O corpo em cena
O teatro é, antes de tudo, uma espetacularização da natureza. Cotidiano em forma de show. Os anos de dedicação às possibilidades teatrais levaram o diretor italiano Enrico Fasella à certeza de que todas as linguagens cênicas podem ser trabalhadas de maneira potente. Não existe certo ou errado, o que há são diferentes caminhos que podem ser tomados, observa, em um português seguro, lapidado graças ao intercâmbio de longa data com artistas brasileiros. Responsável pela Companhia Torino Spettacoli, de Turim, o diretor esteve na cidade a convite do Teatro de Maquinaria, do Rio de Janeiro, e compartilhou experiências com os artistas locais na primeira Residência artística de intercâmbio, realizada entre os dias 15 e 17 deste mês.
O conceito das ações físicas, desenvolvido por Constantin Stanislavski, assim como os princípios da biomecânica teatral, formulados por Vsevolod Meyerhold, aparecem como eixos norteadores do encontro. A ‘biomecânica teatral’ não é uma estética ou uma linha única a ser seguida. Ela é uma inspiração, na qual nos baseamos para aperfeiçoar o trato corporal para o espetáculo, explica o diretor do Teatro de Maquinaria, Fabrício Moser. Neste sentido, as oficinas se encaminharam para o desenvolvimento de uma consciência corporal, da utilização da energia, das noções de tempo e ritmo, entre outros exercícios que se apropriam de conceitos mais específicos.
O corpo é o instrumento do ator, pontua Moser, destacando o papel fundamental do fisioterapeuta no aperfeiçoamento de uma inteligência física no trabalho do grupo carioca, que se apresenta tanto no palco quanto na rua, em intervenções urbanas. Encorajando as experimentações, voltadas ao processo de amadurecimento do elenco, o grupo se lançou às pesquisas de diferentes concepções artísticas, como a da cinematização – relações existentes entre o teatro e o cinema. Saímos às ruas manuseando artefatos com os quais dávamos foco a quem passava, como verdadeiros enquadramentos de cinema. Poder observar a reação das pessoas diante desse exercício foi uma experiência muito enriquecedora, conta Moser.
Cenários particulares
Fasella é categórico. Tudo já foi feito no teatro europeu. Para ele, é possível, apenas, modificar o que já existe. Dos espetáculos em cartaz em Londres, 90% são musicais ou comédias, diz o diretor, que viajou à capital inglesa recentemente e aponta um considerável declínio das vertentes contemporâneas, já muito exploradas no continente. A ampla profissionalização da classe artística acabou por, em certo sentido, industrializar o teatro europeu, em detrimento da entrega ao processo criativo, essencial à arte. O ritmo é muito acelerado, muito comercial. Ensaiamos 15 dias, entramos em temporada, e, logo em seguida, já estamos produzindo outro e mais outro espetáculo, exemplifica.
Ser ator é uma profissão como outra qualquer, o que, segundo o diretor italiano, acaba minando o encantamento de subir ao palco. Tal cenário é o oposto do encontrado pelo profissional no Brasil, algo visto como motivador. O brasileiro é muito curioso. Tem a vontade e a disponibilidade que estão em falta nas nossas produções, compara. Existe muito incentivo do Governo para as artes na Europa, mas, muitas vezes, esse financiamento acontece sem critério.
Ainda mais importante que enxergar a profissionalização na área como legítima é, para Moser, apostar na inserção das manifestações artísticas no cotidiano brasileiro. Ainda precisamos chegar ao estágio de ver a arte como uma possibilidade de riqueza, capaz de fazer girar a economia, e, de fato, trabalhar essa potência, defende. O teatro tem um poder unificador, uma força de transformação política, acrescenta a atriz Luciana Fins, que já atuou em grupos da cidade e, hoje, também faz parte do Teatro de Maquinaria. Essa arte tem um quê de alquimia, brinca o diretor carioca. A linguagem teatral nasce com o homem. Só precisamos lapidá-la desde o princípio, finaliza.









