Reencontro com o chão
Qual a segunda certeza que se tem na vida além da morte? A gravidade. Pergunta e resposta foram lançadas pela artista do corpo Camila Vinhas, de São Paulo, que visitou neste mês a cidade para ministrar a palestra A dança como forma de conhecimento e o contato-improvisação como instrumento e método de pesquisa. O evento aconteceu na Faculdade de Educação Física da UFJF e integrou o projeto IncorporAções – oficinas de contato-improvisação, apoiado pela Lei Murilo Mendes e comandado pelo Grupo de Dança da UFJF, em parceria com o Laboratório de Terapias Corporais (LateCorp). Camila também comandou o curso Contato-improvisação e ideokinesis. Segundo a artista, uma das primeiras conquistas da prática é aprender a lidar com a gravidade, entregando o peso e ouvindo o corpo do outro. Muitos acham que o contato-improvisação é um enrolar-se no companheiro. Pelo contrário, ele é um desenrolar-se e pode nos devolver nossa relação com o chão.
Em constante troca com o grupo local Queda e Recuperação, a paulistana defende as inúmeras possibilidades da técnica desenvolvida pelo coreógrafo norte-americano Steve Paxton há 40 anos. Ela nasceu em um curso de extensão, dentro de uma universidade, comenta Camila, salientando o papel da academia em disseminar conhecimentos. De acordo com ela, a criação de Paxton pode ser usada como terapia corporal e mental, como forma de dança e ainda como ferramenta de treinamento e pesquisa. De uma maneira ou de outra, propiciará a integração corpo-mente e contribuirá para o refinamento dos sentidos. Trata-se de uma dança meditação. Lembrando que a dança é anterior à fala, é racional e irracional, abarca o ser como um todo. A artista também estuda a ideokinesis, um procedimento moderno e capaz de dar segurança ao contato-improvisação, repleto de riscos e imprevisibilidades.
Jogo de sempre ganhar
Camila cita ainda a chamada nova dança, posterior à contemporânea, que utiliza a educação somática e entende o corpo como continuidade do espaço. Essa tendência questionadora, vista como uma ferramenta contra a alienação, localiza-se em um território diferente do espetáculo, embora possa vir a se tornar obra de arte. Para a paulistana, o contato-improvisação deve ser compreendido como um jogo no qual sempre se ganha. Se o indivíduo estiver obstinado, partirá para a luta de ego, adverte, definindo a prática como um antídoto meditativo da competição. Onde sua mente estiver, ali estará sua energia.
Segundo Camila, os movimentos conquistados pelos bailarinos capitaneados por Paxton na década de 1970 só foram possíveis pelo profundo mergulho nas pesquisas e nas chamadas jam sessions (termo emprestado do jazz). Trata-se de uma tecnologia, instrumentos para desenvolver a consciência e a consequente evolução. É preciso levar isso a todos os públicos. Como ressalta a artista, crianças e idosos costumam responder com a mesma qualidade ao método. Assim, ela propõe uma revolução silenciosa, baseada no compartilhamento. Temos que modificar o olhar padronizado. Acredito que a arte existe para transformar.









