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‘Quem luta não briga’

O cinturão de campeões de muay thai que Paulo, 19 anos, e Gabriel, 17, exibem com orgulho, significam muito mais que um título. Moradores dos bairros Vila Esperança II e São Judas Tadeu, locais conhecidos pelo alto índice de criminalidade, os dois encontraram nas artes marciais a chance de ter um futuro diferente de muitos […]

Por MICHELE MEIRELES

22/11/2015 às 07h00

Paulo Senju no “Galpão de Luta”, na Play Tech Gym (Foto: Leonardo Costa/20-11-15)

O cinturão de campeões de muay thai que Paulo, 19 anos, e Gabriel, 17, exibem com orgulho, significam muito mais que um título. Moradores dos bairros Vila Esperança II e São Judas Tadeu, locais conhecidos pelo alto índice de criminalidade, os dois encontraram nas artes marciais a chance de ter um futuro diferente de muitos colegas que viram crescer e se perder no crime. Os dois e mais dezenas de jovens foram iscados para o esporte exatamente por residirem nestas áreas de vulnerabilidade social. Eles são integrantes de uma iniciativa desenvolvida por dois policiais militares da Patrulha Escolar da Zona Norte de Juiz de Fora, que enxergaram na rotina policial uma forma de mudar a vida destes garotos, descobrindo e formando campeões das artes marciais.

“Eu e o cabo Aquino já trabalhamos faz muito tempo com a Patrulha Escolar, e observamos que havia a necessidade de alguma coisa que preenchesse a vida dos jovens, para evitar que eles continuassem caindo no mundo do crime”, diz o cabo da PM Luiz Filho, ou Mestre Bento, como é conhecido nos tatames. “Sou faixa preta de muay thai e kickboxing, o Aquino de krav magá e muay thai, então surgiu o projeto ‘Galpão de Luta’.” Segundo Luiz, o projeto teve início há cerca de um ano e meio, em um galpão no Bairro Nova Benfica. Agora, as aulas acontecem na academia Play Tech Gym, em Benfica, que cedeu o espaço para o treinamento dos atletas.

Atualmente, 12 jovens da região treinam no local. Na rotina de atividades, os professores levam para o tatame situações de violência vivenciadas pelos jovens no seu dia a dia. Muito mais que formar atletas, os cabos se preocupam em lapidar o caráter dos alunos. “Percebemos uma mudança radical no comportamento deles. Primeiro passamos disciplina, que vai trabalhando o caráter. Trato questões de violência que ocorrem muito próximo a eles, muitas vezes com amigos, assassinatos, prisões. Isso mexe muito com eles, mas ajuda a firmá-los no caminho certo. Um garoto, assassinado recentemente, começou no projeto, mas desistiu pouco tempo depois”, lamenta o mestre.

Sem treta

No grupo há jovens de bairros considerados rivais, onde há gangues que disputam território. É o caso de Vinícius Luiz da Silva, 18 anos, morador da Vila Esperança I, e Douglas Rodrigues, 23, da Vila Esperança II. Vinicius foi vice-campeão brasileiro de muay thai, e Luan foi campeão mineiro no ano passado. Eles contam que já viram muitos perderam a vida por conta de uma rivalidade sem sentido. “Pra mim nunca existiu isso. Fora e dentro do tatame, somos amigos acima de tudo. Aqui reforçamos ainda mais”, garante Douglas. “Sei das dificuldades (dos garotos), e vê-los superando é muito especial. Somos mentores que ajudam estes garotos a ficar no caminho do bem”, teoriza o outro professor, Maikon Aquino.

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Vitórias em Além Paraíba

No último fim de semana, a dedicação de alunos e professores rendeu frutos. Cinco atletas do Galpão da Luta foram a Além Paraíba disputar o Campeonato Brasileiro Seishinkaikan de Muay Thai. Sem muito apoio, os atletas ratearam o valor do aluguel de uma van e partiram. Eles voltaram para Juiz de Fora com dois cinturões de campeões, de Paulo e Gabriel, com o vice-campeonato de Vinícius e o terceiro lugar de Isaac Samuel.

Um dos campeões, Paulo “Senju”, como gosta de ser chamado, foi abordado por Luiz Filho na porta de sua casa. O policial patrulhava a região quando chamou o jovem para o projeto. Ele divide a rotina de treinos com o trabalho em uma obra no Centro. “Parece mentira, mas desde meus 2 anos já dava uns chutes, sempre fui apaixonado por artes marciais. Conheci o mestre em um campeonato que teve em Benfica, fiquei muito interessado, mas nunca o procurava. Um dia estava sentado na porta na minha casa e ele me chamou para começar. De lá pra cá, comecei os treinamentos firmes e espero conseguir muito mais vitórias”, vislumbra Senju.

Por sua vez, Gabriel começou os treinamentos faz quatro meses e já é vitorioso. “Somos uma verdadeira família aqui. É uma alegria muito grande ter conseguido o cinturão. Com ele, novas portas estão se abrindo. Agora é treinar e manter foco para trazer mais títulos para cidade e para minha academia”, comemora o estudante. No dia 20 de dezembro, o evento “Quem luta não briga” reunirá na Praça CEU, em Benfica, atletas amadores de toda a região.

Realização

Se os olhos dos alunos brilham ao falar do esporte que abraçaram, a realização e orgulho dos professores não cabe no peito. “Quando chegamos a Além Paraíba, ninguém acreditava muito em nós. No final, todos estavam nos cercando, querendo saber quem éramos. A palavra para resumir é realização. Como policial, é a certeza de que não vou encontrá-los em situações ruins. Como mestre, peguei pedras brutas, lapidei e as transformei em campeões”, finaliza o Mestre Bento.

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