Com Morro do Cristo interditado, turismo de Juiz de Fora enfrenta cenário desafiador
Setor turístico foi impactado por insegurança em relação à cidade; exemplo do Rio Grande do Sul e Petrópolis ajudam a pensar como cidade pode seguir caminhos

As chuvas de fevereiro viraram fotos e vídeos que circularam por todo o Brasil. Além dos impactos diretos sofridos pelas famílias que perderam parentes, casas e perspectivas, foi toda a imagem de Juiz de Fora que mudou depois do ocorrido. Inclusive porque o setor turístico também sofreu mudanças fortes: o Museu Mariano Procópio (Mapro) ficou fechado por mais de três meses e só será reaberto nesta terça-feira (2), e o Morro do Cristo segue interditado, sem previsão de reabertura.
Por isso, os planos para fomentar o turismo na cidade também precisaram ser revistos devido à gravidade do ocorrido. Mas, para movimentar o setor, é preciso entender que tragédias como essa também atingiram locais como o Rio Grande do Sul e Petrópolis, e que a área do turismo ainda pode ser uma aliada para a recuperação econômica e cultural.
Os acontecimentos de fevereiro geraram traumas e medos de novas ocorrências, abalando a segurança de moradores e visitantes, especialmente para transitar em áreas consideradas de risco. Isso é o que explica a professora do Departamento de Turismo da UFJF, Raphaela Corrêa, em uma perspectiva que destaca o quanto esse cenário de fragilização impacta a visitação na cidade. Ela explica que esse setor também é afetado pelos impactos no setor de eventos e pelos problemas estruturais e prejuízos que empreendimentos do setor de gastronomia e hotelaria.

“As prioridades precisam combinar resposta emergencial com a reparação de perdas e danos, a garantia de um acesso sem risco e com segurança, bem como uma comunicação transparente sobre as condições dos atrativos e empreendimentos e quais foram as intervenções realizadas, a fim de recuperar a confiança dos visitantes e turistas”, indica.
Para além do cenário de crise imediata, ela pensa que é fundamental planejar projetos de longo prazo para ações preventivas, educativas e de revitalização de modo seguro e sustentável. Nesse contexto, Juiz de Fora pode fortalecer e diversificar sua oferta turística investindo no potencial relevante que possui para o turismo cultural e gastronômico, assim como para a economia criativa, a dinâmica universitária e aquela relativa a sua atuação como pólo regional. Dessa maneira, entende que existem possibilidades para não só manter o atual fluxo turístico como também para incrementar esse potencial — mas, para isso, é necessário investimento, mobilização, cooperação e união de esforços dos setores públicos e privados.
São esses esforços que têm mobilizado o Secretário de Turismo, Eduardo Crochet, que desde a tragédia compareceu a vários eventos em busca de respostas para o turismo. À Tribuna, ele explicou que a requalificação do Morro do Cristo segue sendo planejada, assim como foi anunciado em janeiro, mas a prioridade passaram a ser os projetos e as obras de contenção das encostas do Morro para o retorno seguro dos moradores das áreas de risco.
Outra medida importante para garantir que Juiz de Fora siga sendo impulsionada como destino para a região e todo o país, o projeto de revitalização do Centro Histórico, não foi diretamente afetado e segue seu fluxo com as etapas que foram planejadas, inclusive porque já previa ações mitigatórias em relação ao impacto das mudanças climáticas e à sustentabilidade.
Exemplo do Rio Grande do Sul
De forma similar ao que aconteceu com a cidade, outros locais também precisaram usar estratégias diversas para recuperar o turismo após tragédias: foi o que aconteceu com o Rio Grande do Sul, após as enchentes de 2024. Raphaela Corrêa traçou um paralelo entre a cidade mineira e esse estado, que enfrentou desafios enormes relacionados à infraestrutura, mobilidade e reconstrução urbana. Para retomada do turismo, ela explica que ocorreram campanhas de valorização da atividade no nível regional e de incentivo ao consumo local como forma de apoiar a recuperação econômica, além de campanhas para o fortalecimento do sentimento de solidariedade, ações educativas e de conscientização sobre as alterações climáticas.
Também foram feitos investimentos em pesquisa e observatórios como o Observação, Desenvolvimento e Inteligência Turística e Territorial (ODITT), que coletou e analisou dados sobre os impactos dos eventos climáticos com diferentes atores do turismo na região, incluindo gestores, empreendedores e trabalhadores. Outro exemplo é a cidade de Petrópolis, que, após as chuvas de 2022, buscou fortalecer eventos culturais e também circuitos cervejeiros e gastronômicos para auxiliar na retomada econômica
Juiz de Fora, no entanto, tem desafios específicos a serem enfrentados, levando em conta que se trata de um município com relevo acidentado e onde cerca de 25% da população reside em áreas de risco. “A discussão sobre turismo precisa necessariamente dialogar com usos e ocupação do território, planejamento urbano, especulação imobiliária, gentrificação e práticas sustentáveis para mitigar os efeitos das alterações climáticas. Outro ponto importante é a dependência das condições de mobilidade urbana para acessar áreas ambientalmente sensíveis”, destaca a professora.
Para além desse aspecto, ela também ressalta que é importante considerar o contexto de proximidade das eleições, que torna o tratamento da tragédia e a superação da crise um campo de disputa política e simbólica que demanda muitos filtros para a percepção da real situação, da capacidade de recuperação, da responsabilidade pública e da valorização da identidade local.

Incorporar as mudanças climáticas
A forma como a atividade turística impacta e é impactada pelas mudanças climáticas já vem chamando a atenção de universidades e centros de pesquisas no Brasil e no mundo há alguns anos. Como explica Raphaela, os pesquisadores da área entendem essa relação por meio de diferentes perspectivas, entre as quais uma na qual o turismo pode ser visto como vítima (como um setor diretamente prejudicado com perdas de atrativos, instabilidade sazonal, redução de fluxo de visitantes), vilão (um contribuinte para emissões de gases de efeito estufa, decorrentes sobretudo dos transportes, além da sobrecarga que gera no uso de recursos hídricos e de energia, de produção de resíduos sólidos, etc.) e também herói (um aliado no enfrentamento de situações de crise).
É mais nessa terceira perspectiva que Crochet parece acreditar: “O turismo tem um papel importantíssimo como eixo de desenvolvimento sustentável. Segundo a Organização Mundial do Turismo (OMT), mais de 1,4 bilhão de pessoas viajaram para o exterior em 2024, o que representa 99% da quantidade de turistas internacionais de cinco anos antes e no turismo doméstico, os números não variam muito. Juiz de Fora e a Zona da Mata têm se preparado para essa realidade e trabalhado para se tornar um destino cada vez mais buscado”, diz.
No entanto, Raphaela destaca que o principal desafio da retomada do turismo só pode ser enfrentado quando as demandas emergenciais da população local, entre outras, estruturais e de vulnerabilidade social, são atendidas. “Existe sempre uma pressão para ‘normalizar’ rapidamente a atividade econômica e turística, mas especialistas alertam que reconstruir sem planejamento pode reproduzir riscos futuros”, diz. Para ela, é importante notar que o setor não deve ser pensado separadamente da segurança urbana, da habitação, da mobilidade e da adaptação climática. Em destinos afetados por desastres, a recuperação sustentável depende da integração entre políticas públicas, defesa civil, planejamento territorial, iniciativa privada e gestão turística.
Outro desafio, nesse sentido, é uma comunicação que transmita confiança sobre o cenário após a tragédia sem minimizar os impactos, para que a população local perceba que a retomada turística não está ignorando o sofrimento social, mas contribuindo para a recuperação econômica e para a valorização da cidade. Seja qual for o olhar, ela também entende que o turismo contemporâneo precisa incorporar o conceito de “resiliência” ou “resistência climática”, em que se estabelecem novas práticas de trabalho e condutas. “Destinos turísticos não podem mais planejar apenas promoção e crescimento; precisam planejar prevenção, adaptação e capacidade de resposta a crises”, defende.








