecnicamente perfeito e economicamente viável. O samba não podia ter referência a sonhos, deuses e paraísos por se tratarem de temas alienantes.

Mudaram também o futebol. O improviso e a vulgaridade do drible eram demasiadamente fora da realidade. Um crime. Além do mais, belas jogadas não levam ninguém ao Mundial de Clubes no Japão. Para chegar lá, ao contrário, recomendava-se seriedade e pouca invencionice. O futebol, como a vida, deve ser duro.

A Seleção de Futebol do País do Sol era outro problema para os novos tempos. O ideal era extingui-la, mas, como não era possível no curto prazo, resolveram boicotá-la, convocando apenas ex-jogadores.

E tudo foi ficando chato, como é comum a tudo que chamam de realidade. Não sabiam que o problema estava justamente na realidade, que deveria ser mudada, e não o espetáculo, imprescindível à vida, assim como o pão.