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Na orelha da bola: uma noite silenciosa


Por Wendell Guiducci

21/06/2012 às 07h00

A coisa estava meio morna por volta das nove da noite. Como o corintiano que trabalha aqui em cima já tinha ido para a concentração e o corintiano que trabalha ali embaixo também já tinha feito o caminho da roça e nenhum santista dá o ar da graça por estas bandas, não tinha piadinha, não tinha provocação, não tinha nada. Nas horas mortas, aqui não sobra cruzeirense, tricolor, botafoguense, nada. Vasculhei o Facebook atrás de algum burburinho e, depois de rolar, rolar e rolar para baixo, nada. Meus amigos só postam trechos de shows do YouTube, propaganda de shows no Muzik e fotos de viagens que fizeram, seja pra Londres ou pra Ubá (que pra eles entra na categoria "viagem").

Vi o post de uma prima paulistana, corintiana, e mandei um "E hoje, bonitona? Vai dar pro Curíntia?". Pro Curíntia ganhar, claro. E ela "Certezaaaa!!! O que vc acha????." E eu, do alto do meu conhecimento futebolístico, editor de esporte e cronista deste tradicional periódico, disparei: "Acho que o Neymar vai entrar de férias pra descansar o penteado". E paramos por aí. Então eu ligo para casa pra ver se consigo falar com minha mãe, mas ela está fora e não é pelo jogo do seu Timão. Mas meu pai avisa que dois primos botafoguenses foram encontrar o pai corintiano no boteco da pracinha. "Então tá, pai, semana que vem a gente se vê."

Frustrado com a família, com a redação e com o Facebook, apelei para o Twitter. Rolei a barra até o microblog pedir arrego e, tirando o Xico Sá, NADA! Meu deus do céu, nem parecia que tinha uma decisão do quilate de uma semifinal de Libertadores a poucos minutos de distância. De birra, fechei Face e Twitter, porque quando o jogo começa não vale, todo mundo desanda a comentar sobre o que está rolando na TV, principalmente os não iniciados. Então deixei o celular aqui, bem na minha frente, esperando que as costumeiras mensagens em noite de futebol começassem a pipocar. Tenho amigos muito covardes que, mesmo quando seus times não estão jogando, gostam de ficar tripudiando sobre a desgraça alheia. Nego gosta é do malfeito. Mas nem um "plim-plim" sequer no pequeno Nokia.

E o jogo transcorreu como foi, na redação erma e no silêncio de não ter com quem resenhar. Pelo menos, ao final, a prima não me faltou: "E aí Neymar, cadê você?????". No campo pouco vi, prima. Mas é certo que se passasse por aqui depois do jogo também não teria muito o que conversar.