Conheça Renato da Lapa, cantautor que ‘percebe o mundo a partir do outro’

Na coluna ‘Sem lenço, sem documento’ desta semana, veja a trajetória do cantor que faz parte da nova tradição da música mineira e que lançou ‘Sotaque’ em 2024


Por Elisabetta Mazocoli

29/06/2025 às 07h00

renato da lapa
Renato da Lapa lançou em 2024 ‘Sotaque’ e tem novas músicas em parceria para este ano (Foto: Estela Loth)

“Hoje de manhã mesmo estava trabalhando em uma música”, me conta Renato da Lapa, 38, sobre uma canção que se baseia em um “sentimento árido e desértico” e que está fazendo como trabalho para a faculdade de Composição, dentro do curso de Música, na Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Já encarando a música como parte do dia a dia desde, pelo menos, a adolescência, foi em 2014 que entendeu mais sobre qual era o seu papel nessa área: se identificou como um “cantautor”, termo que faz parte de uma tradição de artistas mineiros que enxergam como conjunto cantar e compor. Foi nessa época, também, que ele começou a mostrar pro mundo suas próprias músicas e a tentar, de vez, priorizar a carreira musical em sua vida. Desde então, já lançou o EP “Sotaque” e vários outros trabalhos em parceria com músicos juiz-foranos — e continua acreditando na música como fazer coletivo e forma de encarar o mundo.

O artista me conta que sua origem musical está muito relacionada com a musicalidade da rua e a musicalidade teatral. Isso porque começou a tocar na calçada da rua onde morava, Antônio Altaf, no Cascatinha, junto com outros amigos do bairro e do colégio. “Era uma fase que as pessoas ficavam muito nas ruas, a gente chegava da escola e brincava de pique-esconde, pião, soltava pipa e jogava vôlei. E, aí, começamos a tocar violão”, relembra. Naquele momento, ele também foi se conectando e criando junto com pessoas que permaneceram importantes na sua vida como artista, e participou das bandas Bombocado, Dona Flor e Blend 87. Um desses marcos, inclusive, aconteceu no colégio Opção, onde estudava, e que tinha um sarau organizado pelos professores. Hoje, carregando a música como ofício, aquele momento permaneceu: “Subir no palco pela primeira vez foi muito difícil, parece aquele evento que você vive aquilo, mas parece que passa um borrão na sua mente e você não consegue lembrar exatamente como foi. O presente é como se não existisse. A cada subida no palco, tenho que fazer como se fosse a minha melhor subida”, conta.

Ele começou a tocar violão, em sua percepção, tarde. Isso influenciou com que, naquele momento, ainda não conseguisse vislumbrar a música como profissão e, então, prestasse vestibular para Farmácia. “Só no meio do mestrado em Farmácia, criei coragem pra ter uma vida de músico. O processo de me descobrir como compositor veio junto com o processo de querer viver disso”, diz. Para ele, a percepção de uma nova onda na tradição de música mineira, em que os cantores se assumiam como compositores e vice-versa, foi muito importante para ter um norte do que queria fazer. “Com as transformações da MPB, não posso me dar ao luxo de não cantar as minhas músicas. (…) Você começa não acreditando que é possível, mas fazendo brincadeiras e pequenas músicas. Fiz uma brincadeira pra minha mãe, depois me espelhando em outros compositores. Nessas primeiras, também fiz uma respondendo a letra de uma música que eu não gostei. E aí você vai pegando o gosto”, conta sobre o processo.

Ao longo do tempo, no entanto, foi tornando esse processo de criar músicas mais consciente. E entendeu qual era uma chave importante para a sua criação: “É uma vontade de fazer a minha voz ser a voz de outras pessoas. Componho porque quero ver outras pessoas cantando minhas músicas, mas não no sentido narcisístico, mas no sentido de acreditar que, de alguma maneira, a arte transforma, aproxima as pessoas e consegue transformar o mundo. É possível e preciso acreditar nisso”, diz. Desde então, vem formando essas redes de aproximação com artistas como Laura Jannuzzi, Pedro Brum, Victor Rozeni, Alice Santiago e muitos outros. Também concilia a carreira como farmacêutico com a de músico e, agora, a faculdade — e busca se aproximar cada vez mais da arte.

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(Foto: Estela Loth)

Entre o natural e o sobrenatural

Ao pensar sobre o que quer compor, apesar de entender que gosta de trabalhar com uma diversidade de temas, percebe que há algo que permanece: a importância do natural e do sobrenatural. “Como a gente, como poeira cósmica, como ser humano pequeno, somos também parte da natureza e, por isso, somos também a força divina”, diz sobre o processo que aparece bem em músicas como “Na curva do rio” e “Voz de dentro”. Um dos momentos que o fez refletir sobre isso, recentemente, foi com a visita de monges tibetanos à UFJF, em que contavam sobre seu processo de entoar cânticos nos quais usam a garganta para fazer sons polifônicos. “Um dos monges falou que todos os cantos e a filosofia deles é para nos lembrar da nossa interdependência, porque por mais que a gente queira procurar a nossa independência, e isso seja algo do capitalismo, todo ser humano depende do outro, somos uma grande rede de interdependência. Da mesma maneira que a minha mão é parte do meu corpo, o outro também é parte de mim”, reflete.

Em sua percepção, há um pensamento equivocado sobre existirem muitas pessoas no mundo, que o planeta não suportaria tanta gente. Mas ele acha o contrário: as pessoas poderiam, justamente, ser a ferramenta de mudança. “Acredito que, algum dia, a gente pode encontrar a paz de se viver coletivamente, de uma forma que vai ser totalmente sustentável para o planeta. O ser humano tende a se diferenciar da natureza, achando que não é parte dela. Mas quando a estamos destruindo, estamos nos distanciando, porque também somos ela. Estamos distantes de entender que a nossa grande religiosidade passa pela coletividade e pela natureza”, diz. Para ele, é impossível fazer arte sem acreditar nisso.

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(Foto: Larissa Noé)

Uma grande reviravolta

É também por acreditar tanto no potencial da arte que, quando pergunto sobre seus sonhos dentro da música, não fala de nenhum projeto individual. “Acho que quando a gente sonha, temos que sonhar alto. Se não, estamos só pensando. Sonhar tem que ter uma fantasia, de algo muito difícil. E eu sonho com uma grande reviravolta nossa, coletivamente”, diz. Essa reviravolta a que se refere é uma transformação no mundo, no olhar para o outro e para a natureza. O papel da música, nesse sentido, se torna essencial: “Eu acho que a música faz esse grande e difícil trabalho de, através do belo e do chocante, conscientizar e tentar trazer o pensamento e o sentimento humano para a coletividade. Para uma interdependência e um desantropocentrismo. (..) O ser humano é só uma parte. Também existe o amor, essa palavra tão batida e usada, e ele ainda é revolucionário”.