Biógrafo de Heleno de Freitas fala à Tribuna

Marcos Eduardo estará hoje, às 19h, na Planet Music, para uma noite de autógrafos
Nunca houve um homem como Heleno de Freitas. Mas existiu, sim, um capaz de resgatar a trajetória do polêmico craque brasileiro dos escombros de uma instituição psiquiátrica em Barbacena, onde, enlouquecido em consequência da sífilis que corroeu seu sistema nervoso, o jogador deu adeus à vida de glamour e glórias. Graças ao escritor Marcos Eduardo Neves, autor de "Nunca houve um homem como Heleno", o eterno atacante de Botafogo, Seleção Brasileira, Fluminense e Vasco voltou à cena. Conquistou o interesse das gerações mais novas. Virou filme. Ganhou as telas na atuação de Rodrigo Santoro. Marcos Eduardo estará hoje, às 19h, na Planet Music, para uma noite de autógrafos da biografia que já vendeu cerca de 16 mil cópias, em três edições lançadas desde 2006.
Em entrevista à Tribuna, o autor fala sobre como foi o resgate da memória do craque, a relação do jogador com a Zona da Mata, o sucesso de seu livro, e se os esportistas do momento dariam ou não uma boa história.
– Tribuna – Como se sente como um dos responsáveis pelo resgate da memória de Heleno de Freitas para as gerações mais novas?
– Marco Eduardo Neves – O livro cumpriu bem seu papel, que foi o de resgatar a sedutora e fascinante personalidade de Heleno, um dos grandes jogadores e personagens de seu tempo. Aliás, serviu também para mostrar a "belle époque" do Rio de Janeiro quando capital da República, palco de grandes hotéis, boates e cassinos. Fico satisfeito com a repercussão alcançada.
– Certamente, você não teve a oportunidade de ver Heleno desfilando seu talento nos gramados. Como teve acesso a essa história e por que recontar a vida do jogador?
– Era uma grande história perdida no tempo e que pedia para ser contada. De tão interessante, certamente, atrairia grande público. Tive acesso a ela entrevistando mais de cem pessoas, entre familiares, amigos, fãs e contemporâneos de Heleno, além de pesquisas em livros, revistas e jornais de época, e o prontuário com seus dramáticos últimos anos na clínica psiquiátrica.
– É comum vermos vários adjetivos ligados ao nome de Heleno. Boêmio, perfeccionista, impulsivo, gênio, louco, são apenas alguns deles. Qual a melhor palavra para defini-lo?
– Apaixonado. Heleno seduziu mulheres e ganhou a admiração dos homens por ser um apaixonado. Por si próprio, pelo Botafogo, pela vida. Viveu intensamente e padeceu também por conta de seus excessos.
– Heleno nasceu e morreu na Zona da Mata mineira, como definir sua relação com a região?
– Coisa de destino. Ele nasceu e cresceu em São João Nepomuceno, depois definhou e morreu em Barbacena. No meio disso tudo, destruiu corações e arrebatou fãs mundo afora. Seja no Rio, em Buenos Aires, onde quer que fosse. Devia estar escrito nas estrelas, ou na estrela solitária de seu destino, que ele só ganharia o reconhecimento internacional se fosse fazer carreira fora. Mas, tipo "do pó vieste, ao pó voltarás", retornaria à região natal para viver seus últimos dias.
– O filme "Heleno", também ajudou na difusão da memória do atacante. Qual sua relação com a produção? A obra é fiel ao livro e à trajetória do craque?
– Fui consultor, emprestei algumas cenas de "Nunca houve um homem como Heleno" ao longa e escrevi as matérias jornalísticas que surgem na tela. Mas o filme não é nem poderia ser fiel ao livro. O livro é uma biografia. O filme, um recorte temático, que optou por mostrar um enfermo tendo lapsos de memória de seu apogeu.
– Você também escreveu uma biografia sobre a trajetória de Renato Gaúcho, outro jogador considerado polêmico. Existe um padrão ou foi uma mera coincidência? A vida do "Rei do Rio" daria um bom filme?
– Daria sim. Porém, bem menos dramático. Renato também foi popular, boêmio, temperamental, mulherengo e craque. Por sinal, acho que só os polêmicos dão bons livros. Personagem certinho demais, tipo Kaká ou Zico, são excelentes para ver em campo, mas dão sono na literatura. Já um Renato, ou um Heleno, é uma porrada por parágrafo. A cada capítulo o leitor não acredita no que lê.
– Nunca houve um homem como Heleno. Mas existe algum outro jogador que você gostaria de escrever sobre sua vida e carreira? E. no futebol atual, quem daqui a alguns anos – ou décadas – tem potencial para ser um bom personagem para uma biografia?
– O Edmundo daria uma grande biografia. Desde que concordasse em não escrevê-la de forma "chapa branca". No futebol atual, talvez o Neymar, mas temos que dar tempo ao tempo. Acho que o Adriano daria um bom caso para análise de um psicológico. Mas um livro seria um tanto quanto depressivo. Não vejo ele tão épico assim.









