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Longe do ouro, perto do mar


Por Renata Delage

30/05/2012 às 07h00

José de Barros recebe Mário César

José de Barros recebe Mário César

"Se os juiz-foranos se encantavam, no início do século XIX, com as histórias de reis e rainhas, príncipes e princesas, que vinham do Rio, contadas por viajantes e escravos, hoje, esse mesmo encantamento permanece, só que as histórias são contadas pela imprensa, pela televisão, pelo rádio e pela internet", avalia o jornalista e mestre em comunicação social, Flávio Lins. Resultado de investigação documental e de entrevistas, a obra "Cariocas do brejo entrando no ar: o rádio e a televisão na construção da identidade juiz-forana (1940-1960)" – assinada por Lins e pela jornalista e professora de comunicação social da UFJF, Cristina Brandão – será lançada nessa quarta-feira (30), às 19h30, no Centro Cultural Bernardo Mascarenhas. Na véspera do 162º aniversário de Juiz de Fora, o livro propõe um resgate – e consequente homenagem – da memória audiovisual da cidade e o reconhecimento do papel da TV Mariano Procópio na formação da identidade do chamado "carioca do brejo".

Os autores contaram com o depoimento de profissionais de comunicação, bem como membros das famílias de pioneiros do setor, que compartilharam fotografias inéditas e histórias do tempo em que Juiz de Fora se lançava em suas primeiras transmissões audiovisuais. "Um dos pioneiros do rádio na cidade, Pedro Gonçalves de Oliveira, um típico carioca do brejo, trazia as últimas novidades no campo da radiofonia. Morou algum tempo no Rio e, quando se mudou com a família para Juiz de Fora, passou a divulgar na PRB-3, em boletins diários, os ideais libertários da Revolução de 30 trazidos da então capital", conta Cristina, relembrando o depoimento da filha do radialista, Lígia Oliveira. "Ele mesmo abria e fechava a rádio, e, às vezes, subia até o morro da Tapera, onde estava a torre da estação para verificar se tudo corria bem."

De profissionais de Belo Horizonte, vieram os relatos de como os mineiros da capital se sentiam indignados com os juiz-foranos, vistos através de reportagens na TV, e que queriam "se colocar à frente do mineiro tradicional". "Os programas de televisão de Juiz de Fora repetiam tal e qual a linguagem dos ‘ousados’ programas cariocas, sobretudo nas imagens do carnaval mostradas pela TV em meados dos anos 1960. Belas mulheres dançando alegres e com pouca roupa, chocando os mineiros de outras regiões", relata o pesquisador Flávio Lins.

 

‘Litoral mineiro’

Para os autores, é difícil precisar o momento exato em que o mineiro de Juiz de Fora começa a se descolar do tecido da mineiridade. "A identidade do carioca do brejo, que começou a ser construída com as histórias de liberdade que chegavam no lombo de burro ainda no tempo do Caminho Novo, permanece sendo influenciada pela Cidade Maravilhosa, a partir dos modelos e modismos que emanam de lá, sede de importantes empresas de comunicação", observa Lins.

O autor destaca que o juiz-forano, segundo vários pesquisadores, ficou de fora da construção do discurso da mineiridade, firmado nas regiões auríferas de Minas. "Aquela história de mineiro pouco afeito aos prazeres ruidosos, circunspecto, pão duro e calado foi construída a partir dos mineiros mineradores, e nós passamos longe disso. Não ficamos impunes aos ventos de liberdade que sopravam do Rio de Janeiro. E Minas não perdoou isso. Fomos apelidados de cariocas do brejo", conclui.

Os laços entre as cidades mineira e carioca podem ser considerados, segundo Cristina, ainda mais fortes na atualidade. "A estrada melhorou, temos ônibus de hora em hora. Era complicado chegar ao Rio pela União e Indústria. Tem gente trabalhando no Rio, indo e vindo para Juiz de Fora", pontua, citando como exemplo de genuíno carioca do brejo o protagonista do livro recentemente lançado por Rodrigo Barbosa, "O homem que não sabia contar histórias". "Temos nosso coração nas Minas Gerais, porque amamos nossa cidade, mas uma vontade louca de nos perdermos nas delícias do mar e do jeitão carioca", constata.

 

Intercâmbio comportamental

O estreitamento das relações entre Juiz de Fora e Rio ocorreu, principalmente, depois da chegada do rádio e da televisão, uma vez que ambas as mídias estavam entre os principais veículos de comunicação divulgadores de modos sociais de consumo e comportamento. "O desejo de Juiz de Fora se mostrar cosmopolita e moderna, como o Rio de Janeiro, ficou claro nas entrevistas e nos programas de rádio e TV que analisamos", diz Lins.

As transmissões radiofônicas feitas em Juiz de Fora já revelavam a inspiração e a mimese dos modelos de programas veiculados pela Rádio Nacional do Rio de Janeiro. Criaram-se, na cidade, departamentos de produção radiofônica, tal qual se fazia no Rio. O intercâmbio entre scripts de programas e vindas de artistas cariocas à cidade marcaram essa tendência do juiz-forano a se inspirar na vida praiana e em seu carisma.

As emissoras de televisão cariocas chegaram a ter programas de televisão sobre Juiz de Fora, feitos por juiz-foranos no Rio de Janeiro. O primeiro deles, ainda em 1959, chamava-se "Depois das montanhas" e era apresentado pelo colunista Décio Cataldi e pelo jornalista José Carlos de Lery Guimarães, na extinta TV Continental, uma emissora carioca. Na TV Tupi do Rio, o programa "Filmando Juiz de Fora" ia ao ar "diariamente filmando e fotografando todos os acontecimentos da cidade para levar ao Brasil, pela estupenda imagem do Canal 6, a vida trepidante da Manchester Mineira", descreve o "Diário Mercantil" em 1966.

 

Pioneirismo nas comunicações

Além de resgatar a história da comunicação na cidade, o projeto pretende servir de incentivo para que novas gerações de pesquisadores se debrucem sobre a memória audiovisual de Juiz de Fora. "O interesse por essa história atinge não somente estudantes de áreas afins, mas toda a nossa comunidade, que tem um passado repleto de situações de carioca do brejo", acredita Cristina.

Longe de colocar um ponto final no assunto, Lins reforça o pioneirismo de Juiz de Fora nas comunicações. "A primeira rádio de Minas Gerais surgiu em Juiz de Fora, em janeiro de 1926, criada por Cardoso Sobrinho em sua própria casa na Rua Tiradentes, a PRA-J. As primeiras transmissões de televisão da América do Sul aconteceram aqui, feitas pelo técnico em eletrônica Olavo Bastos Freire, na década de 1940. Olavo transmitiu pela TV a primeira partida de futebol no Brasil. A primeira emissora de televisão do interior do país também é daqui, a TV Mariano Procópio, embora este título seja disputado com a TV Bauru, do interior de São Paulo. Mas se fomos a primeira ou a segunda, não importa. Continuamos pioneiros", finaliza.