Calçadão é palco do ‘desfile de camisas’ de futebol e símbolo da paixão do torcedor
No coração de Juiz de Fora, que completa 50 anos neste domingo, torcedores transformam local em passarela de cores
Dos milhares de passos que cruzam o Calçadão diariamente, há em vários um traço em comum: as cores do futebol. É quase impossível caminhar pelo coração de Juiz de Fora sem ver alguém vestindo a camisa de um time. Flamengo, Vasco, Fluminense, Botafogo, Cruzeiro, Atlético-MG, São Paulo, Santos, Palmeiras e Corinthians. Por trás do emblema, pessoas que carregam heranças de família, memórias, tradições e paixões que fazem do local mais movimentado do município uma espécie de “desfile de camisas”, no qual, entre vitrines, bancos e lanchonetes, caminham trabalhadores – e torcedores – que mostram que o futebol também tem lugar fundamental no dia a dia.
Neste domingo (16), o Calçadão de Juiz de Fora completa 50 anos, com edição especial da Tribuna sobre esse local. A reportagem compareceu ao ponto central da cidade e observou a predominância de pessoas vestidas com camisas de time do Rio de Janeiro. Do Flamengo, foram mais de 60 observadas, seguidas de Vasco, Fluminense e Botafogo. Também foram avistados, em menor número, camisas dos grandes times de Minas Gerais e São Paulo. Atualmente na Terceira Divisão estadual do Campeonato Mineiro, o Tupi não teve nenhum representante nos dias em que a reportagem esteve no Calçadão.

Do Calçadão ao Maracanã
O flamenguista Arthur César, 18 anos, do Bairro Santa Cândida, é um dos rostos desse desfile. “Toda a minha família é rubro-negra. Sempre fui apaixonado pelo Flamengo, era uma paixão distante, só pela TV. Alguns anos atrás realizei o sonho de conhecer o Maracanã como torcedor. Hoje sou fotógrafo do estádio”, conta.
Arthur, que também costuma passar pelo Calçadão para trabalhar, lembra que o local já foi cenário até de ensaio de noiva. “Ela saiu de um prédio com vestido e tudo, e fizemos as fotos no meio do Calçadão. É um lugar muito bonito, dá para fazer fotos incríveis.”
Orgulhoso, ele admite ter mais de 20 camisas do Flamengo. “Sendo fotógrafo do Maracanã, tenho contato com os jogadores. Consigo conversar, trocar ideia no Instagram. Para quem sempre foi apaixonado, isso é incrível.”
Outros times do Rio e de São Paulo representados
A poucos metros dali, Leonardo dos Santos, de 47 anos, pedreiro, morador do Bairro Nossa Senhora das Graças, mostra que o espaço é território de todos os times. Vascaíno de coração, ele atravessa o Calçadão todos os dias a caminho do trabalho. “Tenho oito camisas do Vasco, então quase todo dia estou com uma delas. Isso é herança do meu pai, e passei para os meus filhos também. É mais do que costume, é amor.”
Ele acredita que o número de camisas de time nas ruas diminuiu, mas o orgulho permanece. “Hoje em dia vejo menos gente passando, acho que já teve mais. Mas o Calçadão é quase um monumento de Juiz de Fora. É um lugar para passear, ir às lanchonetes, virou um ponto da cidade.”

Representando o estado de São Paulo, Leonardo Peixoto Moura, 22 anos, corintiano e vendedor de frutas, coloca as cores do Timão no Centro juiz-forano. “Sou corinthiano desde ‘molecote’, desde que me entendo por gente. Veio de família. Tenho mais camisa do Corinthians do que roupa normal.”
Ele mora no Linhares, mas trabalha nas proximidades. “O Calçadão é bom, ultimamente tá meio fraquinho, mas é gostoso trabalhar na rua, ver gente passando. Gosto da vegetação ali perto do Parque Halfeld.” A lembrança mais viva da paixão corintiana, ele guarda de 2012: “A conquista mais marcante foi o Mundial. O bando de loucos invadiu o Japão. Vi o jogo em Franca, minha cidade natal, foi demais.”

A tricolor Luisa Rodrigues, 21 anos, estudante de Medicina, trouxe a paixão do Rio para Juiz de Fora. “Desde pequenininha meu pai me levava pro Maracanã. Depois disso, fui para todos os jogos. Já fui para São Paulo, Belo Horizonte e até para os Estados Unidos, no último Mundial. Virou uma paixão mesmo.”
Ela também passa com frequência pelo Calçadão. “Acho que é o ponto de encontro de todo mundo, de todas as idades e classes sociais. É o coração da cidade, parabenizo pelos 50 anos.” Luisa defende também o espaço do futebol feminino. “Na minha ex-escola, lutamos para que parassem as aulas também na Copa feminina, não só na masculina. As pessoas sempre incentivam os filhos a ver o futebol masculino, mas o feminino também é bom e importante.”

O são-paulino Júlio César Alfredo, do Bairro Jardim Glória, acrescenta história à coleção de camisas que circula pelo Centro. “Comecei a torcer para o São Paulo por causa da Era Telê, em 1993. Para ele, o Calçadão é parte da identidade juiz-forana. “Este local tem muitos acontecimentos. Quando vejo alguém com a camisa do São Paulo, sempre tem uma brincadeira, porque é difícil encontrar alguém com ela aqui em Juiz de Fora.”
“Fechamos a rua”
Entre tantos escudos, o botafoguense Jimmy Rodrigues, 35 anos, do Bairro Monte Castelo, é mais um que ajuda a colorir o cenário. “Comecei a torcer em 1995, quando vi meu pai eufórico com o título brasileiro. Desde então é um amor que carrego no peito. Cada jogo é uma emoção enorme.” Com dois filhos pequenos, ele mantém viva a tradição. “Lá na minha rua, de umas 25 casas, 20 são de famílias botafoguenses. Ano passado, na Libertadores, fechamos a rua e fizemos uma festa.”
Jimmy costuma vir sempre com a camisa do time. “A gente gosta de provocar um pouco. Ganhei essa camisa de presente e é algo que não consigo parar de usar. Quando encontro outro botafoguense, a gente se cumprimenta, mesmo sem se conhecer. O que vale é a intenção: ‘Saudações alvinegras, olha o Fogão aí!’

O Calçadão, ele diz, é mais do que passagem: é parte da vida da cidade. “No fim do ano, fica ainda mais bonito. Costumo vir com a família aos domingos à noite, passear, ir ao Parque Halfeld e deixar as crianças brincarem. E são muitas histórias das lojas que já existiram, que fecharam e voltaram.” E, enquanto mais um torcedor passa vestindo o preto e branco, Jimmy sorri e comenta, apontando para o movimento: “olha outro botafoguense ali”.









