Fala, Mestre! Há 30 anos, Ivan Gal pauta respeito e ética na formação através do futsal
Professor com passagens no Clube Bom Pastor, Sport Club Juiz de Fora, SESI e AABB hoje é coordenador na Escola do Flamengo
Ivan Gal não chegou ao futsal com um plano traçado. Foi o próprio ambiente esportivo que abriu os caminhos. Aos 61 anos, com mais de três décadas de atuação, ele segue presente no dia a dia das quadras de Juiz de Fora. “Já estou à frente do futsal há 31 anos. É uma trajetória longa, com muita coisa boa e algumas ruins também”, avalia.
O professor é o quarto personagem da série “Fala, Mestre”. Nela, a reportagem conta histórias de treinadores dos mais diversos esportes na cidade. A intenção é valorizar a trajetória, relembrar personalidades marcantes e reforçar o poder da atividade física na transformação social, no lazer e na saúde, sobretudo sob o acompanhamento de profissionais da área. Até o momento, foram publicadas matérias com Gerson Willian, do futsal; Altina Carla, do muay thai; Giselle Muniz, da natação; e Zirlene dos Santos, do atletismo.

Início como jogador
Desde criança, antes mesmo da vontade de ser professor, Ivan já era apaixonado por esportes. “No Colégio Academia, eu participava de handebol, basquete, vôlei, futsal, futebol de campo. Sempre gostei muito dessa vivência”, elenca. O primeiro passo no futsal competitivo veio a partir de um convite direto. “O Adonise, o Gaguinho, me chamou para jogar no Bom Pastor. Passei a disputar campeonatos municipais, o Mineiro, os JIMIs. Foi ali que tudo começou”, completa.
O mesmo convite, anos depois, mudou o rumo da relação com o esporte. “Como ele já dirigia as equipes mais velhas do clube, me chamou para começar a comandar uma equipe. Eu aceitei. Isso foi em 1995.” A resposta veio rápido dentro de quadra. “Trabalhei com a equipe infantojuvenil, que hoje corresponde ao sub-17. Já naquele primeiro ano, tivemos destaque no Campeonato Mineiro, e eu recebi reconhecimento da Federação Mineira de Futsal como melhor treinador”, relembra.
Desde então, Ivan Gal passou por diferentes projetos do futsal local, acumulando experiências no Clube Bom Pastor, Sport Club Juiz de Fora, SESI, AABB e outros espaços importantes da cidade. “No Sport, fomos campeões mineiros com o adulto e disputamos a Copa Rio-São Paulo-Minas, uma competição de grande nível, transmitida pelo SporTV e com repercussão muito positiva”, narra. Já no SESI, foram 12 anos, onde teve a oportunidade de trabalhar com Max Alves, ex-Flamengo e hoje no Sport.

Trabalho na Escola Flamengo
Hoje, o trabalho acontece na Escola Flamengo, onde atua como coordenador. São cerca de 650 alunos acompanhados de perto. “Nós temos categorias a partir dos 4 anos até o sub-17. Há também meninos com mais de 17 anos que seguem com a gente, não necessariamente competindo, mas porque querem continuar nesse ambiente”, pontua. O olhar vai além da parte técnica. “Acompanho os treinos quando necessário, converso metodologicamente com os professores, procuro orientar para que esse lado positivo esteja sempre presente”, conta.
Essa linha de trabalho acompanha Ivan Gal desde o início. “Eu costumo dizer que o esporte é uma ferramenta espetacular de formação, não só esportiva, mas também de formação humana, de cidadania”, afirma. Por isso, ele amplia o olhar sobre quem passou pelas suas equipes. “Alguns se tornaram profissionais no futsal e no futebol de campo, atuando no Brasil, na Europa e na Ásia. Outros não seguiram no esporte profissional, mas se tornaram excelentes profissionais em outras áreas, como educação física, direito, medicina e tantas outras. E isso também tem um valor enorme”, aponta.
No cotidiano, o discurso ganha forma prática. “Eu sempre digo que vencer é muito bom, mas é muito mais saboroso ganhar respeitando as regras do jogo. Não é preciso infringir as regras para ser campeão”, reflete. Em meio à pressão por resultados, ele mantém a convicção. “Infelizmente, hoje se vê muita gente querendo vencer a qualquer custo, passando por cima de tudo e de todos. Isso não faz parte daquilo em que eu acredito”, pondera.
“Respeito, disciplina, cooperação, solidariedade, trabalho em equipe, superação, ética, fair play e resiliência” são os valores pautados por ele. E, conforme afirma, não ficam só na teoria: “É ensinar o respeito às regras, ao adversário, à arbitragem. É mostrar que se pode aprender muito com a derrota e que, muitas vezes, se perde mais do que se ganha”.

Visão do futsal
Para Ivan Gal, o futsal continua sendo o melhor ponto de partida na formação esportiva. “O espaço é menor, a criança toca mais na bola, o goleiro participa mais, há mais ações de jogo, mais gols, mais tomadas de decisão.” Mesmo assim, ele observa mudanças no comportamento das famílias. “Hoje está muito mais difícil, porque muitos pais querem colocar a criança diretamente no futebol de campo, com sete, oito, nove anos, sem respeitar um processo de formação”, pondera.
Enquanto o interesse cresce, os espaços diminuem. “Vários lugares deixaram de ter a mesma presença do futsal. Algumas quadras fecharam, outras se transformaram, e as opções diminuíram muito”, observa. O ginásio municipal, inclusive, surge como principal referência atual: “Hoje ele é o grande palco do futsal em Juiz de Fora. É um espaço fundamental para as competições oficiais e para o fortalecimento da modalidade”.
Conforme acredita, a ausência de uma equipe de alto nível na cidade é sentida. “Participar de uma liga nacional ou de um Campeonato Brasileiro de Futsal significa aquecer rede hoteleira, restaurantes, serviços e toda a cidade em torno de uma competição de nível”, exemplifica. Mas o cenário ainda exige ajuda. “Sem apoio público e empresarial, é muito complicado manter uma equipe profissional competitiva”, observa.
Ao olhar para frente, a mensagem segue clara. “As pessoas precisam continuar acreditando no esporte, principalmente no futsal, como uma ferramenta poderosa de formação esportiva e humana”, frisa. Porque, no fim das contas, o resultado mais importante não está no placar. “Mesmo quando o menino não se torna atleta profissional, ele pode se tornar um grande cidadão, um grande profissional em outra área. E isso, para mim, já faz todo o processo valer a pena”, finaliza.
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