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Nada no balaio


Por Ricardo Miranda

09/06/2012 às 07h00

Minas é outra história

Mesmo não tendo passado pela capela de Nossa Senhora da Boa Viagem, como fazem os visitantes ao chegarem a Belo Horizonte, Ronaldinho agradou os mineiros pela discrição. Chegou pelos fundos e sem falar em dinheiro. Parece ter compreendido a essência da nossa desconfiança. Escalado para falar com os jornalistas, preferiu aguardar pela estreia. Não se sabe se por desconhecimento da Savassi ou por milagre, ainda não foi visto na noite da capital.

Por via das dúvidas, alguém do Atlético deveria ter levado o Ronaldinho para caminhar sobre os tapetes de Corpus Christi espalhados pelas muitas ruas de Minas. Seria um bom rito de iniciação para quem não sabe nada da mineiridade. Andar uns 40 minutos, ora ladeira abaixo, ora ladeira acima, ouvindo apenas o barulho das passadas e o resmungar do terço, substituiria 20 dias de concentração. Seria uma boa dieta para o espírito e também para o corpo.

Em Minas, para ser jogador de futebol de verdade é preciso ter alma. Ninguém entra nos campos mineiros sem o sinal da cruz e não sai sem voltar os olhos para céu. Nenhum craque nascido montanhês deixou de ir ao catecismo para jogar bola, sob pena de ser excomungado e perder o talento. Futebolista mineiro também não falta com respeito. Quando conversa com o pai ou a mãe, ainda que seja em entrevista para TV ou rádio, pede a benção. Se houver confusão, respeita o limite da medalhinha para baixo.

Por fim, Ronaldinho, o mineiro sabe mineirar tudo. Mesmo com pompa e circunstância, se não for para jogar bola, é melhor colocar sua pouca barba e a vasta cabeleira de molho. O que restar na peneira e não se assemelhar a ouro volta para o rio.