28 anos formando corredores: conheça Zirlene dos Santos, ícone da Zona Norte

Professora de Aline Barbosa e Amanda Oliveira, nomes de destaque na corrida de rua, irá se aposentar; Zirlene também já foi campeã da Corrida da Fogueira


Por Davi Sampaio

25/01/2026 às 07h00

Zirlene dos Santos, de 58 anos, moradora do Bairro Igrejinha, Zona Norte de Juiz de Fora, é um nome bastante conhecido na cidade, especialmente entre os corredores e educadores. Sua trajetória de vida se entrelaça com a corrida de rua, um esporte que a apaixonou desde a adolescência e que, com o tempo, se tornou não só uma forma de cuidar da saúde, mas um meio de educar e transformar a realidade de muitos jovens – incluindo a de Amanda Oliveira, atual campeã da Volta da Pampulha, e Aline Barbosa, tetracampeã do Ranking de Corridas de Rua de Juiz de Fora.

Em 2026, após 28 anos lecionando, Zirlene irá se aposentar. A professora é a quarta personagem da série “Fala, Mestre”. Nela, a reportagem conta histórias de professores dos mais diversos esportes na cidade. A intenção é valorizar a trajetória, relembrar personalidades marcantes e reforçar o poder da atividade física na transformação social, no lazer e na saúde, sobretudo sob o acompanhamento de profissionais da área. Até o momento, foram publicadas matérias com Gerson Willian, do futsal; Altina Carla, do muay-thai, e Giselle Muniz, da natação.

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Zirlene, à direita, ministra aulas de corrida há 28 anos na Zona Norte (Foto: Felipe Couri)

Da vitória na Corrida da Fogueira às aulas na escola

Natural de Divinópolis, Zirlene sempre foi uma mulher de desafios. “Comecei a correr com 15 anos, em um momento em que quase não havia mulheres praticando a corrida. Era algo bem novo, e quando eu viajava para as provas, era impressionante como éramos poucas. Mas, de alguma forma, isso só aumentou minha vontade de continuar. No começo, era tudo muito amador, mas logo percebi que podia me dedicar mais a isso”.

A corrida foi uma paixão, mas também um passo importante para a escolha da sua profissão. Ao terminar o ensino médio, Zirlene decidiu que iria prestar vestibular para Educação Física, uma decisão que ela atribui diretamente à sua vivência no esporte. “Quando terminei o ensino médio, a corrida já fazia parte da minha vida. Tinha se tornado uma paixão tão forte que, ao ingressar na faculdade, já sabia que a minha vida ia seguir por esse caminho”, conta Zirlene.

Foi em Viçosa, onde estudou na Universidade Federal de Viçosa (UFV), que ela soube da fama das corridas de rua em Juiz de Fora. “Eu já conhecia algumas provas aqui, e quando soube que ia ter a Corrida da Fogueira, decidi participar. Fui para a cidade, disputei a prova e, para minha surpresa, fui a vencedora. Lembro que foi uma sensação muito boa, porque aquela vitória abriu portas para mim. No ano seguinte, fiz o concurso para a Prefeitura e, após passar, decidi me mudar para Juiz de Fora em 1998”.

Foi na cidade, ainda no final da década de 1990, que Zirlene deu início à sua carreira como professora. Ela começou a trabalhar na Escola Municipal Carlos Augusto de Assis, no Bairro Barreira do Triunfo, um local que, para ela, foi mais que uma escolha profissional: “Quando escolhi essa vaga, eu não conhecia muito Juiz de Fora, mas percebi que ali tinha estabilidade. Não queria ser contratada temporariamente. Queria algo sólido. E foi o que encontrei na escola. Não imaginava que, com o tempo, criaria tantas histórias ali”, relembra.

Em sua chegada à escola, Zirlene logo notou a falta de opções esportivas para as crianças da região. Isso a motivou a criar um projeto de atletismo, focado em levar as crianças a participar das corridas de rua e a conhecer o mundo do esporte. “Eu não queria que elas se envolvessem apenas em competições, mas que conhecessem outros lugares, outras pessoas e pudessem desenvolver o respeito mútuo. O mais importante sempre foi que elas aprendessem a valorizar o trabalho em equipe, o esforço pessoal e a disciplina, independentemente de onde elas estivessem correndo”, afirma a professora, que completa 28 anos lecionando no mesmo colégio, na Zona Norte.

“Eu me lembro do Elton, que ainda muito jovem, com 14 anos, bateu o recorde mineiro. Ele tinha um talento enorme, mas infelizmente abandonou o atletismo depois de um tempo. No feminino, a Aline Barbosa sempre foi a nossa estrela. Ela e o Elton eram os principais nomes da nossa equipe”, lembra Zirlene, que também foi treinadora de Amanda Oliveira, campeã da Volta da Pampulha e uma das melhores corredoras do Brasil.

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Zirlene foi professora de Aline no colégio e hoje são amigas (Foto: Felipe Couri)

‘Zirlene é mais que uma treinadora, é uma referência’

Presente no dia da gravação da entrevista, Aline Barbosa, ex-aluna e atleta treinada por Zirlene, compartilha uma visão muito especial sobre a professora que a inspirou e ajudou a conquistar diversos títulos. “Ela sempre foi muito tranquila e atenciosa, quase uma mãe para a gente. A Zirlene não era só uma treinadora, mas alguém que se importava de verdade com o nosso bem-estar. Nunca visou apenas o resultado, mas a formação como pessoa. E isso é o que torna ela tão especial”, sorri.

Aline também é grata por tudo o que aprendeu com Zirlene, que foi sua treinadora por anos e, além disso, sua professora no Granbery. “Eu sou um reflexo do trabalho dela. Fui campeã do ranking, corri maratonas, mas não seria nada disso sem o apoio e a dedicação dela. É uma pena que vá se aposentar, mas ao mesmo tempo, fico feliz por ela ter dado tantas oportunidades a tantas pessoas. Eu sou um exemplo disso”.

A professora, por sua vez, comemora a amizade desenvolvida ao longo dos anos. “Eu vi a Aline crescer no esporte, mas o mais legal é ver que ela, com toda a sua energia e vontade de vencer, também se tornou uma pessoa muito boa. Não é só a atleta que me faz me sentir orgulhosa, mas o ser humano que ela se tornou. E sei que ela vai continuar brilhando, porque ela tem muita garra e dedicação”, exalta.

‘Valeu a pena cada momento’

Comprovada pela relação com Aline, a corrida sempre foi mais que um esporte para Zirlene. Foi uma forma de fazer amigos, mudar a própria vida e, principalmente, transformar a vida de muitos. “Eu vejo a corrida como um caminho. Ela me deu tudo que tenho hoje: meu trabalho, minha estabilidade financeira, meus amigos e minha saúde. Ela fez com que eu chegasse até aqui e agora, ao me aposentar, eu vejo que valeu a pena cada momento dedicado ao esporte”, diz emocionada.

Zirlene encerra sua carreira de professora este ano, mas ainda continuará treinando seus atletas, como Aline Barbosa, com quem compartilhou um longo percurso no atletismo. Ao olhar para trás, ela vê que, por meio do esporte, conseguiu transformar vidas e ajudar pessoas a se encontrarem, assim como ela se encontrou no começo de sua história. “Se eu tivesse que escolher novamente, faria tudo igual. A corrida me deu muito mais do que eu poderia imaginar. Se eu pudesse dar um conselho a qualquer pessoa, seria: comece, dê o primeiro passo, porque os benefícios são incontáveis”.

 

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