‘Estamos invisíveis’: moradores do Bom Clima denunciam risco de novos deslizamentos e falta de respostas

População relata promessas não cumpridas, falta de interdição e temor diante do avanço das fissuras; PJF afirma a realização de Plano de Trabalho para o bairro


Por Bernardo Marchiori

25/03/2026 às 18h24

'Estamos invisíveis': moradores do Bom Clima denunciam risco de novos deslizamentos e falta de respostas
Foto: Felipe Couri

No fim da tarde de 26 de fevereiro, um jovem de 26 anos morreu após um deslizamento de terra atingir a residência em que vivia com a família, na Rua Thiers Ceruti, no Bairro Bom Clima, na Zona Nordeste de Juiz de Fora. A tragédia ocorreu durante as fortes chuvas no município. Quase um mês depois, os moradores da região ainda esperam ações por parte do Poder público.

Já nas ruas de acesso ao bairro, é possível constatar o asfalto com muitas rachaduras e cedendo em diferentes pontos. Quem sobe as vias chega a uma área cheia de itens de contenção, especialmente nos locais próximos ao barranco que cedeu. Todas as ações são de responsabilidade dos próprios moradores, que se uniram para diminuir os impactos causados e evitar novas ocorrências. De acordo com a comunidade, a mãe da vítima não teve condições de voltar à casa destruída para recuperar fotos e memórias do filho.

A professora Andrea Virgínia, que também mora no bairro, destaca que a área que desmoronou é da prefeitura. “Eu fui retirada de casa, fiquei uma semana fora por precaução, assim como outros. Alguns não quiseram sair. Até hoje não interditaram as ruas, como foi prometido.”

A comunidade reforça que a terra continua na mesma posição após o deslizamento. “A rua não tem passagem. Ônibus e coleta de lixo não sobem mais. Estamos nessa situação há quase um mês. Nessa área, ocorreu o desmoronamento principal com vítima. Só que o outro lado do bairro também está desmoronando,  as rachaduras estão aumentando. Prefeitura, Defesa Civil e Corpo de Bombeiros já vieram, mas nada foi feito”, lamenta Andrea.

Além da Thiers Ceruti, as ruas de maior preocupação por parte dos moradores são José Antônio Mendes, Antônio Chimico Corrêa, João Tardio e Francisco Couri. Com a falta de ações da prefeitura, o medo na comunidade não passa. “A gente está invisível. Não interditam e nem evacuam, não é considerada área de risco.”

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Foto: Felipe Couri

‘Fizemos um trabalho que não era nosso’

Ainda na área próxima ao deslizamento, a comunidade mostrou algumas das ações realizadas para evitar novas ocorrências. No trecho indicado como da Administração municipal, por meio da planta da rua, o local está ornamentado, com meio-fio pintado e passeio em boas condições. Foi feito um esquema para que a água que escoasse pela via fosse desviada, junto à limpeza dos bueiros. Entretanto, tudo é de responsabilidade dos moradores.

O comerciante Juliano Gonçalves conta que os moradores se reúnem e pagam um valor mensal para manutenção da área. “Fomos orientados a colocar grama, que é algo leve e ajuda a absorver água. As plantas são leves para não gerar problemas. A área em que houve o deslizamento era exatamente a mesma do entorno, e isso preocupa. Fizemos um trabalho que não era nosso. A cera, a lona em cima do barranco que caiu: tudo feito por nós. Uma obra emergencial que se a gente não fizesse, poderia piorar.”

A população local também asfaltou alguns trechos erodidos das vias. Entretanto, o motivo não foi bloquear as fendas, mas, sim, fazer marcações. “As rachaduras até a parte superior da rua não existiam quando fizemos o serviço. Ou seja, houve um certo deslocamento do pico: significa que evoluiu. Se esse pico desce, vai atingir a Rua Aurélio Ferreira Salgado. É uma tragédia anunciada – e não é a única. Em todos os casos, ainda tem gente morando nas residências. Eu, por exemplo, estou fora da minha casa e não sei quando vou retornar. O bairro está afundando”, relata Juliano.

Sobre o desejo para o momento, ele não hesita: resposta. “Precisamos saber o que, quando e como vai ser feito. Se a prefeitura falar assim comigo: ‘volta hoje’, eu volto hoje – mas quero garantia de segurança. Porque por enquanto a gente não está nem na previsão. Queremos visibilidade e ação. Não procuramos embelezamento.”

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Foto: Felipe Couri

Prefeitura reuniu com moradores, mas não retornou com soluções

A comunidade contou à equipe de reportagem que a PJF fez uma reunião no Bom Clima no dia 4 de março, afirmando que iam interditar as ruas. Contudo, a promessa não foi cumprida. Além disso, foi apresentando que seria feita uma obra semelhante à do muro de contenção no Bairro Santa Teresa. “Não é uma obra que será concluída rapidamente. Como nada está sendo feito, estamos preocupados, porque o tempo está correndo. Daqui a pouco vem chuva de novo”, alerta Juliano.

“A secretária afirmou na reunião que a verba existe. Agora precisamos de mais respostas para nos programarmos em saber quando voltar para casa, se será necessário alugar um lugar para ficar, se dá para continuar na casa de parentes. Não podemos pedir aluguel social porque aqui não consta como evacuado.”

O comerciante destaca que o bairro é legalizado, com planta das casas registradas no Conselho Regional de Engenharia e Agronomia (Crea) e na prefeitura. “Os impostos sendo pagos – e não são baixos: alguns pagam até R$ 11 mil de IPTU. Não só o Bom Clima, mas Juiz de Fora precisa ser reconstruída por inteiro e queremos fazer parte do montante. As áreas onde a comunidade foi mais afetada, as mais carentes, já estão ‘resolvidas’ – com a verba definida. Por mais que ainda não esteja em andamento, já está garantido.”

Ele reforça que precisa de respostas do que vai ser feito na área. “Para que a gente que paga imposto, que cuida e não tem assistência, saiba o que vai fazer da vida. Não queremos que o Poder público chegue aqui, olhe para um bairro estabilizado, com casas boas e fale assim: ‘lá eles têm condição, lá eles esperam’. De jeito nenhum.”

Resposta da Prefeitura

Em resposta à Tribuna, a Prefeitura de Juiz de Fora informou que o Plano de Trabalho do Bairro Bom Clima já foi finalizado, com a definição das obras necessárias, e encaminhado ao Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional, em Brasília. Após a análise e aprovação do documento, serão realizadas a captação de recursos federais e a contratação de empresa para elaboração do projeto específico da área e execução das intervenções no bairro.

Por fim, a PJF acrescenta que profissionais de uma empresa especializada em contenções estiveram no local e apontaram a necessidade de reduzir o tráfego de veículos pesados para evitar sobrecarga e vibrações nas vias.