Vivências reais ou imaginárias

“Fluxidade” foi criado a partir de pesquisas com transeuntes e adolescentes das escolas públicas em que os atores/bailarinos atuam como arte-educadores



“Fluxidade” é contemporâneo. “Ele quebra com o pensamento aristotélico de construção em cima de um início, meio e fim. Não existe uma historinha linear”, afirma a atriz/bailarina Isabela Carletti, também uma das diretoras artísticas do espetáculo que a Ekilíbrio Cia. de Dança estreia, nesta quarta e quinta-feira, no Centro Cultural Bernardo Mascarenhas. A plateia que primeiro prestigiará a montagem será formada por estudantes de escolas públicas da cidade, alunos que serviram de ponto de partida para a performance, que será encenada por seus mestres de sala de aula. A temporada aberta ao público em geral acontece, gratuitamente, nos dias 1º, 2 e 3 de abril, às 19h30, no mesmo espaço, e nos dias 8 e 9, às 18h30, na Praça Ceu, de Benfica.
“Nossa intenção era falar da cidade, e a palavra fluxo tem a ver com dança, movimento, fluxo de pessoas. Contudo, depois o projeto seguiu para outros caminhos. Hoje, a gente trata sobre a juventude, sobre questões corporais relativas à cidade”, explica Isabela, procurando esquivar-se de definições para essa performance de Dança-Teatro. “Queremos que as pessoas cheguem para assistir sem ser contaminadas por uma ideia inicial”, defende ela. Conforme Raíssa Ralola, bailarina convidada para o processo de elaboração do trabalho, realizado com apoio da Lei Murilo Mendes, há um ano, quando “Fluxidade” nasceu, uma pergunta norteou os trabalhos: “Como o adolescente percorre os fluxos da cidade contemporânea?”
“Os cinco criadores pesquisaram de diferentes maneiras e em campos diversos. Observaram transeuntes nas ruas, pesquisaram seus movimentos, acessaram diferentes referências e, principalmente, tiveram contato com adolescentes nas escolas em que atuam como arte-educadores”, diz Raíssa, responsável pela pesquisa musical, ao lado de Herbert Hischter, Jéssica Melato e Tatiana Oliveira.
Embora os adolescentes sejam o mote dos estudos da companhia, eles não são os únicos que serão tocados pela obra. “O adulto e a criança podem se identificar a partir de suas vivências pessoais e fazer leituras distintas”, dispara Isabela. Aliás, os primeiros a serem atingidos pela criação foram os próprios criadores. “A pesquisa foi crescendo, tomando corpo, e emergiu, quando perceberam que era preciso deparar-se com suas próprias adolescências, retomando memórias, experiências e acessando pontos, digamos, em comum. Pontos vivenciados por todos nós neste momento entre a vida infante e a vida adulta”, reflete Raíssa Ralola. “A visão que tínhamos no começo do projeto foi ampliada tanto para fora quanto para dentro de nós”, assevera a também diretora artística Christine Sílmor.
Construção de um pensamento crítico da dança
Segundo Raíssa, “Fluxidade” tem “um recheio de ludicidade”, e os atores/bailarinos “vivem histórias, brincam, jogam, exploram universos, percorrem estados, vivem suas cidades reais ou imaginárias.” E, dessa estreia em um processo colaborativo, como conta Christine (é a primeira vez que a Ekílibrio monta um espetáculo com uma direção coletiva), surgiu um espetáculo que se desenrola longe de um tradicional palco italiano. “Dançamos no chão. Temos objetos cênicos que vão compondo o cenário durante a apresentação”, adianta Isabela, para quem “Fluxidade” quer provocar sensações na plateia. “O público completa o espetáculo, e o tempo todo estamos construindo conhecimentos. O espectador não é passivo, ele interage com a arte, criando expectativas, emoções, modificando seu corpo como um todo”, sentencia a bailarina.
Isabela reforça que a Ekilíbrio sempre buscou apresentar temas que sejam relevantes e que estimulem a construção de um pensamento crítico em dança contemporânea. É com esse objetivo que, ao longo da trajetória, o grupo abocanhou honrarias, como o “Prêmio Mercocidades de Cultura” (2002), pela contribuição relevante para a valorização e inserção social do homem, “Prêmio Funarte além dos limites” (2006), que selecionou projetos voltados para a inclusão de pessoas com deficiência por meio da arte, e “Prêmio Itaú-Unicef – Todos pela educação” (2007), voltado para identificar, reconhecer e estimular parcerias entre organizações da sociedade civil (OSCs) e escolas públicas no desenvolvimento de projetos socioeducativos.
“Existem no Brasil muitos espetáculos só para adultos ou só para crianças. Com o viés adolescente, existe pouco”, destaca ela, enfatizando que a companhia debutou, em 1998, com o desejo de criar, produzir e pesquisar dança com atores/bailarinos com e sem deficiência. “Juiz de Fora tem um processo muito escasso de criação contemporânea. Acredito que acontecer um espetáculo com esse pensamento de arte é importante para a cidade crescer artisticamente.”
FLUXIDADE
1º, 2 e 3 de abril, às 19h30
CCBM
(Av. Getúlio Vargas 200)
8 e 9 de abril, às 18h30
Praça CEU
(Av. Juscelino Kubitschek 5.899 – Benfica)









