Salto para o futuro
A recente participação brasileira na Olimpíadas de Londres fez surgir questões sobra a maneira como o país lida com a formação de seus atletas. Críticas ao desempenho de competidores dos quais se esperava muito nos Jogos de 2012 não faltaram. Mas, no Brasil, como e em que condições o desportista começa a ser formado? Por quais etapas de amadurecimento ele deve passar para chega a representar sua nação no maior evento esportivo do planeta? São algumas questões que a Tribuna abordará em uma série de reportagens que começam a ser publicadas hoje, sempre aos domingos.
É unânime a posição dos especialistas que militam nas categorias de base de Juiz de Fora: quanto mais crianças tiverem contato com diferentes esportes, mais talentos serão descobertos. Assim, os projetos voltados para a formação de competidores de alto nível devem se preocupar, primeiro, com o mais básico: apresentar o esporte às crianças.
Segundo o coordenador e técnico do projeto de vôlei da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), Maurício Bara, os núcleos do programa – um no bairro Bandeirantes e outro na Zona Norte – têm exatamente o intuito de difundir a prática da modalidade entre o mais novos. "Hoje temos cerca de 80 garotos e garotas de 11 a 13 anos participando desses núcleos. O objetivo é oportunizar o contato com o esporte. Não há como descobrir se existe talento para a prática de uma atividade esportiva sem apresentá-la ao maior número possível de crianças. Esse é o primeiro passo para a construção de um atleta", explica.
O atletismo é o foco principal do projeto Minas Olímpica, uma parceria entre o Governo do Estado, a Prefeitura de Juiz de Fora e a UFJF – cuja pista de última geração é local de treinos dos aspirantes a atletas. Desenvolvida no formato atual desde outubro do ano passado, a iniciativa é semelhante a um outro programa de atletismo que tinha a Caixa Econômica Federal como entidade mantenedora, permaneceu ativo durante cinco anos e hoje está suspenso. Atualmente, cerca de 80 crianças e adolescentes entre 7 e 17 anos conhecem os caminhos das inúmeras modalidades de pista, saltos e lançamentos. "Os alunos passam por todas as modalidades quando começam conosco. Claro, são identificadas aptidões, mas os treinos globais acontecem durante dois a três anos. Só aí o aluno se especializa em um tipo de corrida, lançamento ou outra coisa. Quanto mais vivência motora e consciência corporal o jovem atleta adquirir, melhor para seu futuro no esporte", explica o técnico Gilberto Júnior.
No Sesi, um projeto criado nacionalmente em meados da década de 1990 e que ganhou seus moldes atuais no início dos anos 2000, o Atletas do Futuro, busca a formação de base de atletas de vôlei e natação – em Juiz de Fora ainda há um núcleo de futsal. De acordo com o técnico das equipes de vôlei, José Eduardo Bara, o caráter amplo do programa ajuda no garimpo de talentos. "Aqui, quem quiser vem e treina. É bem democrático. Então, essas meninas e garotos, entre 8 e 17 anos, vamos filtrando, vendo quem tem mais aptidão e selecionando para formarmos as equipes que vão para as competições."
Interesse deve ser despertado na escola
Em algumas modalidades, dificuldades estruturais limitam o contato de potenciais atletas com o esporte. A natação é um exemplo. "Nem todos os possíveis nadadores têm acesso a uma piscina em Juiz de Fora. Outro aspecto limitador é o financeiro, porque um conjunto de sunga, touca e óculos satisfatórios não sai por menos de R$ 50. Há iniciativas públicas, como o Projeto Nadar, da Prefeitura, mas dá para melhorar esse aspecto", acredita o técnico de natação do Sesi, Luiz Francisco Marques, que hoje comanda uma equipe de 50 atletas entre 9 e 18 anos.
Para o coordenador do projeto de atletismo da UFJF, Jorge Perrout, a forma através da qual as modalidades são apresentadas às crianças no país ainda é falha. "Projetos como o nosso deveriam ser o segundo passo. O que se deve buscar é oferecer os mais variados esportes dentro das escolas, onde está a maioria das crianças do país. Isso, principalmente na educação pública, não acontece. Pelo contrário, as novas escolas são projetadas sem um espaço minimamente adequado para a prática esportiva. Nós, profissionais da educação física, tivemos e temos que lutar para poder oferecer o básico a esses potenciais atletas. É uma pena", lamenta.
Espelhos
Para motivar o desenvolvimento de um atleta na base, os espelhos são importantes. Nesse aspecto, o projeto de vôlei da UFJF, que além dos núcleos sociais iniciou esse ano uma parceira com o Clube Bom Pastor para a formação de um time sub-17 que conta hoje com 25 jogadores, aproxima dos garotos da base de seu objetivo. "O time profissional é um espelho para quem está começando. O menino que começa lá no núcleo quer chegar ao time de base, cujo objetivo é fomentar o principal. É uma cadeia natural. Obviamente é uma estrada longa e árdua, nem todos chegarão a ser atletas de elite, mas a intenção é que eles tenham pelo menos a oportunidade de sonhar", diz Maurício.
Muitas vezes, os próprios atletas de base são espelhos para os companheiros. "Quando viajamos e voltamos das competições, com medalhas, o interesse geral sempre aumenta. Quem ainda não está na equipe quer ver as conquistas, comenta e se mira no exemplo do colega que competiu. Isso os estimula no trabalho do dia a dia", acredita o técnico de natação do Bom Pastor, Jonas Martins, comandante de 21 nadadores entre 11 e 24 anos no time principal do clube.
Importância dos resultado é relativa
Buscar um potencial atleta requer muito mais do que apenas olhos para os resultados em competições, que devem servir de termômetro nessa fase de ajustes. "Deixamos muito claro em nosso trabalho de base que o resultado não é o foco. O principal é trabalhar os fundamentos do jogo, além de aspectos psicológicos importantes. Não importa se vencermos competições ou não. O intuito de participar delas é dar bagagem aos futuros jogadores", explica Maurício Bara.
Nos esportes individuais, a diferença de ritmos biológicos pode pesar em um resultado, e isso tem de ser levado em conta na hora da avaliação. "Nessa fase de transformações, a maturação física e fisiológica de cada pessoa é diferente. Por isso, o resultado muitas vezes pode ser atribuído a esse aspecto. Não se deve julgar um competidor de base por um insucesso, assim como um sucesso não garante que um atleta será de ponta no futuro", explica Gilberto Júnior. Luiz Francisco Marques concorda. "É um trabalho de longo prazo que cabe ao técnico fazer. Cada atleta tem um ritmo de maturação diferente do outro. É preciso saber trabalhar esses diferentes estágios do desenvolvimento. Isso difere o professor de natação do treinador de natação", acredita Luiz.









