Projeto Valentinas reforça papel do vôlei na formação de meninas em São João Nepomuceno

Equipe amadora criada por ex-atletas do CDAT mantém legado do esporte como ferramenta de educação, convivência e transformação social


Por Miguel Baesso*

05/04/2026 às 07h00

“A educação física é muito necessária para o desenvolvimento de crianças e adolescentes. Quando se trabalha com o esporte, você agrega valores aos jovens. As Valentinas são a prova disso. Depois que elas se formaram como pessoas, a necessidade de uma atividade física surgiu naturalmente entre elas”, resume o educador físico e maior inspiração das Valentinas, Mauro Emílio Resende.

Mauro foi treinador do vôlei feminino no Centro Desportivo de Aprendizado e Treinamento (CDAT), quando o grupo de meninas, que mais de 15 anos depois criaria o projeto Valentinas, teve o primeiro contato com o esporte. Para ele, formar pessoas através da prática esportiva possibilita o convívio social, a união e a competição de maneira saudável, como foi o caso do elenco que criou as Valentinas. 

As Valentinas são uma equipe independente de voleibol feminino amador criada em 2022 pelo elenco que fez parte do vôlei do CDAT no início dos anos 2000. A ideia era recriar a equipe que mudou a vida e a relação com o esporte daquelas meninas: “Tudo começou com o Mauro, no CDAT. Nós nos conhecemos todas nessa época. Ele era muito mais que um professor, é a nossa inspiração”, revela a treinadora das Valentinas e ex-atleta profissional de vôlei, Laísa Chequeni.

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Primeiras equipes de vôlei feminino e masculino do CDAT, em 1998 (Foto: Arquivo pessoal)

 

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Último campeonato disputado pelas Valentinas na cidade de Ubá, em 2026 (Foto: Arquivo pessoal)

O time é da cidade de São João Nepomuceno, a 70 quilômetros de Juiz de Fora, que é considerada um importante celeiro para a revelação de talentos no esporte, mas o cenário nem sempre foi esse. Mauro conta que houve um hiato de iniciativas que contemplassem outros esportes para além do futebol. O número de crianças e adolescentes com acesso à prática era menor e, consequentemente, o machismo aumentava o entrave para as meninas no esporte local.

Com essa noção, entre 1998 e 2014, a associação esportiva comandada pelo Mauro ofereceu condições estruturais para que meninas tivessem contato com treinos, competições esportivas e toda a rotina relacionada ao esporte – e mais especificamente o vôlei. Na visão do ex-técnico do CDAT, a modalidade atraiu olhares e se tornou o segundo esporte mais praticado na cidade. 

Para Laísa, o vôlei foge da lógica conservadora de outros esportes como o futebol, em que salários, contratos de publicidade e níveis de audiência do masculino superam consideravelmente a modalidade feminina: “Temos o privilégio de o vôlei ser o esporte feminino mais praticado no Brasil, então, o ingresso das mulheres é muito diferente para outras modalidades. Mas ainda assim vemos poucas mulheres como treinadoras de equipes na Superliga, por exemplo”.

Quando se fala em apresentar soluções para a inserção das mulheres em diferentes espaços da sociedade, Mauro acredita que o esporte empodera e transforma, capacitando as pessoas a superarem situações de dificuldade: “A formação humana somada à prática esportiva dá um poder inimaginável. As Valentinas são a prova. O esporte ensinou elas a respeitarem o próximo e a elas mesmas. Independente de gênero, todos deveriam ter a possibilidade de ter acesso à prática esportiva, desde que a gente desperte em cada uma essa vontade. É aí que entra o educador físico”.

O vôlei como ferramenta de ensino em diferentes gerações

Para a equipe das Valentinas, o vôlei foi uma ferramenta de educação durante a adolescência no CDAT. Agora, a modalidade une diferentes gerações com um mesmo propósito. “Hoje, temos as filhas das nossas atletas treinando com a gente. Esse amor pelo vôlei vai unindo diferentes gerações”, narra Laísa. 

Uma dessas histórias é a da levantadora Melina Knopp, que compartilha não só a paixão pelo vôlei com a filha Stela, de 11 anos, mas também as conquistas de quem venceu um adversário muito maior fora de quadra e com auxílio do esporte:  “O esporte é meu remédio. Tive uma depressão muito forte há cinco anos e um dos meus elos de tratamento era fazer uma atividade física. E aí comecei na corrida, no crossfit e voltei para o vôlei”. Melina conta que estava distante do esporte, mas que atualmente não vive sem – semente que foi plantada anos atrás.

A integrante das Valentinas acredita que o esporte é fundamental para a formação da filha, assim como foi para ela: “O mundo que a gente vive está estranho. Não é todo adolescente que tem a prática de atividades. Por isso, tento mostrar para ela como é importante esse contato para aprender sobre disciplina, sobre persistência”.

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Melina Knopp e a filha Stella (Foto: Arquivo pessoal)

À reportagem, Mauro Emílio define que a equipe feminina de vôlei do CDAT se transformou em uma espécie de família para todos envolvidos. O sentimento do que foi construído há mais de 15 anos ainda está presente e quem também desfruta desse ambiente, segundo Melina, é a Stela: “Como essa família que o Mauro disse, eu fico muito feliz de ver as meninas do time terem paciência de ensinar, sabendo que ela está começando e aprendendo”.

Além dos ensinamentos, Melina também aponta para a importância do esporte na construção de memórias que nunca serão apagadas. Durante a fala, a levantadora revisitou os anos em que esteve no CDAT. Ela lembra com carinho das viagens e momentos de alegria vividos com a irmã, Andreia Knopp, que também é levantadora e atleta das Valentinas, com as amigas do vôlei e com a mãe, que fazia questão de levar o máximo de meninas possíveis no fusca da família para as competições. 

“Vim de uma família que é da prática esportiva. Minha mãe sempre nos incentivou a fazer atividade física e a Stela também é obra disso. Ela faz natação, crossfit, vôlei. E eu falo com ela: ‘ouve e presta atenção’, porque o esporte nos dá muita coisa”, destaca Melina. A levantadora das Valentinas segue Mauro e Laísa ao valorizar o espaço de jovens meninas no esporte, assim como o da filha Stela: “As mulheres vem tomando a frente de tudo, e espero que a gente veja ainda mais meninas se destacando no esporte, nas categorias de base. Isso é algo maravilhoso”.

*Estagiário sob supervisão dos editores Arthur Raposo Gomes e Bruno Kaehler