Alta de preços após tragédia em Juiz de Fora não deverá ser duradoura, apontam especialistas

Economistas apontam que contenção de perdas econômicas passará por políticas públicas, regulação do mercado e reordenamento urbano


Por Hugo Netto

18/03/2026 às 11h21- Atualizada 18/03/2026 às 11h28

A situação econômica de Juiz de Fora após a tragédia das chuvas pode, em alguma medida, ser associada aos efeitos observados durante a pandemia de 2020, avalia a professora de Economia da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), Flávia Chein. “Na pandemia, a gente observou uma inflação de todos os insumos médicos e coisas básicas, como o preço de uma luva, que chegou a ter um patamar estratosférico”, lembra. “E a gente foi retornando, a coisa acaba se ajustando no médio e no longo prazo”, tranquiliza.

A professora avalia que não deve haver uma inflação diferenciada em Juiz de Fora, já que, com a recuperação das vias de acesso, o município volta a operar dentro de uma dinâmica econômica aberta, sem depender apenas da própria oferta local. “Esses momentos de picos de inflação são transitórios justamente por conta disso, o mercado se ajusta. Se internacionalmente isso é viável, de município para município, de região para região, é muito mais fácil de acontecer essa mobilidade de insumos”, explica.

O também professor da Economia da UFJF, Fernando Perobelli, faz um outro comparativo: “Quando aconteceu parecido no Sul do país, todo mundo disse que o preço do arroz ia subir e isso ia rebater numa cadeia. O governo fez uma intervenção, importou o arroz, e a gente teve, sim, um desequilíbrio inicial no preço, mas ele não se sustentou ao longo do tempo”.

“Alguma oscilação vai ter, claro, isso a gente já percebe em algumas questões, por exemplo em alguns itens de construção civil, na questão alimentícia… mas ela não tende a ser perene, por causa dessas intervenções que vão acontecer, e mesmo porque isso não é sustentável no longo prazo”, corrobora.

Cedo para análises precisas

É importante reforçar que ainda é muito cedo para analisar os impactos da tragédia das chuvas na economia de Juiz de Fora. Geralmente, os profissionais olham para o comportamento do passado e tentam fazer uma previsão para o futuro. Neste caso, porém, a cidade enfrenta um evento de proporções inéditas, ocorrido há menos de um mês, o que limita comparações e torna qualquer estimativa, por enquanto, mais cautelosa.

“Eu diria que a gente não pode pensar em nada com menos de três meses”, supõe Perobelli. Isso porque os recursos que chegarão para as cidades atingidas precisam de projetos para serem aplicados, que levam um determinado tempo.

“As ações de imediato foram feitas, que não são nem do campo da economia, mas da prevenção ou minimização do desastre. Depois, a gente entra com uma segunda camada, que é da assistência social. E a terceira camada seria as questões econômicas, para regulamentar transferência”, desenvolve.

No campo imobiliário, por exemplo, o anúncio de que pelo menos duas mil famílias de Juiz de Fora devem receber moradias de R$ 200 mil acabou de ser feito, sendo necessário um levantamento dos imóveis com determinado perfil que existem na cidade. Aspectos como esse demandam tempo.

“A gente está num momento pós-desastre”, reforça Flávia, “é quase um exercício de futurologia”. “Várias coisas vão acontecer nesse momento, alguns efeitos podem ser mais duradouros, outros nem tanto, e a gente está querendo saber qual vai ser esse novo equilíbrio encontrado”.

Aumentos dos aluguéis serão regulados

Segundo Flávia, um dos efeitos imediatos de situações de calamidade pode ser a especulação imobiliária, com aumentos abusivos de preços, ainda que isso pareça incompatível com o contexto vivido pela população. “A médio prazo, no entanto, é possível que ocorra um movimento em que uma série de regiões da cidade serão desvalorizadas”, ressalta.

“Se olharmos algumas ruas de bairros mais nobres que foram interditadas, tiveram algum deslizamento ou foram evacuadas, como toda a região do Morro do Cristo e algumas áreas do Bom Pastor, há um movimento de queda no valor venal dos imóveis”. Outras regiões, consideradas nobres, também poderão ter uma reclassificação como área de risco. Ainda assim, ela pondera que não é possível afirmar se esse movimento será duradouro, já que ainda há incerteza sobre a real dimensão dos riscos.

Fato é que o possível repasse do aumento de um setor para outro não é tão imediato, “até porque esse aumento que a gente está percebendo na questão imobiliária não é sustentável”. tranquiliza Flávia. “Não adianta você querer dizer que o preço vai explodir, porque a população não vai ter como pagar. O mercado também se ajusta, esses aumentos abusivos vão ser coibidos legalmente”. 

“Isso não vai se sustentar, até porque o mercado imobiliário não tem esse poder que a gente chamaria de monopolista, de simplesmente jogar os preços para cima, porque a gente tem toda uma regulação”, conclui. Ela – assim como Fernando – ressalta a atuação do Ministério Público, que expediu uma recomendação para que imobiliárias não reajustem, sem justa causa, os valores dos aluguéis.

O promotor de Justiça Juvenal Martins Folly, inclusive, determinou a instauração de uma investigação preliminar para apurar eventuais reajustes abusivos e notificará, por amostragem, imobiliárias da cidade para que apresentem informações.

Ordenamento urbano para não perder investimentos

O mais importante para a recuperação econômica é como os entes públicos lidarão com a segurança e o preparo para eventos extremos, num contexto em que as consequências das mudanças climáticas já são realidade.

Primeiramente, e com urgência, pensando na minimização de perdas econômicas a longo prazo, é necessário repensar o ordenamento urbano, a ocupação e o uso do solo. Senão, Juiz de Fora pode ser classificada como uma cidade de risco para novos investimentos. 

“Se os eventos começam a acontecer de uma forma cada vez mais frequente e aquela região fica muito exposta, a gente também pode começar a observar algum evento de migração, um esvaziamento econômico da cidade”, alerta Flávia, que orienta o projeto “Mudanças Climáticas, Eventos Extremos e seus Efeitos sobre Condições de Bem-Estar das Famílias” na UFJF.

“A cidade ficou no foco do país. Quem não conhecia, conheceu Juiz de Fora de uma maneira infeliz”, lembra Fernando. “E aí, quando você tem um dado de que um quarto da população juiz-forana vive em área de risco, isso tem que ser trabalhado. Eu não vou colocar o meu negócio em um município que tem risco alto.”

“A gente tem que realmente discutir o ordenamento urbano, porque você vai, sim, criar um risco, no que se refere à perenidade de investimento no município se isso não acontecer”, adverte.

Linhas de crédito emergenciais

Flávia explica que o caso de Ubá – a 111 quilômetros de Juiz de Fora – tem suas diferenças, principalmente pelo maior impacto das chuvas ter sido diretamente na área de produção industrial, o que pode ter um efeito sobre o emprego e a capacidade de reconstrução da cidade.

“Em um momento de curto prazo, a gente pode ter dificuldade de chegada de alguns produtos, por questão das vias de acesso, por produção que foi perdida. Isso pode, de fato, gerar uma inflação, mas que pode ser momentânea. Dependendo da capacidade de recuperação, a gente volta ao patamar anterior de equilíbrio.”

Pode ser que o equilíbrio, no fim, seja com o preço um pouco mais alto. Mais uma vez, tudo depende de quais serão as políticas públicas adotadas. Pode haver uma política específica de transferência de renda, por exemplo, já que locais de produção que empregam outras quatro ou cinco pessoas podem ter perdido renda. 

Desde pequenos empreendedores até indústrias maiores, a demanda será por recurso para retomada do empreendimento. “E aí a gente pode pensar em políticas de crédito subsidiado para produção, para compra de equipamentos novos. No comércio, houve perda de mercadoria, então a gente pode pensar em políticas de pagamentos de impostos, de ICMS”, sugere.

A desoneração de impostos e a abertura de linhas de crédito com juros mais baixos e prazos mais longos para liquidação – geralmente feita por bancos públicos – também são apontadas por Fernando como “altamente benéficas”. “Claro que essa é uma questão de curto prazo. A recuperação da renda desses indivíduos vai ser de médio e longo prazo.”

“Agora, de uma forma ou de outra, as duas localidades mais atingidas vão ter esse recurso entrante na economia, esse recurso exógeno. Qualquer prefeitura de algum município que seja atingido por uma tragédia dessa não tem recursos próprios para lidar com isso, é um evento extremo, não está no planejamento. Você tem um choque muito grande na economia e a solução é a intervenção federal”, conclui.