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Novo filme do cineasta juiz-forano Marcos Pimentel estreia no Festival do Rio

“A parte do mundo que me pertence” retrata sonhos triviais de pessoas comuns


Por Mauro Morais

27/09/2017 às 08h19- Atualizada 27/09/2017 às 08h31

Cena do filme inclui anseio de criança em ver a pipa subir o mais alto possível (Fotos: Divulgação)

A mão que tensiona a linha e a puxa de volta para logo soltá-la quer dizer o mesmo que os olhos brilhando voltados ao céu. Ambos os gestos indicam a intenção do voo das pipas. Sob a lente sensível do cineasta atento à poesia do silêncio, a musicista e seu treino incessante, o idoso e sua preparação para a dança noturna, o lutador e seu encanto pelo canto do rap, e muitos outros sonhos cotidianos também ambicionam o voo. Em “A parte do mundo que me pertence”, mais novo longa-metragem do juiz-forano Marcos Pimentel, as imagens narram o que enche os corações e induzem os passos. “Resolvi fazer esse filme movido a entender os combustíveis que nos movem no cotidiano. Queria voltar minha atenção para os sonhos e desejos da gente comum, personagens anônimos que não habitam nenhum cartão-postal, nenhuma imagem chave de cidade alguma. Queria fazer um filme que mostrasse como o que a gente quer se reflete nos atos e gestos do dia a dia. Nesse filme acompanho nove pessoas completamente diferentes, cada um quer uma coisa, tem gente que deseja o impossível ou difícil, como ganhar na loteria, e outros que querem coisas pequenas e fáceis de conseguir. Acompanho sem julgar esses desejos, porque o que eu quero é chamar atenção para a grandeza das ações de vidas anônimas, mostrando que sonhar faz parte da existência do ser humano”, conta Pimentel, que, numa de suas maiores decolagens, faz a estreia mundial do filme na competitiva Première Brasil do Festival do Rio, que começa no próximo dia 5, quinta-feira.

Incluído na Mostra Novos Rumos, ao lado da nova produção documental de Evaldo Mocarzel (“Até o próximo domingo”, sobre o dramaturgo Nelson Baskerville) e de outros aguardados filmes, “A parte do mundo que me pertence”, patrocinado pela Lei Murilo Mendes, é visto em sua potência contemporânea. “Estamos numa mostra especial, num espaço para experimentação de linguagem dentro do festival. Ele é um documentário, mas não está nessa categoria exclusiva de documentários, mais voltada para biografias, na maioria das vezes de pessoas famosas. Para mim, foi muito importante estar nesse lugar, porque é o que propomos fazer, um filme artesanal, com equipe mínima, baixo orçamento e um minimalismo tanto na temática quanto no modo de produção. Não tem pirotecnia. É simples e tem sua sofisticação exatamente pela simplicidade”, defende o cineasta.

Gravada em Juiz de Fora e Belo Horizonte, a produção estreia em posição melhor que o anterior “Sopro”, que permaneceu por 13 semanas em algumas salas de cinema do país e exibido em 72 festivais de 16 diferentes países, dentre eles o Festival des 3 Continents, em Nantes, na França, o norte-americano Hollywood International Film Festival, o disputado mexicano Festival Internacional de Cinema de Guadalajara e o aclamado Festival Internacional Visions du Réel, na Suíça. “A Mostra Première Brasil é uma grande vitrine. Os festivais do Rio e de Brasília ficaram com o papel de serem os dois grandes responsáveis por alavancar a produção nacional. E essa mostra tem uma visibilidade impressionante. Tanto é que só de sair a seleção, já aconteceram vários convites para outros festivais e mostras, e muitos curadores de festivais internacionais entraram em contato solicitando o link para ver o filme.”

Obra de pausas e tempos mortos

Foi preciso tempo não apenas para conhecer a jovem com síndrome de Down que sonha ser bailarina, mas para saber como retratá-la em imagens, apenas. Da mesma forma, os outros oito personagens do documentário de 84 minutos são revelados no silêncio de seus gestos , não menos verborrágicos que os discursos falados. “Se eu perguntar o que você quer, é fácil me responder. Mas como eu descubro o que você quer sem que precise me falar? Como filmar o interior das pessoas, coisas não tangíveis, que levamos por dentro? Que pistas preciso dar para que entendamos o que a pessoa quer, sem que ela precise contar?”, indaga Marcos Pimentel sobre sua construção de flagrantes ordinários como a vida em sua plenitude. “Não é um documentário convencional, mas de observação discreta e recatada, em que eu tentava ser praticamente invisível”, conta. “O filme nasce da costura desses cotidianos, de elementos que muito discretamente levam a gente de um espaço a outro, por proximidade ou afastamento.”

 

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Longa de Marcos Pimentel flagra a solidão cotidiana de nove personagens de Belo Horizonte e Juiz de Fora

 

Independente do verbo

A palavra, defende o cineasta, funciona como textura do que é narrado. “Não é um filme mudo. O som é fundamental para a construção, mas criador de uma atmosfera sonora, bastante realista, e independente do verbo”, reforça o autor de uma cinematografia cada vez mais silenciosa. “Comecei fazendo filmes em que a palavra tinha um peso muito grande, por entrevista ou por créditos contando a história, ou até mesmo com locução. Isso foi desaparecendo ao longo da minha trajetória. A palavra foi esvaindo. Acho que tem a ver com um processo meu de observar o mundo de uma forma cada vez mais silenciosa. Um processo de vida que se refletiu nos filmes que faço. Então, neste filme já busquei personagens cujas histórias me proporcionassem construir um trabalho bastante silencioso”, diz.

Se em “Sopro” os olhos se voltavam para as questões de vida e morte numa comunidade rural, em “A parte do mundo que me pertence”, transbordam cidade e vida. “A cidade está presente como palco da satisfação dos desejos, como lugar de atrito que força cada um a se mover, mas não localizamos cidade alguma. A proposta é chamar atenção para as pessoas”, aponta Pimentel. “É um filme de esferas íntimas, de casa, construído com pausas e tempos mortos de momentos de solidão cotidiana. Normalmente, quando está construindo uma narrativa, é o que eliminamos, porque não é informação que diretamente acrescenta. Resolvi construir um filme com tudo o que é descartado num filme tradicional. Inverti a lógica, e tem a ver com minhas pesquisas e minha maneira de ver e acessar o mundo. Sou muito mais de dividir silêncio que verbalizar e teorizar o cotidiano.”

Leve como a pipa da criança que compõe um espectro de personagens tão variado quanto emocionante, o novo filme de Marcos Pimentel anuncia um diretor amadurecido e, sobretudo, consciente. “O que me proponho é a conversar de forma intensa e profunda com um público pequeno. Quero falar coisas para pessoas, mesmo que seja um público menor, mas quero conversar muito. Não exercito um cinema que aspira grandes bilheterias. Sei onde estou entrando, sei o tamanho dos meus filmes e a dimensão que podem ter. Não tem como mensurar em como ele vai reverberar em cada pessoa a quem ele tem acesso, mas proponho provocar sensações e inquietudes de maneira silenciosa”, discute o cineasta, que, como sua obra, não recusa o voo.

 

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