Relíquias adormecidas
Embora eclético, não há como negar a verve teórica assumida pelo Festival Internacional de Música Colonial Brasileira e Música Antiga, segundo o maestro Sérgio Dias, professor titular da cadeira de Musicologia do Departamento de Música da Universidade Federal de Pernambuco. "Sem medo de errar, acredito que a parte musical do evento vem crescendo em torno da Orquestra de Música Histórica do Festival", avalia o regente. Formada por cerca de 20 alunos das oficinas, a orquestra apresenta, neste sábado no Teatro Pró-Música, repertório revestido de grande valor musicológico, já que será mostrada ao público, pela primeira vez, uma versão incluindo as partes de trompa I e II do "Te Deum" do pernambucano Luis Álvares Pinto, de meados do século XVIII. "Os ‘Te Deum Laudamus’ eram hinos de aclamação (A vós, Deus, louvamos) apresentados nos finais de missas solenes. Em Portugal e em suas colônias, havia o hábito de executá-los no dia 1º de janeiro, como ação de graças", explica.
Considerada uma relíquia, pois, de acordo com Dias, só se tem conhecimento de quatro obras restantes de Álvares Pinto, a peça, cuja apenas a primeira parte foi preservada, foi reconstruída a partir dos estudos do maestro. A obra apresenta acentuado sabor luso-napolitano para uma instrumentação bastante convencional na época: vozes, oboés, trompas, violinos, violas e baixo contínuo. À nova versão instrumental soma-se o Coral Colonial do Festival: coro e solistas selecionados dentre os alunos que se destacaram nas aulas de canto, regido por Mário Robert Assef.
O resgate traduz uma das essências do festival: trazer à luz obras da música antiga adormecidas. "Pesquisar essas obras, apresentá-las aos alunos, disponibilizar as partituras são processos fundamentais", observa o maestro, também membro da Sociedade Brasileira de Musicologia, da Associação Brasileira de Escolas de Música e do Comitê Interamericano de Música. "Os próprios alunos ficam muito gratificados de poderem participar desse resgate e fazer parte desta primeira audição contemporânea." Ainda serão apresentadas duas peças inéditas, dos compositores portugueses João de Souza Carvalho e Policarpo José da Silva, do fim do século XVIII.
A noite contará ainda com a apresentação da Orquestra Sinfônica dos Alunos do Festival, sob regência de Ângela Pinto Coelho, de Belo Horizonte, regente titular da Orquestra Sinfônica Jovem do Palácio das Artes, da Orquestra de Câmara Carlos Alberto Pinto Fonseca e do Coro de mesmo nome, vinculados ao Instituto Cultural Carlos Alberto Pinto Fonseca (ICAPF). Formada no primeiro dia do festival por alunos que demonstram um nível médio ou avançado, a orquestra – composta, neste ano, por cerca de 70 alunos – se dedica a ensaios diários. À frente desse trabalho desde 2010, Ângela diz estar sempre um busca de um repertório eclético e acessível. "Selecionamos obras importantes, mas que sejam novas para eles, que os instiguem e tragam desafios", ressalta. Como desafio aos estudantes estão peças de Rossini, Beethoven, Mozart e Bizet.
Importante momento de desenvolvimento do músico, a prática em conjunto é tida pela regente como um momento fundamental do festival. "A troca de conhecimentos e a vivência do repertório sinfônico é uma experiência muito importante, que deveria ser estendida a todos os participantes do evento. Música não é só prática, existe algo mais. É preciso sentir as notas", destaca. "O festival, assim como o próprio Pró-Música, crescem a olhos vistos a cada ano no cenário brasileiro."
Sábado, às 20h30
Teatro Pró-Música
(Avenida Rio Branco 2.329)









