Conheça Guilherme Melich: artista plástico e músico punk com traços marcantes

Na coluna ‘Sem lenço, sem documento’ desta semana, conheça a trajetória do pintor, desenhista e professor que defende humanidade por trás das obras


Por Elisabetta Mazocoli

11/01/2026 às 07h00

guilherme melich
Guilherme Melich é artista visual e cantor na banda Traste, além de professor (Foto: Arquivo pessoal)

Guilherme Melich gosta do cheiro de tinta fresca. É o que sente quando chega ao seu ateliê, no Centro da cidade, para continuar a rotina que tem há mais de dez anos como artista em Juiz de Fora: “Tem uma coisa meio sinestésica nos cheiros. Para mim sempre funcionou como uma ponte temporal, me leva para outro momento da minha vida, para quando eu comecei a pintar. Fica sempre parecendo meio novo, né? Não deixa de ser uma coisa fresca”, conta. Os potes entregam o trabalho que começou quando entrou no curso de Artes e Design, na Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), em 2002, e descobriu o amor pelas belas artes. Desde então, ele se dedica a experimentar diferentes técnicas e continuar desenvolvendo seu estilo, em busca de uma superfície em que possa se expressar sem muitas sutilezas. Essa trajetória também o levou a ensinar arte para mais pessoas e até a música punk, com a banda Traste.

A ligação de Guilherme com o mundo das artes começou, na verdade, por meio da música. Foi por esse gosto que escolheu o curso, imaginando que desenvolveria cartazes e capas de álbum como os que ele mais gostava. Até que, durante as aulas, começou a ter contato com gravura e desenho, e se encantou. “O lado mais plástico e abstrato da arte foi o que me pegou de verdade”, conta ele, que passou a entender que esse podia ser um caminho a ser trilhado. O ano decisivo para isso foi 2008, quando descobriu que sua companheira estava grávida: percebeu que precisava se formar rápido e começar a trabalhar — e encontrou nas aulas de pintura e nas tatuagens uma forma de manter o trabalho artístico.

Logo em 2009, ele fez a primeira exposição com trabalhos que estava desenvolvendo ao longo da faculdade. Em 2012, no entanto, ele vê que sua obra teve “um salto”: ele já tinha um ateliê e tinha incorporado a arte ao dia a dia, assim como faz agora. Ainda que não se defina como uma pessoa muito organizada, esse espaço, para ele, permite que veja suas referências e consiga trabalhar com elas quase sempre chegando até o fim das obras. E, nas aulas, que ele continua dando e das quais passou a gostar mais que imaginava (inclusive mais que de tatuagem), o que ele tenta passar é justamente algo “não tão metódico”, mas que ensine técnicas para adultos ao mesmo tempo que deixa o gosto pessoal de cada um guiar os caminhos.

Mas a inspiração que a música tem, em sua vida, não se limitou a esse momento: continua atuando quando ele está pintando, inclusive. Exemplo disso são as séries “Incêndios” e “Em queda” — essa última muito inspirada pela música “Break my body”, do Pixies. Ele acredita que nas duas artes há o gosto por uma certa agressividade que, na vida cotidiana, ele não expressa. “Eu uso bastante tinta, tem essa coisa, um certo ruído no tipo da imagem. Eu não gosto das coisas muito lisinhas e muito limpas ali. Tem a ver com um tipo de som assim que eu curto e que é mais ‘barulhento’. Acredito que faz sentido, porque tá saindo da mesma pessoa”, conta.

Retratos roubados e vários olhares

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Uma das séries de pintura mais recentes se chama “Retratos roubados”. Nesses trabalhos, ele conta que usou fotos de família e até fotos de outras pessoas na internet para partir para a criação. “São fotos que não tinham intuito nenhum, a não ser um registro íntimo, e levo para essa outra esfera. A minha ideia não é transformar em uma representação, mas explorar essa imagem como qualquer outra e sua qualidade enquanto pintura. (…) Quero ver o que pode ter de universal que não fique preso à minha história”, conta. Nesses retratos, que ele entende que tem “um quê” fantasmagórico, gosta de brincar com o que é íntimo e o que não é. “Uso coisas que estão soltas pelo mundo quase como domínio público, mesmo que não sejam”, conta.

No momento, o que tem trabalhado é uma série inspirada no artista japonês chamado Hokusai, que fez cem vistas do Monte Fuji. Ele está retomando o projeto, aproveitando que também gosta muito de fazer trilhas. A ideia, então, foi buscar uma das vistas mais procuradas de Juiz de Fora: o Morro do Cristo sob o seu olhar.

O toque de humanidade

Arte, para Guilherme, precisa fundamentalmente ter uma só coisa: humanidade. É por isso que não se sente preocupado com as Inteligências Artificiais invadindo o campo e replicando produções. “Quando estamos no museu, podemos nos emocionar com uma pintura de mais de 300 anos atrás. É muito louco perceber esse lapso temporal e ver que essa conexão é mantida. Há algo na imagem que é além da imagem”, diz. Esse aspecto, como ele destaca, é o que faz cada um sentir. Apesar das dificuldades de ser artista em Juiz de Fora e fazer sua arte circular dentro da cidade, ele entende que a conexão que as pessoas têm com as suas pinturas, a partir do que veem, querem comprar e até encomendam, é o que faz sentido. “Acho que o que me interessa é sempre o como foi feito, a transmutação do que era só matéria para o que reconhecemos como imagem ou figura. É o que busco fazer com as minhas pinturas.”

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