Na base da força de vontade

Sérgio e José Ricardo exibem camisa de Fab Melo
Cada vez que pensamos em esportistas juiz-foranos que se formaram na cidade, para ganhar o mundo representando o Brasil, diversos nomes, como Rose Tristão, José Eduardo Bara, Márcia Fu, Giovane Gávio e André Nascimento, todos do vôlei, surgem. Mais recentemente, Juiz de Fora ganhou novos exemplos de atletas com sua evolução feita no município e que conquistam as principais seleções para representar o país, como Thiagus Petrus, no handebol; Larissa Martins, na natação; Roberta Stopa, no mountain bike; além de Nayara Araújo e Fabrício "Fab" Melo, ambos do basquete. Mas em quais condições esses competidores de elite, separados por anos, décadas de diferenças, foram formados?
Procurando as características básicas para se ter um ambiente propício ao surgimento de um atleta de nível mundial em Juiz de Fora, pode-se identificar facilmente dois complementos importantes ao talento para a prática esportiva: sacrifício pessoal e orientação de qualidade. Muito mais do que equipamentos e locais de ponta para treinamento, a doação e a dedicação dos atletas e quem os apoia – sejam eles familiares ou profissionais – durante o processo de formação determinaram o nível de sucesso conseguido por essas feras.
Um dos primeiros juiz-foranos a experimentar o gostinho de vestir a camisa da Seleção Brasileira de vôlei, no início da década de 1980, o hoje técnico do Sesi-JF, José Eduardo Bara, é um exemplo de situações ideais aliadas. "Comecei no vôlei com 13 anos, em 1974. Treinava no infantil, depois participava do treino do juvenil, do adulto e ainda ajudava a completar o feminino. Mais tarde, quando já estava na faculdade, não conciliava os horários das aulas com o dos treinos, então treinava sozinho com o técnico (Pedro Edson Bara, primo de José Eduardo), ia para o ginásio bater bola, fazia musculação. Na época, os treinos eram no novíssimo ginásio do Olímpico, com iluminação nova, quadra boa e bolas importadas do Japão, como a Mikasa. Tive uma boa estrutura para minha base", conta o ex-jogador que deixou Juiz de Fora em 1981, aos 20 anos, para se transferir para o Minas Tênis Clube e, entre outras competições, disputar mais tarde o Mundial de Vôlei de 1986 pelo Brasil, na França.
30 anos depois
Passados mais de 30 anos, o mesmo ginásio do Olímpico, com as marcas do tempo impressas por todos os lados, é o local onde foram talhados mais três representantes locais nas fileiras de seleções nacionais em dois esportes diferentes. "A história do Fabrício (Melo) e da Nayara (Araújo) é bem parecida. Ambos chegaram aqui no Projeto Basquetebol do Futuro (PBF) como dois pré-adolescentes muito grandes, com potencial para o esporte, mas sem saber utilizá-lo. Temos de destacar o papel dos pais de ambos, que viram na modalidade uma chance para seus filhos. Trabalhamos aqui no Olímpico com o básico, exercícios de coordenação, domínio de bola, posicionamento. Então o talento deles fez a evolução ser rápida. Depois de deixarem Juiz de Fora (ela, há três anos, ele, há cinco), com um volume de jogos maior, deslancharam e chegaram às seleções brasileiras de base", explica Sérgio Rodrigues, que ao lado de José Ricardo Brandão, comanda o PBF há 18 anos e hoje vê Fab Melo chegar à maior liga de basquete do planeta, a NBA, na qual jogará pelo Boston Celtics.
No handebol, o armador central Thiagus Petrus, hoje jogando na Espanha e figura certa nas convocações da Seleção, também deu seus primeiros arremessos no Olímpico. "Ele chegou com 15 anos, em 2004", lembra o técnico Luciano Almeida. "Trabalhamos os fundamentos básicos, sempre com recursos escassos. Depois de uma viagem que fizemos em 2005 para a Argentina, tivemos uma conversa séria, e ele decidiu mergulhar de vez no sonho de ser um atleta de elite. Fomos ao Pinheiros uma primeira vez, ele estava muito cru ainda e voltou. Em 2006, trabalhamos intensivamente e, no fim do ano, ele foi e ficou. Daí, sua carreira decolou de vez."
Luciano, que trabalhou com as categorias de base do handebol no Olímpico entre 2003 e 2006 e hoje se dedica a formar novos atletas nas vizinhas Coronel Pacheco e Goianá, costuma dizer que o treino é igual para todo mundo, a dedicação e a aplicação de cada um é que fazem a diferença. "Aliados ao talento e à condição física ideal, estes elementos levaram o Thiagus a voar alto", considera.
Dificuldades superadas pela paixão
Há quem, para obter seus resultados futuros na modalidade, tenha contado em seu desenvolvimento com a natureza da região e disposição dos aficionados locais pelo esporte que pratica, mesmo quando o dinheiro não era suficiente. É o caso de Roberta Stopa. "Posso dizer que o que me fez uma atleta de elite foi a vontade de andar de bicicleta – pegava bike emprestada para andar no meu bairro -, aliada à topografia privilegiada do entorno de Juiz de Fora e às companhias para treinos, que nunca faltaram. Essa foi minha estrutura, mesmo que ainda hoje não haja muito apoio na forma de investimento."
Até mesmo um dos ícones do esporte local, Giovane Gávio, um dia conviveu com apertos para fazer seus treinos durante a formação. Mas o sacrifício e a dedicação compensaram mais à frente, na forma de medalhas olímpicas, como lembra o treinador Aristides Junqueira, o Tidinho, que descobriu o talento de Gávio ainda nos tempos de Colégio dos Jesuítas. "Depois da fase escolar, quando o Giovane se destacou, o Flávio Vilella (treinador) nos chamou, ele para jogar e eu para treinar, no Bom Pastor. Treinávamos todos os dias, até em uma quadra de saibro que tinha no fundo do clube. Apesar de termos à disposição uma boa estrutura, por vezes tínhamos que comprar bolas e completar a grana que faltava com rifas, mas nada que limitasse a evolução do Giovane."
Mesmo um pouco mais à frente no tempo, quando um novo jogador que sairia de Juiz de Fora para colocar uma medalha olímpica no peito estava se formando, as dificuldades surgiam. Para o técnico Flávio Vilella, que trabalhou a base do campeão olímpico André Nascimento, hoje as coisas poderiam ser até mais fáceis. "O que acontece é que não há mais interesse dos clubes da cidade em realizar um trabalho de qualidade na base, a começar pelos profissionais. Na época do André, tínhamos mais dificuldade, com menos dinheiro. Com o básico, fazíamos mais como na formação dele, por conta da qualidade dos profissionais envolvidos nessa formação."
Projetos estruturados coletivos e individuais
Quando o talento encontra condições propícias para se desenvolver, um fenômeno coletivo pode acontecer. Foi assim com o time de vôlei da parceria entre a Coca-Cola e o Sport Club Juiz de Fora na década de 1980. De uma só vez, o projeto planejado para formar atletas para a equipe local revelou a base da Seleção Brasileira. "Quando o time começou, a primeira coisa que o Guilherme Sarmento (empresário e idealizador do projeto) fez foi me mandar para um curso internacional", conta o treinador André Muzzi. "Tínhamos toda a estrutura de trabalho ideal e material humano, com profissionais qualificados e mais de 500 meninas nas escolinha do clube. Delas surgiu a Fuzinha (Márcia Fu), que com 14 anos já integrava o time adulto em 1984, ao lado de destaques como a Gisele Gávio e a Rose Tristão, primeira juiz-forana a ser convocada para a Seleção. O time era um sucesso e virou espelho para as mais novas que se formaram sob nossa tutela. Mais tarde, em 1986, Filó, Ana Paula Lima, Rosilene Silva, Gisele Barbosa, além da Márcia Fu, formaram a base do Brasil campeão sul-americano pela primeira vez." O Sport/Coca-Cola durou de 1982 a 1985.
Márcia Fu acredita que o apoio estrutural e a orientação competente fizeram a diferença. "As instalações do Sport proporcionavam todo a estrutura necessária para nossa formação. Além disso, o Muzzi foi um técnico fantástico, um dos melhores, se não o melhor treinador que já tive. Carrego lições aprendidas naquela época até hoje em minha vida."
Nos esportes individuais, muitas vezes não é só na hora de competir que o atleta está sozinho. Para evoluir e conseguir dar resultados ainda trabalhando sua formação na época juiz-forana, a nadadora Larissa Martins, que brilhou na última semana na disputa do Troféu José Finkel, tinha que envolver toda sua família e mobilizar uma grande estrutura. "Quando estava em Juiz de Fora, tinha que correr atrás de fisioterapeuta, trabalho fora da água, além de conciliar estudo e outros aspectos", lembra.
O técnico Gérson Oliveira, que trabalhou diretamente com a juiz-forana dos 9 aos 17 anos, acredita que tudo o que vem acontecendo na carreira de Larissa se deve ao sacrifício dela e da sua família. "Na parte de piscina, estávamos bem servidos com nossos treinos no Bom Pastor. Mas para evoluir ao nível que ela chegou, a parte fora d’água era importantíssima", acredita o treinador. "O aumento na frequência de treinos e os complementos com musculação e fisioterapeuta consumiam tempo demais. Chegamos a medir, eram cerca de quatro horas, quatro horas e meia só de deslocamento. Quando essa situação ficou impossível de conciliar, ela deixou a cidade e foi para um lugar no qual há tudo isso e muito mais concentrado em um único clube, o Pinheiros, de São Paulo."









