Valentinas retomam time de vôlei da adolescência e fortalecem legado do esporte em São João Nepomuceno
Grupo voltou a se reunir depois de 15 anos, superou o luto e aposta no companheirismo para seguir em quadra
Amigas de infância se reencontram após mais de 15 anos para reviver um time de vôlei formado ainda na adolescência. “Como?”: Essa é a pergunta que a Tribuna de Minas fez à treinadora das Valentinas, Laísa Chequeni: “A continuidade do projeto passa pelas pessoas envolvidas. Aprendemos a ser companheiras umas das outras e, no fim das contas, a amizade está acima de tudo”, responde. Equipe amadora de voleibol, as Valentinas são de São João Nepomuceno, cidade a 70 quilômetros de Juiz de Fora, considerada um importante celeiro de talentos do esporte. Também por esse motivo, no início dos anos 2000, a primeira formação da equipe foi montada.

“Sempre tive a noção de que o esporte transforma. Não é sobre a medalha, mas sobre as pessoas estarem unidas em um mesmo objetivo. Isso faz com que elas se formem como cidadãos de forma íntegra”, relata o educador físico e idealizador do Centro Desportivo de Aprendizado e Treinamento (CDAT), Mauro Emílio Resende. Declarada uma iniciativa de utilidade pública pela Câmara Municipal de São João Nepomuceno, a associação esportiva encerrou as atividades em 2014, depois de mais de 15 anos de atuação. Durante esse período, Mauro trabalhou em parceria com clubes da cidade, realizou o aluguel de quadras e promoveu aulas e treinos com crianças e adolescentes, aumentando o contato com o esporte.
Além de coordenar, Mauro também foi o treinador da equipe feminina de vôlei do CDAT montada para representar São João Nepomuceno nos Jogos do Interior de Minas (Jimi). Mas o que era apenas uma iniciativa para disputar outras modalidades para além do futebol em campeonatos da região, acabou se tornando a maior influência para o elenco de atletas que, anos depois, criaram as Valentinas.

“Tudo começou com o Mauro, ele é nossa inspiração. Eu mesma comecei no CDAT com 10 anos e todas as meninas começaram mais ou menos com essa idade”, revela Laísa.
Atual treinadora da equipe, Laísa é ex-atleta profissional de vôlei, passando por clubes como o São Bernardo, onde disputou a Superliga A. O despertar para a modalidade não veio somente com o CDAT, mas também pela influência da prima mais velha, Deyse Pimenta, que já integrava o time de vôlei do projeto antes mesmo de Laísa sonhar em viver do esporte. “A gente brincava com bola de vôlei desde quando ela era pequeninha”, conta Deyse.
Deyse é a capitã das Valentinas, mas, segundo Laísa, a função não começou agora: “A gente brinca que ela é a nossa capitã vitalícia”, revela. O motivo para tal definição é que ela já era a capitã da equipe quando o grupo se reuniu no CDAT. Para ela, a motivação das amigas em reviver o time da adolescência depende de duas coisas: a amizade entre elas e a paixão pelo voleibol. “E aí, uma vai passando isso para a outra”, comenta.
No CDAT, as Valentinas se encontraram. A confiança das famílias no trabalho realizado pelo Mauro possibilitou às jovens um convívio íntimo com o esporte e também entre elas. Viagens para a disputa de campeonatos, treinos e encontros eram rotina. Juntas elas cresceram e aprenderam sobre a vida e o vôlei. “A ideia inicial era fazer um time, mas viramos uma família”, completa Mauro Emílio.
Reencontro após quase duas décadas
Mesmo com a paixão, o elenco do vôlei feminino do CDAT naturalmente se desencontrou. As obrigações e responsabilidades falaram mais alto. Com o fim da adolescência, muitas saíram de São João Nepomuceno para fazer faculdade. Outras permaneceram, mas não sobrava tempo para manter o voleibol como parte da rotina. O reencontro veio mais de 15 anos depois do fim daquele time.
“Vamos voltar? Sim, mas como vamos fazer isso?”, foi o primeiro pensamento de Deyse quando as amigas se reuniram para reviver o time da adolescência em 2022. Ela conta que as Valentinas começaram de forma despretensiosa. A ideia era alugar uma quadra e “bater pelada”, mas aos poucos o número de amigas participando aumentou e a vontade de competir também: “Alguém um dia falou: ‘vamos disputar um campeonato?’, e aí fomos”, narra. Juiz de Fora, Ubá, Leopoldina, Coimbra: as viagens com o vôlei voltaram a fazer parte da vida do grupo, e o que antes estava adormecido na memória, agora estava mais vivo do que nunca.

Com a sede de viver novas memórias que começaram ainda no CDAT, as Valentinas se esforçam “da forma que dá” para continuarem ligadas ao vôlei. Até dinheiro do próprio bolso foi colocado. “Fizemos uma ‘caixinha’, e aí todo mês a gente dá uma contribuição para quando tiver campeonato, viagem, gasolina, uniforme, inscrição”, conta Deyse. Segundo Laísa Chequeni, as Valentinas não contam com apoio do Poder Público, o que naturalmente gera custos: “Só que os custos valem muito a pena, porque é algo que todo mundo gosta, que é prazeroso”.
Luto, memória e continuidade

Não tem como falar das Valentinas sem citar dois nomes: “O Mauro, né? Que foi onde a gente criou o interesse pelo vôlei, e o Jhow Jhow”, completa Deyse. Jhonnatas Lima de Oliveira, apelidado como Jhow Jhow, era atleta do vôlei masculino do CDAT na mesma época que o elenco das Valentinas integrou a associação esportiva. Quando soube que o grupo havia recriado o time de vôlei da adolescência, ele se ofereceu para treinar as Valentinas para a disputa de campeonatos. “A gente não tinha um técnico até então. Quando ele contou que queria comandar um projeto de vôlei feminino adulto, aceitamos”, revela Deyse.
As Valentinas ganharam um ar mais sério depois da chegada de Jhow Jhow. As peladas se tornaram treinos, a quadra onde era realizado o projeto mudou e a ideia era ficar ainda mais forte para a disputa de campeonatos. Até van para levar o elenco em viagens pelo interior de Minas Gerais o novo técnico conseguiu. Mas aí aconteceu a fatalidade: “Nós disputamos um campeonato com ele em Ervália. Fomos campeãs e menos de um mês depois aconteceu o acidente de carro”.
No dia 17 de março de 2024, Jhonnatas foi vítima de um acidente de carro. Além de treinador, Jhow Jhow era amigo próximo de várias atletas. Ele também trabalhou em iniciativas voltadas ao esporte para crianças e adolescentes de São João Nepomuceno. “Ele era nosso parceiro, nosso amigo. Muitas meninas falaram que não queriam mais jogar vôlei depois daquilo. Foi um momento muito difícil”, relata Deyse.
A capitã das Valentinas conta que houve uma reunião pouco tempo depois da morte do técnico. Nela, as atletas concluíram que continuar o projeto era a melhor forma de respeitar a memória do Jhow Jhow: “Ficamos perdidas depois disso, mas a vontade dele era ver a gente disputando campeonatos mesmo com todas as dificuldades.”
A morte do Jhow Jhow coincidiu com o retorno da atual treinadora, Laísa Chequeni, para São João Nepomuceno, depois de quase 17 anos fora da cidade. Em meio a incerteza sobre a continuidade do projeto, Laísa surgiu como símbolo de recomeço.
Recomeço e legado das Valentinas
Com carreira no vôlei profissional, Laísa trouxe uma nova experiência às Valentinas. “O vôlei me ensinou muita coisa, mas penso que nem a Superliga supera o que eu estou vivendo com as meninas agora na minha vida”, confessa a treinadora. Para ela, treinar as Valentinas é um desafio prazeroso: “É um desafio montar treinos semanalmente, ver o desenvolvimento delas, como elas reagem a cada treino. Fico mais nervosa competindo com as Valentinas, do que quando entrava em quadra”.
E para o recomeço do projeto foi necessário compromisso. Todas as quartas-feiras, as atletas se reúnem para treinar em uma quadra da Prefeitura no distrito de Roça Grande, fora de São João Nepomuceno. Durante os encontros, Laísa monta treinos táticos, técnicos, rachões e outras dinâmicas para preparar o time dentro de quadra, mas fora de quadra, a equipe aproveita cada segundo para lembrar o motivo pelo qual elas estão ali: a amizade. “Enfrentamos várias dificuldades, como falta de apoio financeiro e tempo, só que a gente está pelo companheirismo”, aponta Laísa.
“A Laísa passa muito isso e o Jhow também passava de que temos que ter leveza. Estamos aqui nos divertindo”, conta Deyse. Ela afirma que sempre tenta reforçar a importância de continuar o projeto e que, desde a morte de Jhow Jhow, cada passo dado é fundamental: “Mesmo que as meninas fiquem desanimadas, eu falo: ‘não, vamos continuar’. Por exemplo, temos duas atletas que não são da época do Mauro e que querem treinar com a gente. Acredito que as Valentinas inspiram os outros.”
Após o recomeço, a esperança em um futuro de legado é alta. Por isso, segundo Laísa e Deyse, as Valentinas estão de portas abertas para quem tem vontade de conhecer ou fazer parte do projeto, mas não esquecendo que o vôlei é um esporte coletivo em que todas estão unidas em um único objetivo. “A expectativa é grande. Fizemos uniforme novo, queremos disputar campeonatos, mas também precisamos que o projeto seja bom para o time inteiro e não só para umas”, destaca Deyse.
*Estagiário sob supervisão dos editores Arthur Raposo Gomes e Bruno Kaehler
Tópicos: mulheres no esporte / São João Nepomuceno / vôlei / vôlei feminino




