Versatilidade musical
Depois de duas semanas de intensa programação musical, o 23º Festival de Música Colonial Brasileira e Música Antiga termina hoje, com o concerto da Orquestra Filarmônica de Minas Gerais, às 20h30, no Cine-Theatro Central. "Vamos fazer uma compilação das nossas últimas apresentações em Belo Horizonte e em Campos do Jordão. É um programa que mostra uma grande variedade de elementos que vão desde a música romântica à reconstrução contemporânea, feita por Berio, em uma obra do século XVIII. O roteiro mostra a nossa versatilidade em interpretar estilos distintos", diz o regente da orquestra, Fábio Mechetti, que ainda destaca a contribuição cultural de cada integrante da Filarmônica no resultado do trabalho apresentado. "É um intercâmbio de experiências. Nosso produto é feito de obras que representam a universalidade do pensamento humano e, por isso, é uma vantagem que tenhamos em nosso meio um número bastante diverso de músicos de várias partes do Brasil e do mundo."
As boas-vindas ao público vão ser dadas com a execução de "Rienzi", de Wagner, passando pela "Retirata notturna di Madrid", de Berio, até chegar ao fechamento com "La valse", de Ravel. O ponto alto da noite está na participação do solista Luíz Filíp, mais novo integrante da Orquestra Filarmônica de Berlim. O músico vai tocar o "Concerto para violino e orquestra nº 2", de Guarnieri, empunhando um precioso violino Lorenzo Storioni, de 1774, cedido a ele pelo governo alemão. "O Guarnieri é um brasileiro fantástico, que ganhou vários prêmios na década de 40, mas que ficou esquecido do público. Acho que todos deveriam conhecê-lo. Fui convidado pelo Fábio Mechetti para fazer solo na orquestra depois que ele ouviu o DVD que gravei em 2008, com três concertos deste compositor", afirma o solista.
A Filarmônica de Minas Gerais acumula em seus apenas cinco anos de existência o prêmio de melhor grupo musical erudito de 2010, pela Associação Paulista de Críticos de Artes (APCA), além do Prêmio Carlos Gomes 2009 para o melhor regente brasileiro, dado ao maestro Fabio Mechetti. Já subiram aos palcos, com seus 90 integrantes, grandes nomes da música nacional e internacional, como Nelson Freire, Antônio Meneses, Arnaldo Cohen, Leon Fleisher e Kazuyoshi Akiyama.
Neste ano, o grupo realiza sua primeira turnê mundial, com cinco concertos no Chile, Argentina e Uruguai. Segundo o regente, o diferencial da Filarmônica está na busca constante pela excelência do trabalho realizado."O grupo foi criado pelo governo de Minas Gerais com o propósito de dar ao estado uma orquestra internacional. Sabemos que ainda temos muito a caminhar para chegarmos lá, mas estamos nos empenhando para que isso seja feito." O maestro ainda destaca que o festival juiz-forano é único, não só pela ênfase temática, mas também pela possibilidade de projeção nacional e internacional."Diversão e conhecimento não são opostos, mas complementares. Quanto mais se conhece, mais nos aculturamos e, assim, nos divertimos."
Músico brasileiro é destaque na Alemanha
Desde que nasceu, o destino do paulistano Luiz Felipe já estava traçado. Ele seria o primeiro brasileiro a conquistar uma vaga na Orquestra Filarmônica de Berlim, na Alemanha. E como se não bastasse, a conquista foi com unanimidade em todas as etapas."Para mim é uma honra enorme conseguir este posto, pois é uma orquestra com 130 anos de história. Receber os aplausos de todos os júris, nas duas provas, algo que eles nunca fizeram com ninguém, é muito gratificante", destaca o músico, que sonha realizar um festival de música brasileira na Europa.
A seleção contou com duas fases. Na primeira, o desafio era tocar uma composição de Mozart e, na segunda, um concerto romântico. Conforme Luíz Filíp – nome que adotou para que os alemães tivessem mais facilidade na pronúncia -, o talento não era fator determinante para a conquista do posto. Era preciso mais do que isso. Algo que fosse mágico e que pudesse emocionar aquela plateia seletíssima. "A técnica é o mínimo que todo mundo tem que ter. É o básico. O que conta é o lado artístico, a musicalidade e a fantasia. A perfeição não era suficiente. Eles só aceitam pessoas que vão além disso. E aquele era o meu dia, eu estava inspirado."
O violinista ainda faz questão de enfatizar que, para alcançar a magia, o músico tem que ser diferente de todo os outros. É essencial conhecer profundamente o compositor que está interpretando para saber até onde ir com sua criatividade. "A obra permite muita coisa. O autor escreve as notas numa folha de papel, mas aquilo não é a música final. A música em si está na linha do tempo, é a sonoridade que se move no ar. O papel te dá uma margem muito grande de liberdade, mas você tem que conhecer muito bem a partitura."
O interesse pelo violino começou com apenas 4 anos de idade, assistindo às aulas da irmã que hoje é violinista profissional na Orquestra Sinfônica Alemã. Aos 10, começou a ter aulas com a violinista Elisa Fukuda, em São Paulo. Mas foi aos 16 anos, quando se transferiu para a Alemanha, depois de ter conquistado uma bolsa de estudos oferecida pelo 32º Festival de Inverno de Campos do Jordão, que sua carreira musical seria consolidada.
Morando em terras germânicas, estudou no Conservatório Superior de Música Hanns Eisler e teve a oportunidade de se aperfeiçoar em várias escolas europeias. No Velho Continente, recebeu prêmio no 37º Concurso Internacional Tibor Varga, na Suíça, e no I Concurso Internacional Henry Marteau, na Alemanha, onde também venceu o Concurso Gerhard Taschner. "A experiência fora do Brasil agregou praticamente tudo ao meu trabalho, pois a Alemanha é o berço da música erudita. Ter ido para lá foi um sonho", diz o músico, que lamenta não encontrar, no seu país, o mesmo nível clássico de lá. "O público alemão vai a um concerto sabendo, praticamente, todo o repertório. As pessoas aprendem música ainda na escola. Infelizmente, no Brasil, a realidade ainda é diferente."
Comentário didático, às 19h30, concerto, às 20h30
Cine-Theatro Central
Entrada gratuita. Convites podem ser retirados no Teatro Pró-Música (Av.Rio Branco 2,329) a partir das 8h









