O que ele via?
"Vamos fotografar?", sugeriu Narcisse Szymanowski a Sérgio Neumann, durante o horário do café no trabalho no Museu Mariano Procópio. "Sem máquina", completou o fotógrafo, para a surpresa de Neumann. "O que você vê?", tornou a indagar Szymanowski, mirando uma pequena e enrugada folha no chão. "E ele começou a divagar sobre a folha, seu ressecamento, sobre como teria ido parar lá, sobre a origem da vida", conta Neumann, que assina a curadoria da exposição "Tributo a Narcisse Szymanowski", fotógrafo falecido em 2003 e homenageado do projeto "Foto 12", com mostra no Centro Cultural Bernardo Mascarenhas. "Saí de lá apaixonado pela folha", concluiu Neumann.
Filho de poloneses católicos que fugiram da Primeira Guerra Mundial, Narcisse nasceu em 1924 na França, país que, posteriormente, com a Segunda Guerra, também seria ocupado e devastado. As lembranças dos conflitos, somadas à vivência da revolução cultural na França dos anos 1960, aos estudos de filosofia e teologia e às inúmeras viagens culturais, não passariam sem deixar marcas, forjando-lhe uma personalidade voltada para as questões humanas, sociais e políticas. "Em cada lugar, ele encontrava um detalhe. Trabalhar a questão técnica na fotografia é possível a qualquer pessoa, mas a sensibilidade do olhar nasce com a pessoa. Ele tinha essa visão especial", avalia o curador.
O baú com os pertences pessoais do fotógrafo, que desembarcou no Brasil em 1966, também está exposto na mostra, preenchido por imagens do acervo pessoal de Narciso – como seria chamado aqui -, hoje preservado por Neumann. "Narciso veio de avião, mas sua bagagem, de navio. Por isso, chegou ao porto do Rio de Janeiro muito tempo depois", conta a viúva do francês, a juiz-forana Francisca, com quem se casou em 1972 e teve dois filhos. "Ele tinha um jeito mais sério, europeu, mas adorava o brasileiro. Ele amou essa terra intensamente", compartilha a viúva.
Logo que chegou à cidade, dedicou-se à ação pastoral da comunidade penitenciária do Bairro Linhares. Atuou como capelão durante cinco anos, antes de pedir dispensa do Ministério Sacerdotal. "Ele não ia à penitenciária passar a mão na cabeça dos presos. Ele era duro, lidava com eles de homem para homem, mas via os presos como seres humanos e se empenhava para dignificar suas condições de vida", relata Francisca, que, assim como o marido, era militante católica e defendia as causas ligadas aos direitos humanos no delicado período da ditadura.
"Existem fotógrafos e fotógrafos. O que fará esta diferenciação é o olho, não o dedo", escreve Afonso Rodrigues, em texto que acompanha a exposição. Além de se dedicar à arte de fotografar, Narcisse se aprofundou nas pesquisas científicas fotográficas. Até chegar à imagem que julgava perfeita, o fotógrafo fazia diversas provas fotográficas, experimentações de composições, planos, ângulos, luz. A arquitetura, sobretudo religiosa, figura como o principal objeto do olhar perspicaz do fotógrafo. "Suas imagens são fragmentos de vida. Suas técnicas de composição nos obrigam a olhar para o que ele queria. Incitam um movimento natural do olhar", ressalta o curador.
O período em que viveu em Pernambuco, na década de 1970, foi positivamente produtivo na obra de Narcisse. As séries que retratavam a degradação da arquitetura sacra nordestina foram fundamentais para suscitar ideias relacionadas à preservação do patrimônio arquitetônico brasileiro e lhe renderam o emprego na Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco (Fundarpe). "Seus conhecimentos religiosos lhe davam mais embasamento, o que foi fundamental", pontua Neumann.
Retornando a Juiz de Fora, em 1981, Narcisse foi editor de fotografia da recém-inaugurada Tribuna e, pouco depois, passou a se dedicar ao trabalho de preservação e identificação do acervo fotográfico do Museu Mariano Procópio, onde atuou até 2000. "Ele viveu a fotografia na Europa e estudou muito, além da ampla vivência cultural. Por isso, foi imprescindível na função de identificar obras importantes do acervo do museu", destaca o curador. "É essencial para a sociedade resgatar esses personagens e suas obras."
TRIBUTO A NARCISSE SZYMANOWSKI
De terça a sexta, das 9h às 21h, sábados e domingos, das 10h às 16h. Até 12 de setembro
CCBM
(Avenida Getúlio Vargas 200)









